Série é idealizada pela tatuadora Angelika Spinardi, que desenvolve desenhos exclusivos para expressar individualidades femininas.

Tatuagem, mapa astral e empoderamento. A partir dessa combinação, a tatuadora, artista visual e psicóloga Angelika Spinardi idealizou a série “Mulheres Astrais”, em que cria desenhos únicos a partir de características pessoais específicas. Suas composições visuais tem um propósito em comum: trazer à tona forças e belezas de cada mulher por meio de traços registrados na pele.

“O projeto consiste em criar um diálogo onde a pessoa que será tatuada possa se expressar: falar sobre si, suas identificações e aquilo que a mobiliza. A partir desse diálogo, eu crio um desenho que é mostrado no dia da sessão. É uma cocriação, porque a participação da pessoa é fundamental. Então, mais do que retratos de mulheres místicas, imaginárias e reais, trata-se de um encontro. Uma tattoo é feita para lembrar de algo que não quer ser esquecido”, explica.

Com quatro anos de experiência na área, Angelika conta que iniciou a série em dezembro de 2016. A paranaense é residente do estúdio Café Preto Tattoo, em Florianópolis (SC), mas também atende em cidades como Curitiba (PR). Seu principal foco é retratar as mulheres, além de animais e elementos da natureza. Em seu estilo, mistura bold e linhas finas com inspirações do neo-trad e do blackwork. Além do Mulheres Astrais, a tatuadora também criou o movimento Tattoo like a Girl, um espaço de intercâmbio artístico para fortalecer e valorizar tatuadoras que realizam trabalhos autorais.

Empatia e identificação

Apesar de os desenhos só serem revelados no momento da sessão, os relatos de identificação têm sido unânimes. “Elas realmente se entregam ao processo e confiam no meu trabalho. A psicologia ajuda muito, porque me coloco numa posição de escuta e empatia, demonstrando interesse pelas particularidades pessoais e respeito com o corpo delas. No final, todas as clientes saem se sentindo poderosas e acabamos nos tornando amigas”, conta a tatuadora.

Confira a entrevista exclusiva que fizemos com a artista:

FTC: Queria que você falasse um pouco sobre quem é Angelika Spinardi, o que fazia antes e como foi parar na tatuagem;

Sou natural do Paraná, mas moro em Floripa há cinco anos. Tenho 26 anos, e também sou mãe do Johann, de um ano e meio, além de psicóloga. Foi inclusive por esse motivo que mudei para Florianópolis: terminar minha formação em psicologia. E foi onde entrei em contato com a psicanálise lacaniana, minha linha de estudo dentro da área. Na época estava terminando o curso e me sentindo bem perdida por conta da cidade nova, com poucos amigos e sem trabalho.

Tive momentos de crise ansiosa aguda durante esse ano. A psicanálise me ajudou bastante nesse processo, na medida em que fazer análise me fez tomar a iniciativa de dar um guinada na minha vida. E foi aí que surgiu o desenho, ou melhor, retornou. Eu desenho desde muito pequena, desde seis anos de idade. Foi meu primeiro contato com a pintura. E em Floripa surgiu o desejo de voltar a desenhar.

Como eu já tinha muitas tattoos no corpo na época, desde pequena também já me interessava pelo assunto e convivia com amigos tatuadores, decidi comprar os materiais e começar. Meu aprendizado foi totalmente autodidata (como boa parte das coisas na minha vida), sendo que comecei a me relacionar com outras pessoas de uma forma bem lenta e gradual. Tatuei por quase três anos na minha casa, antes de ir para um estúdio com um amigo que me convidou.

FTC: Como surgiu essa sua relação com as mulheres, astros e a tatuagem?

A relação com as mulheres é algo recente pra mim. Passei a minha vida toda quase me identificando com os homens. Meu pai, meu irmão, os pintores clássicos que eu gostava, música clássica, autores de livros. Sempre homens. Eu achava que algumas (muitas mulheres) eram realmente fracas ou submissas. Só depois, na adolescência, comecei a entender melhor isso, através das minhas leituras constantes sobre questões subjetivas e políticas.

Percebi que a “culpa” não era nossa. Que eu não era inferior, mas que eu precisa ser duas vezes melhor, sempre e infelizmente. Quando eu me tornei mãe essa força ficou gritante dentro de mim. Em paralelo, também nasceu o dever de ser uma mulher foda, não só por mim, mas por todas as outras. Que outras também pudessem saber que era possível.

Sobre os astros, eu sou aquariana e quem for aquariano vai me entender. A gente vive literalmente com a cabeça na lua. Sempre me interessaram muito as questões de signo e como o mapa astral realmente mostra características bem peculiares de cada pessoa. Achei que uma boa conversa (prática da psicologia) e uma leitura de características astrais das pessoas fariam sentido. Afinal, a gente não é feito apenas de matéria concreta, mas de astral, no meu ponto de vista. Bom, o resultado traria uma tatuagem genuinamente da pessoa. Realmente exclusiva. E é exatamente isso que tem acontecido: algo único a cada tatuagem do projeto.

FTC: Conte mais sobre esse lance do P&B, do vazio das cores nos desenhos;

Bom, comecei com a pintura na infância. Com seis anos eu aprendi escalas de cor, como misturar cores, que cores combinam mais etc. Acho que essa fixação com o preto vem um pouco do fato de eu ser negra, então quero pintar o mundo de preto. Brincadeiras a parte, acho que o preto contém todas as cores e gosto muito do resultado das nuances de preto na pele.

Tenho uma divisão interna que trabalho bastante, a Acid e a Angelika. A Acid seria meu lado mais sombrio, enquanto a Angelika é aquela moleca que pintava tudo na infância. Brincando um pouco com essa divisão interna, motivo de caos, decidi reservar as cores para o meu trabalho em madeira, e o preto para a pele, agradando assim, as duas que habitam em mim. De certa forma, assim posso explorar campos diferentes e complementares.

FTC: Pode falar pra gente um pouco do seu processo criativo no seu dia a dia? Com o que se inspira? O que gosta de fazer em seu momento de lazer?

Meu dia a dia é mega corrido, na verdade. Pela manhã eu me dedico ao meu filho: brincamos, passeamos, fazemos exercício, pintamos as paredes de vez em quando. À tarde, quando ele vai para a escola, eu me torno a Angelika tattooer até as 11 da noite, apenas com uma pausa para a janta do bebê e para ver o Mauricio, meu companheiro, que fica com nosso filho na parte da noite. No estúdio eu tenho uma convivência com artistas de estilos diferentes, o que é bem enriquecedor.

Minhas referências hoje em dia são artistas mulheres que ilustram mulheres, além de retratos que uso como referência para os rostos que crio. Eu ouço muita música de muitos estilos e acho que isso influencia bastante no momento de criação. Minha mente ferve de ideias todos os dias desde que decidi olhar pra minha infância e fazer o que eu fazia lá, o que faço de melhor, que é desenhar. Observar a natureza me inspira e conversar com as pessoas mais ainda.

Geralmente atendo dois clientes por dia, com duas sessões longas para poder conversar bastante mesmo. Marcamos uma sessão para desenhar e já tatuar junto. Utilizando as referências também trazidas pelo cliente crio um desenho, são feitas modificações se necessário e em seguida tatuamos. O interessante é que no sketch eu coloco apenas a parte mais básica do desenho, então a pessoa leva um susto (no bom sentido) quando fica pronto, porque fica muito mais complexo do que no papel. O resultado desses encontros é sempre incrível e até hoje não tive desentendimentos com nenhum cliente. Talvez o tato de psicologia ajude nesse processo.

“A ideia da série Mulheres Astrais começou com os signos, mas astral está mais relacionado às diferentes personalidades do que apenas à astrologia. Algumas preferem orixás ou cangaceiras, por exemplo. Mas, quando se trata de animais, as escolhas são parecidas. As pessoas geralmente tatuam animais predadores como lobo ou leão. É difícil se identificarem bom bichos passivos”, analisa Angelika.

FTC: Como você define o seu estilo de arte?

Além da tatuagem faço outros trabalhos dentro das artes visuais que considero como um estilo totalmente experimental. Muitas vezes, utilizo materiais que não conheço, experimento formas e texturas e até quantidades de tinta. Já pintei com café, com geleia de morango, com vários materiais.

Enfim, meu estilo é bem amplo, o conteúdo é sempre muito parecido, o que muda são a forma e as cores. A experimentação é uma constante.

Acompanhe o trabalho de Angelika Spinardi no Facebook e conheça também o movimento empoderador criado por ela: Tattoo like a Girl.

Carol T. Moré é editora do Follow the Colours. Cores, internet, design, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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