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Um projeto colaborativo sobre histórias de pessoas que mudaram a história de outras pessoas em pouco tempo. É sobre gratidão que o Temporary People, criado por Juliana Casemiro, fala. E ela explica:

“Ouvir o que as pessoas têm a dizer foi a melhor (auto) ajuda que recebi nos últimos anos. Tive muita sorte e tenho muito orgulho de contar histórias de tanta gente que não apenas passou, mas aconteceu na minha vida. Estou falando das pessoas que carinhosamente apelidei de temporarypeople.

São aquelas que surgem aleatoriamente, seja para pedir uma coordenada ou que puxam assunto na fila do supermercado. São aquelas palavras que você não pediu para ouvir, mas chegaram até você. Duram pouco tempo, mas tornam-se memórias felizes e que mudam o dia. E a forma que encontrei de guardá-las para sempre foi escrevendo cada uma delas.

Sorte minha, amigos toparam compartilhar suas histórias e eu resolvi criar este espaço para dar continuidade à grandiosidade desses momentos.

Sou muito grata pela vida ter feito meu caminho cruzar com o de pessoas incríveis, mesmo por pouco tempo, e dedico esse espaço àquelas que mudaram – e melhoraram – a minha história. Torço pra que um dia a gente se encontre de novo e escreva juntos as próximas!” 

Conversamos com Juliana para saber mais sobre suas inspirações:

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“Tinha uma dor frequente no olho e meu pai indicou um colega Oftalmologista, dizendo que ele iria me ajudar – mal sabíamos o que isso realmente significaria. Fizemos uns testes e ele deu o diagnóstico: – Enxaqueca. Resultado de estafa. Você é muito nova pra isso! Lamentei, perguntei como tratar e ele: – Repense sua vida. Liberte-se, ok? Eu era uma menina de 21 que sofria muito pelo trabalho. Um tempo passou e minha vida mudou. Esse conselho ainda carrego, muitos anos depois.”

 

FTC: Jú, como chegou até o projeto Temporary People? Como você teve a ideia de criar o projeto?

Eu tenho 29 anos, nasci em Santos e moro em SP desde 2003, quando vim fazer faculdade. Entre colégio e faculdade tive o privilégio de morar 5 meses em Londres. No voo que me levou pra essa jornada, eu conheci a primeira história do temporarypeople. Londres foi inspiração do começo ao fim e, não à toa, voltei completamente depressiva pro Brasil. Passei muita madrugada escrevendo sobre tudo que vivi lá como um escape, mas sem formato. Anos depois eu me dei conta que eu falava muito mais das pessoas e suas histórias, do que do todo – a minha relação com a cidade é meio doentia hahaha então eu guardo pra mim. Até por isso, surgiu a necessidade de voltar.

Me formei na FAAP em Comunicação Social em 2007 e embarquei de novo pra lá em 2011, onde passei mais um ano inesquecível naquele lugar. Ali, oficializei a necessidade de falar de pessoas. Mandei um email pra amigos de vários países pedindo histórias e explicando a ideia, como um teste. Muita gente respondeu e me fez abrir o olho que todos temos mesmo histórias pra contar.

Em janeiro de 2013 nasceu a primeira versão do temporarypeople, mas num formato bilíngue (um sonho!) e logo eu entrei numa decrescente pesada no trabalho que me fez paralisar tudo. Parei de fazer o que mais gostava (a gente se boicota, né) e em agosto do ano passado dei o grito de liberdade: me demiti do mundo corporativo. O processo todo é bem hardcore e ainda estou em adaptação. No primeiro semestre desse ano senti na pele muitas questões difíceis e me deixei abater de novo e, em uma tentativa de colorir um dia bem cinza, revisitei minhas pessoas e minhas histórias. Descobri que fazia uma semana que eu não SENTIA, que eu não sorria. Era preciso retomar aquilo.

A versão que você conhece do tp nasceu no dia 1o de abril de 2014 com muito frio na barriga, insegurança e uma certa “vergonha” de me expor. Mas acho que está dando tudo certo agora! 

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“Tinha que estacionar o carro numa avenida movimentada e precisaria fazer baliza. Fiz o possível pra ser ligeira, senão o movimento intenso voltaria. Nisso, um ônibus parou atrás do meu carro trancando a avenida e o motorista descansou os cotovelos no volante como quem diz ‘vai com calma que eu te espero’. Me gabando um pouco, executei a manobra com perfeição! O motorista abriu a porta do ônibus, bateu palmas e levantou os braços como se fosse um gol numa final de copa do mundo. Eu dei muita risada e aquela empolgação contagiou o meu dia!”

FTC: Seu projeto é sobre gratidão. O que a palavra significa para você? 

Hoje, significa aquele sentimento de coração transbordando de coisa boa. Me emociona, me move e me inspira todos os dias.

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“Moro em Macapá e estava voltando para casa preocupado com o trabalho. No ônibus, ouvi um rapaz com um garoto aflitos e uma cobradora grossa, que pouco os ajudou. Disse que desceria no ponto deles e ajudaria. Depois de conversar, o rapaz contou que vinham de Belém para visitar um amigo, mas tinha só o endereço – e era a mesma rua que a minha. Descobrimos que seu amigo era meu primo e apontei a casa! O rapaz me deu um abraço e disse que salvei seu dia. Fiquei com as palavras dele e sua felicidade. Ele não sabe, mas salvou o meu dia também.”

FTC: As histórias e o projeto te transformaram de alguma maneira como pessoa? O que mudou após a criação do TP? 

Sem dúvidas e o tp nada mais é que o reflexo disso. É a forma que eu encontrei de agradecer a essas pessoas que mudaram tantos dias, que mudaram a minha vida. Eu me sinto mais paciente e resistente. Sinto também que o coração está mais leve. Gosto da ideia de ter algo que alivia o dia das pessoas. Os meus, sem dúvidas, são muito melhores desde então.

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“Tenho 16 anos e andava pela rua com a minha mãe quando avistei uma menina de uns 5 anos vindo na nossa direção. Sem saber da sua singularidade, dei um tchauzinho e fui retribuída com um lindo sorriso. Acho que nunca a verei novamente, mas aquela menina com Síndrome de Down me ensinou uma grande lição: quando se tem inocência, você não vê diferença e age sem nenhum preconceito. E, perdoem o paradoxo, mas a beleza da vida está nas diferenças!”

FTC: Qual a história que ouviu que mais te marcou?

De verdade, todas me marcam. Meu dia para quando chega a notificação de história nova no email. Já interrompi conversa pra ler hahaha é muito <3!

Mas tem um lado muito forte que eu nunca imaginaria viver e que me pega demais: quando sinto que é a primeira vez que a pessoa está falando aquilo. Já recebi muitas dores, desabafos. Temáticas de perdas, preconceitos e até abuso sexual. E é impressionante a força que as pessoas têm de reverter aquilo. Tenho a sorte de que muitos retornam os meus emails de agradecimento e passam a enriquecer mais ainda as histórias.

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“Estava numa fase de reclamar de tudo e um dia no trabalho estava extremamente nervosa e com fome, mas não consegui comprar nada para almoçar. Uma colega perguntou se eu estava bem e falei o que houve. Conversamos algumas coisas e ao se despedir ela me disse: – Posso te dar uma dica? Mesmo quando você não estiver bem, diga que está. As palavras que proclamamos mudam tudo. Agradeci e percebi que realmente eu estava só reclamando. Ela mudou meu modo de pensar e agir. Ao dizer coisas boas, o universo conspira ao nosso favor!”

 

FTC: Com o que você se inspira? 

Naturalmente, eu me inspiro nas pessoas. Outro dia, no ônibus, a mulher do meu lado falava tão eufórica sobre o novo emprego que eu até cheguei no trabalho mais motivada. E eu me inspiro nas pessoas que conheço e quero que se orgulhem de mim também. Quero ser uma boa história pra contar.

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“Aos 14 anos eu vivia uma fase muito linda e conheci o César. Namoramos duas vezes por anos e eu que sempre terminei. Um dia pedi para voltar e ele negou por ter alguém. Tempos depois me casei. Após 9 anos, ele disse pra minha prima que nunca tinha casado porque me esperava. Depois de 2 anos meu casamento acabou e quis tentar viver aquele amor. Para minha tristeza, recebi a notícia do seu falecimento. Não pude me despedir, não houve um ‘eu te amo’! César foi o amor da minha vida e quis dividir isso como uma homenagem.”

FTC: Qual a sua cor favorita e por que?

Eu sou tipo criança com cor. É colorido, me faz sorrir. Mas não nego que o preto e branco têm colorido muito os meus dias nos últimos meses. 

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“Sempre paro no mesmo sinal e pego os folhetos das empresas. Uma vez, puxei papo com o rapaz e sugeri que ele fizesse um curso, assim, conseguiria um emprego melhor. Passaram uns dias, parei e ele veio: – Fiquei pensando sobre o curso que você disse outro dia. Fui procurar e me inscrevi. Fiquei comovida com tanta simplicidade e carinho. Agradeci e disse para ele persistir. Entendi a importância de fazer a diferença nos pequenos gestos, o que pra mim é natural e espontâneo. Seja gentil com o mundo e ele devolverá proporcionalmente o que você EMITIR.”

FTC: Uma frase que vc carrega para a vida 

Diga se você ama alguém (tenho tatuado “say if you love somebody”). Pedi licença para essa dona da história para usar na dela.

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“Hoje eu conheci a solidão. Tinha 74 anos. Era bonita. Os cabelos grisalhos curtos. O olhar distante traduzia uma certa aflição. A voz trêmula anunciava sua queixa. Ela sofria de decepção e medo. Decepção pelo fato de ter criado duas filhas e não ter a companhia de nenhuma delas na sua vida. Medo depois que ouviu delas a palavra “ASILO”. Estava triste por ter que se despedir do seu lar. Ela foi só e me deixou acompanhada de uma série de questões existenciais que ainda estão sem respostas. Me sensibilizo com tudo e passei a me encantar com o belo que há na rotina da vida.”

FTC: Se fosse criar uma pequena história para o FTC, o que escreveria?

Poxa, aí você me pegou. Criar seria difícil, mas com certeza eu contaria que o coração acelerou com o recadinho no Instagram e continuo sorrindo com o simples fato do tp ter chegado até aqui. Poder ter essa troca é muito especial, sou realmente fã faz tempo. 

No Facebook: /temporarypeople. Instagram: @temporarypeople. Conte a sua história também!

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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