Arte abstrata, conceitual e contemporânea. Geometria, natureza e sketches na pele são coloridos com os tons de aquarelas. O dono destas criações únicas é o artista brasileiro Taiom, que já apareceu por aqui anos atrás, evolui muito após anos de dedicação, e que agora deixou Brasília para se aventurar pelo mundo.

Atualmente em Bolonha, Itália, Taiom se prepara para novos desafios. Voltou às origens de sua formação, Artes Plásticas, quer viajar a Europa para espalhar suas tatuagens, xilogravuras e ilustrações. São impressionantes projetos únicos e experimentações estéticas, desenvolvidas para cada cliente, com o intuito de buscar tornar visível seus conceitos, emoções e personalidades.

Conversamos com ele para saber um pouco mais sobre suas inspirações. Confira entrevista exclusiva e algumas obras:

FTC: Taiom, como você preenche atualmente sua bio nos diversos sites e redes sociais em que participa?

Sempre tive dificuldade para montar release ou portfólio, mas com os anos tive que aprender na marra. Atualmente a legenda principal é tattooist | printmaker por ter voltado a trabalhar com artes gráficas, como xilogravura e ilustração.

E no texto do meu novo portfólio impresso, ressalto que trabalho com projetos únicos, desenvolvidos para cada cliente, buscando tornar visível seus conceitos, emoções e personalidades.

FTC: O que você fazia antes de ser tatuador? Qual foi seu momento “a-ha”, seu estalo, para se interessar pela tatuagem?

Antes de tatuar eu andava de skate, desenhava e estudava para o vestibular – nessa ordem hahaha. O interesse pela tatuagem já estava comigo muito tempo, a curiosidade de criança, não teve um momento X que isso apareceu, mas foi nessa época pré-vestibular, entre 2002 e 2003, que tudo começou a tomar forma.

Ficava desenhando nas últimas paginas do caderno, depois nas mesas da escola, depois no meu braço. Dai os amigos começaram a pedir, e eu ia desenhando no braço deles nos intervalos ou matando aula mesmo. Já no fim do ano eu descolei uma henna e passava mais tempo no pátio pintando o pessoal do que em sala de aula.

No ano seguinte, um amigo me disse que tatuagem de verdade se fazia com agulha e tinta. Peguei uma agulha de costura da minha mãe, a tinta nanquim do meu pai, e comecei a me furar, perto do joelho ( tá aqui até hoje.)

Depois eu e o Bicudo arrumamos uma máquina de tatuagem caseira, feita com motor de carrinho e peças de Lego, e começamos em casa, sem noção de nada, tatuando os amigos, um aprendendo com o outro, na época nem se sabia do Google.

E só em 2004 que fui para um estúdio profissional e conheci a cultura em volta da tattoo, no mesmo ano que entrei no curso de Artes Visuais da Universidade de Brasília.

FTC: Como você define a sua arte? 

Sinceramente não sei bem como definir. Gosto de pensar possibilidades, experimentar estéticas, mas o acredito que meus trabalhos se unem pela busca de entender a ideia do cliente e transformar isso em algo visível em sua própria pele.

Não é apenas executar a ordem do cliente, tipo : “Quero um papagaio geométrico, com um urso tomando chá com nome da minha vó e aquela tattoo da Rihanna” – Ok, junta tudo. feito ✓.

Mas é entender a subjetividade, e a partir dessas ideias abstratas buscar minhas referências visuais para criar algo que expresse a mesma ideia, mas através da minha percepção. Isso não se limita a uma técnica ou estilo específico, pelo contrário.

FTC: Como surgiu essa sua relação com os sketches e as cores aquareladas?

O sketch é como eu já desenhava, formando com linhas de construção e sobreposição estrutural das formas. Mas era bem diferente do que eu entendia (e via em volta) de tatuagem. E foi rodando pelo myspace que descobri o trabalho do Yann Black e meu, minha cabeça quase explodiu! Ali percebi que podia fazer dos meus desenhos e da tatuagem a mesma coisa.

Comecei a tentar convencer os clientes a fazer algo mais solto, mas ali em 2007 era bem diferente o cenário hoje no Brasil. Pouco a pouco fui conseguindo experimentar estéticas e técnicas. A aquarela veio depois disso, emulando o efeito da tinta aguada, para  experimentar composições com força visual. Utilizei isso pra dar sentido aos projetos, mas não se prendendo só a estética.

FTC: Pode contar pra gente um pouco do seu processo criativo no seu dia a dia? O que te inspira? 

Como disse, o processo depende de cada cliente, pra mim a a tatuagem é como um site-specific intrinsicamente ligada ao corpo que a carrega.

Tenho minhas referencias visuais, meu “acervo imagético” que venho construindo ao longo de toda minha vida. Filmes, fotos, revistas, experiências e lugares me inspiram, e dependendo do projeto, volto e revejo alguns dessas imagens acumuladas.

Um bom exemplo disso, e de como a imagem final está ligada a ideia original, foi um projeto que criei com apoio dos amigos da TMTA Start Filmes, como forma de mostrar esse processo.

O resultado é o vídeo POTENCIALIDADES | abstratos e visuais onde mostramos a percepção do cliente / colaborador Daniel Brito. Sua ideia era ter uma tatuagem que representasse as mudanças e desprendimento da vida, aceitar que a fluidez é mais importante que o cronograma.

Somos criados para ir pra escola, para escolher uma faculdade, para arrumar um emprego, ter uma estabilidade na vida. Mas é só isso? Acreditamos que não, que o relaxamento é importante, e se desprender de expectativas nos deixa mais próximos de uma real felicidade.

Foi ai que pensei em como transcrever esse sentimento para a pele, e decidimos por a ideia em prática e não só ilustrá-la. Em vez de fazer um desenho que representasse isso, iríamos agir assim. Sem planejar, deixar fluir.

Conversamos muito, trocamos referências de músicas, filmes, textos que falam dessa mesma mudança, dessa força transformadora. A tatuagem passou a ser uma experiência, uma vivência do conceito.

As formas e linhas traçadas na pele são como o registro daquele momento, daquele ato, e assim transmitem seu significado de forma mais pura.

FTC: Agora na Itália, quais são planos? O que vem pela frente?

Aqui a vida anda mais calma, com mais tempo para dedicar a família e aos projetos pessoais. Voltei a estudar, dando continuidade ao trabalho com o qual me formei na UnB, e estou terminando de montar meu ateliê de gravura em casa.

Estou trabalhando no Lucky Clown Tattoo Shop que fica no centro histórico de Bologna, mas também já fiz temporadas em outros países, e esse ano estou planejando participar de convenções por aqui.

E como já bateu aquela saudade do Brasil, estou estudando a possibilidade de passar um tempo em Brasília, mas sem datas por enquanto.

Veja mais trabalhos de Taiom em seu site, Facebook e no Instagram.

Imagens: Luísa Dalé

Carol T. Moré é editora do Follow the Colours. Cores, internet, design, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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