Utilizar a fotografia como uma ferramenta para analisar e descobrir memóriasResgatar o passado para entender o presente e consequentemente viver um futuro mais tranquilo e consciente. Manter vivas as histórias de seus pais e de sua família. 

O projeto autobiográfico de Camila Fontenele, Longe é um lugar perto de mim, tem como objetivo colecionar essas conexões, memórias, distâncias e (re)encontros.

O intuito de Camila é investigar lembranças maternas e paternas, derrubar os muros erguidos pelo esquecimento e restabelecer uma nova linha de pensamento e atitude com o presente.

A artista visual pretende realizar uma viagem até a terra natal do pai e da mãe para coletar materiais, como: depoimentos, fotografias, textos, cartas, objetos e etc, informações que possam ajuda-la a compor uma linha menos distante entre o ontem e o hoje.

Em entrevista exclusiva, Camila falou um pouco mais sobre suas inspirações e como a ideia surgiu. Acompanhe este projeto tão real, profundo e interessante:

FTC: Camila, como chegou até a ideia do projeto “Longe é um lugar perto de mim”? 

A minha infância foi construída em flash na minha cabeça, mudamos muito de casa e toda hora eu era a pessoa a ser apresentada na sala de aula, a ter amigos novos e se mudar novamente, a menina dos inúmeros sotaques misturados e de aparência “estranha”.

Sorocaba foi o lugar que meus pais decidiram ficar, pelo menos por enquanto, no entanto eu não me sinto daqui, como também não me sinto da cidade em que eu nasci, São Paulo, capital. Apesar da proximidade de ambas, tenho a sensação de sempre estar no meio do caminho de algo e/ou alguma coisa.

Esse projeto nasceu quando eu tinha 19 anos, mas não com esse nome, muito menos maturidade. Era um blog onde eu queria escrevia sobre a história dos meus pais: uma mulher do Ceará que chega em São Paulo para trabalhar e um homem que trabalha como segurança em um prédio no Rio de Janeiro; apaguei tudo depois de uma fase ruim em nossas vidas e resolvi retomar em 2015, agora já com o nome de Longe é um lugar perto de mim.

Foram dias e dias com o coração quase saindo pela boca porque eu não sabia qual tipo de solo estava pisando, na verdade ainda não sei, já quase desisti antes de chegar na metade (acredito que nem cheguei perto da metade) e, em meio aos tropeços, continuo porque esse trabalho é como se fosse uma missão pra mim.

FTC: Qual a relação entre a fotografia x memórias para você? 

A minha mãe é uma pessoa que guarda muita coisa, isso vai desde as palavras, amor, gestos, dores, até os cadernos de poesia e fotografia. Eu conheci meu avô materno em foto, apesar de saber (pela minha mãe) que ele nos visitou antes de falecer. Em compensação, eu não conheço meu avô paterno porque em casa não há nenhuma foto dele.

Pra mim, a fotografia serve para contar algo sobre um lugar ou alguém, dos grandes álbuns de família até os arquivos que permanecem no celular/computador, tudo é importante para traçar e reconhecer algum momento.

É por isso que, em 2015, eu resolvi utilizar a fotografia como uma ferramenta de analisar e descobrir minhas memórias, para que talvez daqui uns anos exista algum tipo de reconhecimento e recordação do que passou e do que ainda sobrevive.

FTC: Qual a influência das cores neste seu trabalho? 

A maior parte dos meus trabalhos contém muita cor e contraste, acho que esse não seria diferente, principalmente se tratando dos ambientes de pesquisa: Ceará e Rio de Janeiro. Apesar de São Paulo ser considerada a cidade cinza, agora mais que nunca, espero conseguir passar também uma paleta de cor interessante, ela também está no roteiro, pois é minha cidade natal.

FTC: Está tocando algum outro projeto específico atualmente?

Sim, na verdade eu sou uma pessoa que sempre está pensando ou trabalhando diretamente com algo. Além do Todos Podem Ser Frida, projeto que já dura quase cinco anos e agora caminha para um fechamento de ciclo; tem a web série “Me Conta Tua Saudade”, qual faço em parceria com a Mila Coutello (o projeto é de autoria dela); e o Um chá: relatos e registros, qual lancei agora em janeiro.

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte dentro desse projeto?

Eu sempre me faço essa pergunta, pois arte pode ter tantos significados dentro e fora da gente. Vejo a arte em mim quando meu coração acelera ao elaborar um trabalho ou descobrir novas coisas, situações, pessoas…

Nesse projeto acho que poderia me apossar da fala da poeta Matilde Campilho, quando ela diz que a arte salva momentos, ousaria também acrescentar que a arte, nesse caso (ou, talvez em até outros), é uma maneira de ter fé.

FTC: Uma frase que representa o projeto Longe é um lugar perto de mim;

Minhas memórias tem gosto de sal; foi a frase que a minha mente formou desde o primeiro dia.

FTC: É muito difícil exteriorizar algumas memórias. Transformá-las algo que antes era inconsciente em algo consciente. Qual foi a maior mudança que esse trabalho te causou? 

Na verdade ele ainda está causando, é um trabalho que eu escondi desde os meus 19 anos, teve um momento em que meus pais quase se separaram e tudo que eu havia escrito foi apagado, não achava nenhum sentido para continuar.

Hoje me vejo mais madura, mesmo assim é doloroso, porque a vida toda a gente aprende a esquecer o passado e só viver de presente, eu compreendo que a partir de algo que foi vivido em um tempo anterior pode nos ajudar a ter um presente melhor, é a tênue diferença entre remoer e juntar os cacos que ainda faltam.

Longe é um lugar perto de mim é um projeto lento que me ensinou que tempo existe pra gente respeitar, mas que isso não significa deixar as coisas pra depois. Um tempo de reconexão comigo mesma e de descoberta. Ano que vem pretendo viajar novamente para o Ceará e, quiçá, para o Rio de Janeiro, como o projeto não depende de nenhuma verba externa, pelo menos por enquanto (estou tentando edital), tudo é feito em passos de formiguinha.

FTC: O que vem depois? 

Após as pesquisas nas cidades dos meus pais, pretendo montar uma exposição sensorial, não só com fotografias, mas com relatos, objetos, vídeos, sons e etc.

Acompanhe as histórias e descobertas de Camila em seu site, página no Facebook, Instagram, suas memórias em forma de áudio e semanalmente pelo envio de uma newsletter, a qual a ajuda muito a continuar traçando essa caminhada.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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