Nem só de pinturas vivem alguns dos mais famosos artistas. Mas foi apenas em 1800, no século XIX, com a ascensão da agricultura urbana e cultura hortícola, que alguns grandes nomes da arte começaram a cultivar plantas, flores e criar seus próprios jardins em casa.

Como Claude Monet em Giverny, muitos pintores na época se inspiraram nas cores e formas vibrantes da natureza em seus principais temas e trabalhos. Mas a prática se estende muito além dos impressionistas do século XIX, que ficaram bastante conhecidos por isso. Vão até as formas geométricas de Sol LeWitt na Filadélfia, o pátio da Casa Azul de Frida Kahlo no México, e mais.

Pensando nisso, o site Artsy listou oito fantásticos jardins criados por famosos artistas pelo mundo para conhecermos. Alguns viraram atração turística e você consegue visitar até hoje. Confira:

Imagem: Wikimedia Commons

1 – JACQUES MAJORELLE (Jardin Majorelle, Marraquexe, Marrocos)

Um problema cardíaco levou o pintor francês Jacques Majorelle ao clima quente do Marrocos, onde ele finalmente se instalou em uma casa fora da cidade de Marraquexe em 1923. O artista criou um estúdio Art Deco em sua residência, mas eram os jardins circundantes que se tornariam o trabalho de sua vida.

Majorelle passou quatro décadas cuidando da terra, muitas vezes cultivando plantas exóticas de todo o mundo – cerca de 300 espécies no total, do cacto de agave do Texas ao bambu preto da China. Ele também pintou as paredes de seu estúdio com “Majorelle blue”, uma cor brilhante e exclusiva que registrou na década de 1930, inspirada nos azulejos marroquinos.

Imagem: Wikimedia Commons

Imagem: SnippyHollow, Flickr 

Após um acidente de carro, Majorelle foi forçado a retornar a Paris em 1962 e morreu meses depois. Seu magnífico Jardin Majorelle caiu em ruínas e, em 1980, estava programado para uma reconstrução – isto é, até Yves Saint Laurent e Pierre Bergé intervirem. O casal comprou a propriedade e restaurou o local todinho. Hoje, são mais de 700 mil pessoas que passam por ali todos os anos e se encantam com todo o verde contrastante com o azul.

Aberto todos os dias do ano, você pode visitar o Jardin Majorelle no coração da cidade vermelha. Dizem que vale o passeio!

Imagem: Wikimedia Commons

2 – ROBERT IRWIN (Central Garden – Getty Center, Los Angeles, EUA)

O americano Robert Irwin começou sua carreira artística como pintor expressionista abstrato, mas logo se tornou um membro do movimento californiano Light and Space, que une minimalismo, luzes neon, cores pop e fluorescentes e abstração geométrica. Ele então desistiu de criar objetos, e em vez disso, se esforçava para trabalhar em projetos diferentes como a renovação do Aeroporto de Miami e o paisagismo do Getty Center. Era o primeiro jardim de Irwin e, para se preparar, ele comprou aproximadamente mil dólares em livros de horticultura e os recortava criando colagens sobre o assunto.

Para ele, não era a criação de um jardim, mas sim a de uma escultura. O design final (desenvolvido ao lado do arquiteto Richard Meier) traz formas sinuosas, sombras de buganvílias ao meio de uma fonte e um labirinto de azáleas flutuantes.

Apesar do clima quente durante todo o ano de Los Angeles, a criação de Irwin foi planejada para ser sazonal; Ele selecionou diversos tipos de árvores e mais de 500 variedades de plantas. No 10º aniversário de sua criação, Irwin disse: “Não há uma paleta tão rica quanto a de um jardim”.

O Central Garden no Getty Center pode ser visitado todos os dias. Hoje, são mais de 134 mil metros quadrados de vistas, sons e aromas para explorar.

Imagem: Wikimedia Commons

3 – FRIDA KAHLO (Casa Azul, Cidade do México, México)

Nas fotografias e auto-retratos, os cabelos de Frida muitas vezes trazem flores. As flores que atravessaram suas tranças provavelmente eram colhidas no jardim da Casa Azul, a casa onde Kahlo nasceu em 1907 e morreu em 1954. Ao lado das flores, a artista cultivava árvores frutíferas – laranja, damasco e romã – e plantas nativas de seu amado México, incluindo mudas de pera espinhosa e agave.

Frida enfatizou ainda mais sua ideologia nacionalista através de uma miniatura de uma pirâmide com inspiração asteca, projetada pelo seu marido Diego Rivera, que ainda está no meio à vegetação. O casal ainda usava um pigmento tradicional mexicano azul para pintar as paredes com o índigo vívido, cor que se destaca totalmente entre os tons verdes.

Hoje, a Casa Azul, que também é conhecida como Museo Frida Kahlo, pode ser visitada na Cidade do México e encanta multidões do mundo todo.

Imagem: Philadelphia Museum of Art Library

4 – SOL LEWITT (Lines in Four Directions in Flowers, Filadélfia, EUA)

O projeto de arte pública do minimalista americano Sol LeWitt levou quase três décadas para ficar pronto, mas o jardim no Fairmount Park na Filadélfia foi finalmente inaugurado em 2012 (o próprio artista morreu cinco anos antes).

Instalado trinta anos após a sua concepção, Lines in Four Directions in Flowers foi uma obra de escala monumental, composta por mais de 7.000 plantios dispostos em linhas estrategicamente configuradas. Por mais que a ideia fossem plantas no solo em vez de uma pintura ou mural vivo na parede, o projeto trazia composições geométricas perfeitas com a assinatura do artista conceitual.

Como acontece com a maioria de suas obras, LeWitt apresentou o projeto, mas deixou o resto para outros – neste caso, ele especificou um botânico exclusivo para selecionar as espécies de plantas e um paisagista para mantê-las vivas. Em cada um dos quatro quadrantes foi plantado uma série de plantas perenes que floresceriam em uma cor específica.

A instalação Lines in Four Directions in Flowers ficou exposta até abril de 2015 no Museu de Arte da Filadélfia. Hoje, infelizmente, não é possível mais visitá-la.

Imagem: Francis Hammond

5 – CLAUDE MONET (Giverny, Normandia, França)

“Eu talvez devo às flores, foi por causa delas que eu me tornei pintor”, disse Claude Monet uma vez. E certamente, nenhuma discussão sobre artistas e jardins seria completa sem o notável jardim impressionista de Monet em Giverny, que tornou-se uma atração turística visitada por pessoas do mundo todo.

Monet mudou-se para lá em 1883, e teve a ajuda de sua família e de seis jardineiros para criar a obra-prima viva. São camadas e camadas vivas de íris e crisântemos com inspiração nas águas dos jardins japoneses. Cada canto foi projetado pelo artista para ser pintado – e eles eram, tanto que se transformaram em telas que desde então se tornaram algumas obras mais famosas de Monet.

Imagem: Flickr 

Imagem: Wikimedia Commons

Imagem: Anna e Michal, Flickr

Imagem: Francis Hammond

Monet investiu profundamente na horticultura e devorou revistas e livros de jardinagem na época. Os seus lírios, agora icônicos eram, na verdade, uma espécie híbrida, desenvolvida por um criador de plantas francesas e exibidas na Exposição Universelle em Paris, onde Monet as viu em 1889.

Impressionante obra de arte viva, você pode visitar o Jardim de Monet e sua casa em Giverny de março a novembro.

Imagem: Harvey Wang/Amy Brost

6 – ADAM PURPLE (Garden of Eden, Nova York, EUA)

Quando o ativista Adam Purple olhou pela janela de seu prédio em Lower East Side e viu crianças brincando no lixo, ele pensou: “Isso não é maneira de criarmos as crianças, sem terem um lugar para colocar os pés na terra”. Então, em 1975, Adam começou a limpar os detritos que haviam acumulado em dois lotes próximos dali para abrir espaço para o que se tornou seu Jardim do Éden.

O design circular, criado com vegetais e árvores frutíferas cercando um símbolo central do yin-yang, foi baseado em um planejamento de uma cidade utópica do século XIX. No seu auge, o jardim abrangeu cinco lotes da cidade e cobriu 15 mil metros quadrados, atraindo a atenção da National Geographic e outras publicações.

Embora Purple (cujo nome era David Wilkie) não tivesse treinamento formal em artes, ele se considerava um escultor ambiental e seu jardim, provocava comparações com o trabalho de Robert Smithson e Agnes Denes. Mas isso se sustentou por menos de uma década. Apesar dos esforços de Purple e seus apoiadores, a cidade acabou com o jardim em 1986 para dar lugar a um novo conjunto habitacional.

Imagem: Wikimedia Commons

7 – EMIL NOLDE (Seebüll, Neukirchen, Alemanha)

Foi em Seebüll que o pintor Emil Nolde e sua esposa, Ada, firmaram suas raízes. A casa, localizada no norte da Alemanha, seria a residência do expressionista alemão de 1927 até sua morte em 1956. Não era um lugar fácil para cultivar um jardim; eles tinham que misturar muita coisa no solo para torná-lo fértil para as plantas. Mais tarde, o casal construiu uma cerca de cana para proteger seus arbustos dos ventos severos. O resultado final ficou incrível.

Imagem: Svend Peter Jensen

Nolde disse uma vez: “A cor das flores me atrai magneticamente para elas”, e durante toda a vida ele pintou essas flores enchendo seus jardins com papoulas, girassóis dourados, lírios brancos. Os seus quadros pretendiam chocar o espectador, devido à vivacidade das cores, que contrastavam umas com as outras, à deformação dos rostos das personagens, à distorção das perspectivas e ao excessivo uso de tinta.

Apesar de seu apoio aos socialistas, Nolde foi classificado como um artista degenerado na década de 1930 e banido da pintura no regime nazista.

Atualmente, o local, transformado em um museu (Nolde Foundation Seebüll) pode ser visitado de março até novembro, mesmo nos feriados.

Imagem: Cloud Factory

8 – MARY MATTINGLY (Swale, Nova York, EUA)

O jardim de Mary Mattingly, intitulado de Swale, é uma “floresta de alimentos flutuantes“, onde os visitantes podem consumir as plantas ali disponíveis, desde blueberries até ervas e temperos. A novidade fica na cidade de Nova York, onde os parques públicos são proibidos de cultivar espécies comestíveis para que as pessoas as consumam.

É por isso que a artista de Nova York as plantou a bordo da Swale, uma embarcação de 5.000 metros quadrados que atualmente flutua no East River. “Swale é um chamado à ação. Foi criado para reconsiderar nossos sistemas alimentares, e vem para confirmar nossa crença que os alimentos são um direito humano, além de pavimentar caminhos para criarmos comidas públicas no espaço público”. 

Imagem: Katharina Kiefert

Em seu segundo ano, a intervenção pública interativa (saiba mais sobre a jardinagem de guerrilha) mostra para os políticos da cidade como a agricultura urbana baseada em parques poderia combater alguns problemas alimentares.

Mattingly está trabalhando ativamente para mudar essas regras, reunindo-se regularmente com as organizações da cidade. A Swale embarcará no Brooklyn e no Bronx, permitindo que os nova-iorquinos tenham acesso gratuito ao seu jardim perene e aos produtos frescos.

O Swale é gratuito e aberto ao público. No site do projeto, você confere o calendário de programações da instalação e visitações.

Imagem: Katharina Kiefert

E você? Conhece algum jardim criado por artista que merece ser visitado?

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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