Para alguns, a tatuagem é mera estética. Para outros, puro ritual. Para a artista Verônica Alves, as tatuagens são como amuletos, algo para ser levado com você por toda a vida, além de físico, que pode se transformar em energia e ter um significado espiritual.

É no estúdio Houhou (lê-se rurrú, o som que as corujas emitem) que a brasileira transfere para a pele suas artes exclusivas, através de uma técnica ancestral e manual chamada handpoked. Não há máquinas e o desenho é criado ponto por ponto de maneira totalmente artesanal. Mas, o trabalho de Verônica vai além. Ela utiliza um cristal de quartzo como suporte para a agulha, enriquecendo a experiência ao ser tatuado.

Por o cristal ser uma pedra sagrada, Verônica o trabalha como canalizador de boas energias, cura e limpeza. Durante o processo da tatuagem, forma-se uma maior conexão entre tatuadora e tatuado, iniciando-se um estado meditativo. A talentosa profissional ainda trabalha apenas com tinta preta vegana profissional, alergênica e materiais que facilitam a cicatrização.

Seus desenhos únicos na pele são chamados de amuletos por uma boa razão. Confira a entrevista exclusiva que fizemos com a artista e inspire-se com a história de como surgiu o conceito do estúdio Houhou, que fica em Tarumã, Curitiba, no Paraná:

FTC: Verônica, conta pra gente o que você fazia antes e como foi parar na tatuagem. 

Eu sou ilustradora profissional há mais de 10 anos e aos poucos fui recebendo convites pra criar artes que as pessoas levavam pra um(a) tatuador(a) tatuar. Os clientes sempre me incentivando: “Quando é que você vai aprender a tatuar, hein, Verônica?”. Eu também me questionava isso, pois sempre achei emocionante a sensação de ter um desenho seu na pele de outra pessoa, eternamente, e a magia dessa arte criar pra si uma vida própria. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia ainda visualizar minha vida num estúdio.

Demorei 3 anos até entender que na verdade, eu teria que criar uma forma de se fazer tatuagem que se encaixasse em como eu via esse tipo de arte. A forma como enxergava, e como é na tatuagem tradicional – em muitos lugares até hoje, no Oriente, está totalmente vinculada ao processo espiritual. Eu sentia que era isso, mas não havia nada à minha volta que confirmasse, então por um tempo achei que era viagem minha. E era, uma viagem à ancestralidade.

Foi um caminho bem introspectivo, fiz muita pesquisa e paralelamente {sincronicamente}, muito trabalho espiritual de auto cura e desenvolvimento pessoal. Tive uma amiga tatuadora, a Giovana Lago, que me ensinou algumas coisas e o resto foi trilhado sozinha mesmo. Foi bom, pois muito do que acontece hoje, no ritual, foi criado aqui mesmo. As coisas foram se alinhando aos poucos e o meu profissional e espiritual foram virando um só, como sempre senti no coração que tinha de ser.

O tempo sabe existir e é pontual como a si mesmo, então hoje vejo a importância de se honrar e respeitar tudo isso para que as coisas possam ir se desenhando com maior sintonia. É preciso viver com verdade, e quando se compromete a isso, tudo vai se abrindo. E foi assim que fui desenhando uma nova forma de se tatuar. Penso sempre que eu posso fazer pelo outro, exatamente o que eu gostaria de experienciar num ritual de tatuagem. E como posso ser cada vez mais respeitosa com essa tradição, com o outro, comigo mesma, com a natureza, com os cristais, a sabedoria transcendental, o visível e o invisível.

FTC: Como você preenche atualmente sua bio nos diversos sites e redes sociais em que participa?

Isso é algo que está sempre mudando, pois o Houhou {como tudo que existe} está em constante movimento. Sempre olho e acho que está desatualizado, daí vou lá e dou uma mexida aqui, outra acolá rsrsrs. Mas a que eu mais gosto é: “Tatuagem definitiva onde um cristal de quartzo é a máquina e eu sou o motor. Materiais veganos. Artes exclusivas inspiradas em símbolos de poder.”

FTC: Como você define a sua arte? 

Eu não defino pois definir é limitar. Eu quero mesmo é que ela se expanda em significâncias e insignificâncias. Quanto mais interpretações possíveis, mais perto chegará do que ela é, apesar de não existir um fim. Mas existe um sentimento em relação à ela sim. Como quem sente é o outro, que por estar sempre mudando, este consegue captar a infinidade de significados que toda arte tem.

A cada momento da vida, ela vai dizer algo novo e esse é o lindo mistério de se tatuar. Isso na prepotência de se tentar definir o que é indefinível, indizível e invisível. Incompreensível pra mente e altamente sensível pro coração.

FTC: Como surgiu essa sua relação com os cristais? 

Eu não consigo me lembrar desde quando trabalho com cristais. Eu já fiz trabalhos de regressão em que visitei vidas passadas muuuito antigas, e lá estava eu trabalhando com os cristais. Então deve ter surgido mais ou menos uns 500 A.C.? rsrsrs Nessa vida, me recordo de ter sido uma criança bem familiarizada com o mundo da magia, brincava com tarot, cristais, duendes, etc… bem bruxinha. Então, a escolha de enfim começar a tatuar só surgiu quando percebi que poderia trazer esse universo, juntar esses dois mundos que aparentemente estavam separados: o da magia e o do desenho profissional.

Só tatuei com cristais até hoje e não imagino uma outra forma de fazer isso se não com eles. Na verdade, sempre digo que quem tatua são os cristais, e não eu. Meu desenho mudou completamente a partir do momento em que comecei a tatuar com cristais, e sinto um guia e um ensinamento constante vindo deles pra que esse trabalho aconteça da forma como ele se acontece. Eu sou uma mediadora e fico aqui ~malabaristando~ toda essa magia que quer chegar a todos que se abrirem. Os cristais são os protagonistas dessa história e você deveria estar entrevistando eles!

FTC: Explica o seu conceito de trabalho e a ‘tatuagem amuleto’.

Tudo é uma desculpa pra estarmos juntos e presenciar a magia se acontecer. Ela acontece o tempo todo, mas a gente é muito apressado e leva um estilo de vida muito superficial e altamente distraído. Só o fato de você parar e escolher passar por um ritual de tatuagem já é uma escolha {mesmo que inconsciente} pra se recordar disso. O meu papel aqui é criar um ambiente propício pra isso acontecer com fluidez e amorosidade. Onde há cristal, há magia. Se Houhou tiver um conceito, talvez seja esse.

Por conta do trabalho com os cristais, fui sentindo a necessidade de trocar todos os materiais utilizados durante o ritual por materiais vegetais e veganos. Fui convidando mãos/corações femininos parceiros pra desenvolver esses biocosméticos {a Letícia do Dádivas da Terra faz as pomadas e a Lívia do Cuidado Vital faz os sabonetes} e tudo o que utilizo no ritual {meu avental foi bordado pela Kamilla do Com Agulha Com Afeto, meu anel para batoque foi feito pela Dayane Vecchi, a tela de pintura da Janete Anderman, músicas da Mariana Degani e Babi Farah, aromas, etc}.

Tudo faz parte, e tudo é alinhado a esse propósito único. Pra mim, esse é o significado de prosperar: levar todo mundo junto. Então sempre faço esses movimentos ao meu redor pois se não estivermos juntos, não tem a menor graça. Separados somos muitos e juntos somos um.

Tatuo com a técnica handpoked, que não utiliza máquina {somente uma agulha e um cristal como suporte pra agulha}, e sinto que o próprio handpoked já é um conceito em si. Um convite a experimentar o tempo real, sem pressa e com entrega e confiança. Acompanhar a arte ser construída ponto a ponto é lindo demais de se ver e acho que todo mundo tinha que se tatuar com handpoked uma vez na vida.

Eu comecei a chamar as sessões de “ritual” e as tatuagens de “amuleto” porque os próprios tatuados começaram a chamar assim. Pessoas diferentes que sentem o ritual da mesma forma. Então comecei a achar que as tatuagens queriam ser chamadas de amuleto e só corrigi esse equívoco do nome. A primeira tatuagem que fiz foi em mim mesma, então pude provar do poder deste ritual e do amuleto. Às vezes encontro clientes que fizeram o ritual comigo e que tem por exemplo o braço inteiro tatuado por diferentes tatuadores, mas sempre chega me falando que sente algo inexplicável pelo amuleto com cristais.

E eu gosto de pensar que é por conta dos cristais, que mesmo inconscientemente o cliente sabe que esse amuleto está ativando eternamente coisas muito profundas e amorosas nele. Eu recebo emails de feedback dos rituais que se eu contar aqui todo mundo chora de emoção. Eu sempre choro, acho que não dá pra se acostumar com isso nunca. É uma honra presenciar cada ritual, que é cocriado entre os cristais, o tatuado e eu. E toda essa turma que listei aí acima.

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Eu não faço muitos planos pra não criar expectativas, pois elas sempre atrapalham e o que se acontece é incrivelmente melhor. Então gosto da sensação de que eu apenas observo pra onde Houhou quer me levar e levar a todos nós, e só vou acompanhando.

Tenho estudado muito, cada vez mais, sobre os cristais e espiritualidade no geral, e sinto que meu processo criativo está se afinando e abrindo. Gostaria muito que as pessoas confiassem mais pra que os amuletos pudessem chegar até elas sem tanta interferência ou manobras, mas sinto que isso também está conectado com meu processo de refinamento, como a lapidação de um cristal.

É um processo novo para as pessoas, pois a gente foi ensinado que temos que controlar tudo, uma ilusão, a tal da cultura do medo e de que o outro é inimigo. Minha proposta é a entrega e a confiança, que reflete na entrega e na confiança que a pessoa estabelece com a própria vida. Sinto que isso está cada vez mais próximo. Também tenho vontade de aprender a tatuar com máquina pra não me restringir a uma só técnica. Pra me expandir.

Como venho da área das Artes Visuais, tenho uma forte tendência à experimentações e tento sempre me abrir a novas possibilidades. Daí saber onde isso vai dar é algo que não tenho controle – ainda bem. Ah, e em breve tá saindo um vídeo sobre o Houhou que tô bem animada, pois quem fez foi uma pessoa muito especial pra mim, a multi-artista Jemima Tuany. Só love!

FTC: O que tem lido, ouvido, visto quais são os artista preferidos neste momento?

Tenho lido bastante sobre o zen-budismo e encontrado cada vez mais esse espaço dentro de mim. Meditado bastante e encontrado nisso a cura de todos os meus males. Sou um pouco deslumbrada com algo novo, vou experimentando até esgotar, então tenho vivido basicamente nesta temática, ultimamente. Tenho ouvido muito Gilberto Gil e a cada álbum tenho mais convicção que ele é o cara mais doce do mundo.

Os artistas que tenho acompanhado ultimamente são os tatuadores, tenho me encantado demais com esse novo momento da tatuagem – que percebo ser bem inédito. Antes existiam os tatuadores que criavam e os que copiavam – ok, ainda tem bastante dos dois. Mas tenho sentido uma vontade genuína dos tatuadores deixarem aflorar a sua verdade e refletir na sua arte, e também das pessoas em buscar essa verdade no que escolhem pra se tatuar, apoiar e valorizar essa conquista {sim, pois é muito mais difícil criar do que copiar, quer dizer, na verdade é o contrário. Criem!}.

Esse movimento é muito esperançoso e acho que é um caminho sem volta. O mercado da tatuagem vai ser bem nivelador quanto a isso, pressinto. Tenho gostado bastante dos trabalhos de tatuadores como Winston The Whale, Cats, Dasha, Violette Chabanon, Hannah Pixies, Guga Uecz, Bru Simões, Tamy Antunes, Brian Gomes, Anka Lavriv, Pony Reinhardt, Yi Stropky… vixi, vou ficar o dia inteiro, é muita gente boa.

“Valorizem o trabalho autoral, escolham quem trabalha com paixão. E trabalhe com paixão. Com-paixão.”

Acompanhe o trabalho de Verônica Alves e de seu estúdio Houhou Tattoo no Facebook e no Instagram. e-mail: (osomdacoruja@gmail.com).

Imagens: Mariana Alves Fotografia.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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