O AGO (Art Gallery of Ontario) estava lotado. Era o primeiro dia da Exposição Guillermo Del Toro: At Home With Monsters em Toronto (Canadá) e o zumbi walk era justificável. Já na fila do ingresso, todos trocavam olhares ansiosos, cheios de expectativa sobre o que iríamos testemunhar em poucos minutos. Subi as escadas da galeria como quem fugia de uma criatura medonha sem querer dar bandeira… e já na entrada o próprio Guillermo tentou me acalmar, contando sobre as razões dele compartilhar um pouquinho da Bleak House, o seu museu de inspirações.

Num lapso, entendi realmente o que ele tinha acabado de falar – o que eu iria testemunhar fazia parte de sua coleção pessoal e bom, eu não estou falando de uma coleção de figurinhas de bafo (nada contra, mas não foi o caso), mas de uma infinidade de objetos raros, pinturas, originais, sketches e esculturas colecionados no que eu acredito piamente ser de uma pessoa com pelo menos 200 anos. Eu precisaria de no mínimo 5 posts beeem longos para descrever tudo o que vi por lá e todos os sentimentos gerados. Portanto, por aqui vou deixar a minha lista de preferidos e que as criaturas da noite, guardiões dos posts longos não me ouçam, mas tentarei ser breve.

Toda a exposição era dividida em “quartos” e cada um continha temas que sempre inspiraram o diretor. Tem o quarto da Era Vitoriana, da Mágica, Alquimia e Oculto e por aí vai. Todo um universo de referências e inspirações que só confirmam um fato: estar rodeado pelo o que você ama, te faz um ser humano capaz de criar coisas maravilhosas. Mesmo que você seja como eu, que não tem o estilo dele como referência para o seu trabalho, é impossível não admirar e se contagiar pelo o seu processo criativo e por não ter medo de expor o seu universo particular. Em alguns momentos me senti invadindo a casa dele, me esgueirando pelos cantos como um fantasma.

1. A escultura do Pale Man do filme de Guillermo Del Toro, Labirinto do Fauno

Um dos meus filmes preferidos, desconfio que é um dos monstros que mais me dão medo no cinema. E o Fauno, que é um personagem interessantíssimo e cheio de dualidade.

2. Logo no começo da exposição uma série de quadros bizarros me chamou a atenção

Infelizmente não fotografei o nome do autor – mas achei sombrio e profundo porque me lembrou os tipos de retratos que eu via na casa da minha vó (só que sem seres fantásticos saindo de chapéus).

3. Assim como eu, Guillermo Del Toro ama chuva e fez um quarto chamado Rain Room, que simula uma chuva que dura eternamente

Ele declara que esse é o seu lugar preferido para trabalhar. Confesso que estou escrevendo esse post e está chovendo muito por aqui. Coincidência?

4. A escultura de Edgar Alan Poe no Rain Room e Lovecraft, dois de seus escritores preferidos

Eu fiquei olhando pra eles por muito tempo, esperando alguma reação. Um choro de uma criança quebrou o silêncio e eu quase fiz xixi nas calças. Isso não se faz.

5. Um busto de Nospheratus numa das prateleiras me arrepiou a nuca

6. Esse quadro também do Labirinto era enorme e eu quase ouvi a protagonista soluçar

7. Uma pintura gigante de Dave Cooper

Me deu uma aflição de tantos olhos num quadro só.

8. Não pude evitar, esboços de Hellboy e do Labirinto do Fauno estavam em toda a parte

Um bom risco a lápis sempre me emociona.

(© Guillermo del Toro/Photo courtesy Insight Editions/Courtesy of AGO)

9. Essa foto emprestei do AGO, porque com o meu celular era impossível tirar o reflexo do vidro

Vários dos seus journals estavam lá, com notas de seus filmes, rabiscos. Um processo criativo bem rústico e real. 

10. Frankenstein não poderia estar fora da lista de “obsessões” do diretor, e essa cabeça dele no fim da exposição te deixa hipnotizado

Pelo o que pesquisei, infelizmente essa exposição não irá para o Brasil, apesar do meu profundo desejo de que vocês vissem tudo isso. Aflição, medo, arrepio, surpresa, agonia, estranheza. Teve tudo isso. O curioso é que não são sentimentos que interpretamos como positivos, mas se eu pudesse resumir, diria que saí de lá com um sensação de que havia um estranho aconchego entre todos aqueles objetos sombrios.

Talvez a escuridão seja uma incompreendida e que exista uma profundidade bonita naquilo que é genuinamente diferente e que não se entenda a primeira vista. A exposição termina categórica com uma frase do diretor: “O meu o maior desejo é que assim que você saia dessa exposição, os monstros te acompanhem até a sua casa”.

Já em casa, sentada no sofá e pensando em tudo isso, senti um leve arranhão na perna. Olhei pra baixo com uma certa tensão…era apenas um de meus gatos pedindo carinho.

Clau Souza é ilustradora há 10 anos e está a frente do Estúdio, Lojinha e Cursos Criativos da Borogodó. Durante a sua caminhada pela estrada de tijolos amarelos da ilustração já teve a felicidade de estar em grandes publicações da área, como Lürzer’s Archive, Zupi e Computer Arts. Desconfia seriamente de pessoas que não gostam de cores e tem pavor de palhaços (mas já teve que desenhar alguns).

Clau Souza – já escreveu posts no Follow the Colours.


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