A bailarina Evelin Bandeira tem um projeto solo de dança que flerta com as artes visuais. Após pedido na internet, recebeu mais de 1000 obras de a​rtistas de diversos países.

Como seria o corpo de alguém que não é mais visto? Quais suas ações? O que ele comunica? Quais as suas memórias? E se esse corpo fosse o corpo da última sobrevivente de um apocalipse?

Essas são algumas das perguntas levantadas durante o processo de criação da obra de dança contemporânea “Apenas o Fim do Mundo” idealizado pela atriz, bailarina e coreógrafa, natural de Sorocaba (SP), Evelin Bandeira, que tem em seu currículo estudos com grandes nomes da dança como Bradley Shelver (África do Sul), Ryolo Kudo (Japão) e Maxine Steinman (EUA).

Sua performance narra de forma poética a vida da última sobrevivente de um suposto apocalipse e tem como um dos objetivos discutir processo de encontro da mulher com aquela que vive no fim dos tempos, aquela que mora no fim do mundo. Porém, apesar de ser concebido primordialmente como uma obra de dança contemporânea, “Apenas o Fim do Mundo” encontra apoio em outros tipos de manifestações artísticas, como o teatro e as artes visuais.

A partir desse encontro, foi feita uma convocação online, na qual Evelin convidou artistas do mundo inteiro a enviarem suas obras sob o tema “O Mundo Como Você Vê / The World As You See”. O pedido, a princípio despretensioso, recebeu mais de 1000 obras de arte, de artistas novos e renomados, do mundo inteiro.

As obras recebidas não só irão ajudar a artista no processo de montagem da performance (que tem previsão de estreia para o final de 2017 e o primeiro semestre de 2018), como também, integrarão uma instalação artística parte do cenário do espetáculo, além de serem expostas no blog do projeto.

Conversamos com Evelin para saber como surgiu essa ideia e suas inspirações. Confira entrevista!

FTC: Conte um pouco sobre você e como chegou até a ideia do projeto. 

Meu nome de batismo e artístico é Evelin Bandeira, sou bailarina e atriz e acredito na cura através da arte. Falar de mim é sempre um desafio porque eu me vejo em constante mutação. Mas essencialmente a minha vida e a missão nesta terra é a dança, é a arte, com a qual trabalho desde sempre – lógico que já fiz vários freelas em diversas áreas durante um longo período para pagar as contas, mas a arte sempre esteve presente e, à partir de um certo momento, com a maturidade, ela se tornou minha principal fonte de renda. Da visão mais tradicional às transformações que vivi quando estudei em Cuba e com artistas de diversas partes e disciplinas é que fui descobrindo o meu estilo, o meu corpo, as minhas vontades, a minha própria arte.

O projeto ‘Apenas o Fim do Mundo’ nasceu quando eu trabalhei em um espetáculo/ocupação artística em 2014/2015, na cidade de Sorocaba (interior de São Paulo), em que tínhamos um vagão de trem adaptado para receber performances, no entanto, na época, o mesmo estava abandonado, uma sensação pós-apocalíptica praticamente, e quando eu o vi, me apaixonei e imediatamente precisei criar algo para ocupá-lo. Nascia então, ‘Apenas o Fim do Mundo’ – nome inspirado na peça homônima do Jean-Luc Lagarce. Um conceito ainda muito abstrato na época, que foi tomando corpo e cor com o passar dos meses até fazer sua primeira aparição no palco do Núcleo Pedro Costa (São Paulo/SP), em uma mostra solo de criadores no ano de 2015. Logo em seguida, eu deixei o processo de lado para me concentrar na criação do ‘Silêncio’, projeto contemplado com o ProAC no mesmo ano. E só retomei o projeto em meados de 2016, após uma imensa transformação pessoal e, porque não dizer, espiritual, com objetivos mais refinados e uma equipe mais preparada para esse desafio.

‘The Sense of Bouncing Balls’ de Anna Larson, Suíça.

FTC: Qual feedback você esperava após o convite aos artistas?

Quando eu lancei a convocatória, em janeiro deste ano, eu não tinha muitas pretensões. Imaginava que chegariam, com muita insistência de minha parte aos meus amigos artistas plásticos, umas trinta obras. A primeira arte chegou em fevereiro, e assim, foram chegando. Mas, quando em março recebemos mais de 200 obras, eu fiquei bastante animada.

FTC: Tem alguma obra que recebeu que a tocou mais? 

Cada obra é muito especial. Carrega uma energia incrível. Algumas em particular capturaram a minha atenção, mas se eu tivesse que escolher apenas uma, seria ‘The Sense of Bouncing Balls’ de Anna Larson. Uma fotografia em preto e branco revelada em acetato. Cada um poderá interpretar, ou não, essa obra como puder e quiser. Eu inventei uma história mirabolantemente romântica sobre o objeto da foto ser um grande amor e construí, mentalmente, uma narrativa repleta de lembranças sobre o amor. Sou uma romântica inveterada!

Cris Toala Olivares, Holanda. 

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte? 

A arte para mim é tudo e é nada. É aquilo que nos toca profundamente. A arte é, simplesmente. Honesta. Capaz de transcender a batalha das percepções. Etimologicamente, arte é técnica, mas acredito que técnica sem coração, é muito pouco. Não tem brilho.

E a minha arte é, de maneira muito autobiográfica, a busca daquilo que brilha dentro de mim quando tudo está em silêncio. Enquanto o meu corpo é um mero instrumento, a arte é o que transcende, é a alma dos meus movimentos, é a verdade que rasga a minha pele e transparece nas minhas ações. É o caminho para a minha própria cura.

FTC: Com o que você se inspira? 

Com a presença de tudo aquilo que é. Com tudo aquilo que tem alma. Com tudo aquilo que tem tudo de si. A resposta parece abstrata, eu sei. Alguns artistas trabalham com tudo o que tem e são, transcendendo as questões sociais e culturais. Eu poderia citar diversos nomes como Ohad Naharin, Sidi Larbi, Pina Bausch, José Limón, Frida Kahlo, Rupi Kaur, entre tantos outros. E ultimamente, a minha maior inspiração tem sido a mulher em todas as suas formas, lutas e angústias dentro e fora da arte.

Eni Lis, Brasil. 

FTC: E agora, o que vem pela frente?

A montagem final do espetáculo (é importante ler essa frase imaginando um certo tom de desespero… risos). Há 2 anos e meio em processo, ele já tem previsão de estreia oficial para início de 2018 e estamos finalizando o repertório musical e organizando as artes, que ainda estão chegando, para a montagem da instalação que servirá de cenário para  a obra. Além de “Apenas o Fim do Mundo”, continuo a circulação do meu espetáculo anterior, ‘Silêncio’.

Fotografias de Evelin Bandeira por Camila Fontenele e Andrea Dias (divulgação do espetáculo).

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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