Fazendo uma pesquisa para um projeto, me deparei com uma palavra de origem japonesa: Ganbatte. Na minha busca, estava procurando algo que funcionasse como sinônimo da palavra “sorte”, que no Brasil é usada nos mais diferentes momentos: desde um desejo de que você consiga aquele emprego dos sonhos até o dia em que você vai rever toda a família depois de 2 anos evitando o encontro. No Japão, Ganbatte é a palavra que se usa nesses casos – mas diferente de uma peripécia do destino, lá o sentido é de “esforçar-se”. Bom, eu que não tenho conhecimento de causa de outras áreas, mas me permito exagerar e dizer que ilustrar é a arte do Ganbatte.

Ontem a noite eu ainda estava trabalhando, quando olhei na minha agenda uma última tarefa pendente: aula. Sim, eu ainda tinha que estudar e tava só na capa do Batman. Quando me deu uma pontada na cabeça, parei, mas aquilo me deu um peso de consciência, porque eu ficava ouvindo o meu professor flutuando em minha mente: “You have to practice, over and over again”. Prometi em cima da ilustra de Retta Scott que acordaria com as galinhas pra estudar. 

Esse é um exemplo, de tantos momentos que a gente tem que ir além. Por isso acho fofo de tão ingênuo quem realmente acredita que ilustrar vem de um dom. Pode haver sim uma predisposição, mas não há uma luz cósmica que faça você desenhar bem. Alguém me avisa se tiver, que eu faço um post especial pra falar disso e espalhar a boa nova. Mesmo os que nunca foram pra sala de aula, houve muito treino, houve suor. E mais uma vez concordo com os japoneses, que valorizam mais um objetivo alcançado com muito esforço, do que por puro talento. Além do fato de que argumentos como esse fazem as pessoas se distanciarem de coisas que gostam, porque sempre disseram que é preciso ter talento, como se você tivesse que ser escolhido na roleta russa da vida. Vamos juntos mandar isso as favas. 

ESCREVA GANBATTE NA PAREDE, NA TESTA, NO ESPELHO

Portanto, se você está sentindo que não chegou aonde queria, que teu traço não tá do jeito que você gostaria, que você não está nem no dedinho do pé daquele ilustrador que te inspira, tá na hora de se esforçar, de chegar lá porque sim. Não espere ter uma oportunidade de trabalho pra se esforçar, faça isso nos bastidores, quando ninguém tá vendo. Trabalhe como se você já estivesse fazendo o job dos sonhos, mesmo sendo para o cliente mais humildão. Larga o celular, o Netflix e substitua isso por um lápis e papel. E por via das dúvidas, escreva GANBATTE na parede, na testa, no espelho. Ganbatte, meus queridos ilustradores. Ganbatte. 

Clau Souza é ilustradora há 10 anos e está a frente do Estúdio, Lojinha e Cursos Criativos da Borogodó. Durante a sua caminhada pela estrada de tijolos amarelos da ilustração já teve a felicidade de estar em grandes publicações da área, como Lürzer’s Archive, Zupi e Computer Arts. Desconfia seriamente de pessoas que não gostam de cores e tem pavor de palhaços (mas já teve que desenhar alguns).

Clau Souza – já escreveu posts no Follow the Colours.


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