Como voltar de uma viagem ao Butão e não ter a vida descarrilada por completo? Impossível, eu diria. E isso é ótimo. Aliás, acredito nas viagens que levam você para longe e, ao mesmo tempo, para dentro. Elas mudam o prumo da vida. Várias vezes. Intermitentemente.

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E cada viagem é particular demais (e, geralmente, rápida demais) para tirarmos conclusões mais aprofundadas sobre o povo, a cultura, a política. Muito do que eu li e me falaram sobre o Butão se mostrou bem diferente. Talvez por isso minha demora em escrever sobre a experiência. Há um certo receio de não fazer jus ao pensamento local, de não ser fiel ao sagrado e ao habitual, que por lá se misturam de uma maneira que encanta olhos e modos estrangeiros.

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Vou contar então das sensações e ilustrá-las. Porque essas sim são minhas e não criam códigos, regras e roteiros a se seguir. E funcionam também como uma forma de gratidão ao país. Eu só poderia ter vivido isso lá e quando eu voltar (porque é isso que se deseja ao deixar este reino) nada disso se repetirá. É um presente único. Pode ter chuva ou não. O guia pode ser simpático ou não. Meu joelho pode doer ou não. É um jogo de sorte. E o legal do Butão é que suas chances de dar sorte são muito maiores.

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Viajei sozinho para comemorar meu aniversário nas alturas, literalmente. Uma caminhada de 2 horas com chuva, neblina e muito frio montanha acima. Rumo ao Ninho do Tigre. Eu via fotos e imaginava “como será que se chega em um lugar desses?”. Com esforço. O mosteiro surreal, na falta de uma palavra melhor para descrever minha incredulidade de estar ali, foi construído bem no alto e na beirada de uma montanha. Primeiro você o flerta de longe, do outro lado do penhasco. Passa por uma queda d’água (para limpar a alma antes de entrar, talvez?) e adentra em ambientes de silêncio acolhedor. O sagrado te invade.

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Montanha abaixo, joelho abalado e uma mudança inesperada no roteiro. Você quer tomar um banho de pedra agora? _ pergunta minha guia. Aceitei sem saber exatamente o que era. Não pesquisei tanto assim antes de viajar. Fui levado à uma área rural bem simples da cidade, na casa de amigos da guia. Tomei um estranho chá de manteiga e fiquei uma hora em uma banheira de madeira construída na área externa da casa. Pedras enterradas em brasas são colocadas direto na água que ferve as ervas cultivadas ali no terreno mesmo. Foi um feliz e arrebatador aniversário. Para curar dores do corpo e da alma.

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A viagem segue para mais 3 cidades. Na capital, conheço o instituto das 13 artes e ofícios, o Zorig Chusum. Entrei nas salas de aula onde se ensinam a arte e o artesanato tradicionais. O intuito do local é preservar a tradição do país e criar oportunidades de trabalho. Vale falar que quando você chega em alguma barraquinha de artesanato na rua, aquilo foi feito ali mesmo. Nada de produtos xing ling.

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E fui levado também à cidade dos pintos. Risos. Muitos. O humor começou a fazer parte dessa viagem desde o dia em que decidi ir, alguns meses antes. Pinto é sagrado no Butão, sabia? Repete isso aí três vezes em voz alta que terá sorte. Inventei esse mantra numa roda de amigos quando planejada a viagem.

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Principalmente em Punakha, as fachadas das casas tem desenhos de pênis sempre gozadinhos. É que uma figura santa ou mais conhecido como “the divine mad man” chegou ao país vindo do Tibete na virada dos séculos 15 para o 16 e pregava alguns ensinamentos através do sexo. Lá construiu um templo sagrado da fertilidade. Hoje se acredita que o símbolo que enfeita casas e penduricalhos de homens e mulheres protege contra maus espíritos. Para não correr risco, comprei alguns pingentes abençoados pelos monges.

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Além dos pênis e incontáveis símbolos auspiciosos, as cidades também são enfeitadas por todos os lados com bandeiras coloridas que contêm textos sagrados. Acredita-se que o vento ao balançá-las consegue espalhar as boas vibrações pelo entorno. Nas montanhas então, elas fazem companhia nos trajetos. Pode parecer besteira, mas sentia-me seguro ao ver bandeirolas desgastadas pelo tempo a abençoar meus passos.

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E o índice de Felicidade Interna Bruta? A poligamia? Bom, fui quebrando imagens românticas construída à distancia à medida que conversava com a guia e alguns locais. Ninguém lá é bobo-alegre. O país é majoritariamente agrário e, consequentemente, “pobre” se comparado ao meus parâmetros ocidentais.

Mas há uma pureza não inocente nas pessoas que o faz acreditar que aquilo que eles têm é, de fato, satisfatório. Há também um senso de importância da tradição, da natureza. E tudo isso é levado em consideração para medir o tal FIB. Parece uma felicidade realmente interna, dentro de cada um ali. Uma felicidade não constante, óbvio. Apesar do contato com o mundo ocidental através de smartphones e facebook, não percebi uma necessidade deles buscarem identificações com as culturas de cá. Eles nem falam palavrão em voz alta.

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As pessoas podem sim se casar com mais de um parceiro ou parceira (mulheres aparentemente ocupam um papel equilibrado na sociedade). No entanto, como disse minha guia de 27 anos, ninguém quer casar com mais de uma pessoa porque fica caro manter a família. Não é nada prático, em suas palavras. Esse costume aplica-se geralmente às pessoas que são do interior e querem se mudar para uma cidade maior, então elas se casam com os maridos ou esposas de parentes. Aliás, o atual rei-muso foi aconselhado a ter apenas uma esposa (ao contrário de seu pai que teve quatro).

É assim a vida no Butão percebida em poucos dias. Entre visitas a mosteiros, Dzongs, escolas e museus, a energia em mim e do entorno circularam de uma maneira diferente. Eu me questionei durante todo o tempo sobre fé, superstição, prioridades e sentimentos. Não para tirar conclusões. Eu precisava era arrumar espaço para guardar os presentes que o Butão me ofertava e reorganizar a casa. Nada ficaria arrumadinho como quando cheguei por lá. E sou muito grato por isso.

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Sérgio Souto é curador de conteúdo e sem rótulos na empresa Souto no Mundo.

Sérgio Souto – já escreveu posts no Follow the Colours.


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