O mapeamento digital expandiu as fronteiras de catálogo de imagens e naturalmente alcançou funções sociais e pessoais inesperadas. O filme Lion – uma jornada para casa (2016) expõe a importância que a ferramenta do Google Earth teve para o desenrolar emocionante da história biográfica do indiano Saroo Brierley. Já o Google Street View contribui com a preservação de memórias afetivas, e em projetos sociais como a medição de poluição do ar e o combate ao trabalho infantil.

Foi nessa plataforma que Jacqui Kenny encontrou um refúgio surpreendente e único de possibilidades criativas: sem sair de casa, ela percorre as ruas de diferentes países e tira screenshots de cenários oníricos.

“Percebi que as bilhões de fotografias que o Google capturou para fins funcionais estavam prontas para a criatividade e, quando enquadradas e anguladas com cuidado, elas poderiam ser tão bonitas e emotivas quanto a fotografia tradicional. Eu havia encontrado uma maneira de conhecer lugares em todo o mundo que eu desejava muito explorar, mas acharia difícil viajar na vida real”.

Difícil viajar na vida real porque ela sofre com um distúrbio chamado Agorafobia, um transtorno de ansiedade que gera medo de lugares públicos e situações que possam causar pânico, impotência ou constrangimentos. Diante de tal limitação, Kenny tornou-se uma fotógrafa de viagens que não usa câmera profissional e nem viaja.

“Ao clicar no Google Maps, deixei minha casa em Londres e naveguei pelas ruas de países distantes como Mongólia, Senegal e Chile. Eu encontrei cidades remotas e paisagens empoeiradas, joias arquitetônicas vibrantes e pessoas anônimas, todas congeladas no tempo. Quanto mais eu viajava, mais eu encontrava cenas que pareciam ser arrancadas de um estranho e expansivo universo paralelo. O que começou como um passatempo rapidamente se tornou uma busca dos domínios ocultos e mágicos do Street View”.

 Sua busca pela composição fotográfica é feita de maneira minuciosa e pode levar dias para encontrar o cenário ideal, afinal, os caminhos, os ângulos e a iluminação dependem das imagens do próprio Google Maps.

“Tantas vezes eu vejo algo à distância que parece incrível, mas o carro para ou alguma coisa atrapalha. Acontece 90% do tempo. Eu sempre tenho que estar preparada para essa decepção”.

 Seu processo se tornou um projeto, o Agoraphobic Traveler. A coleção de mais de 27 mil screenshots de enquadramentos minimalistas de lugares isolados e iluminados manifestam a influência do distúrbio em sua arte.

“A Agorafobia e a ansiedade limitam minha capacidade de viajar, então eu encontrei outra maneira de ver o mundo”.

Acompanhe o projeto Agoraphobic Traveler no site e no Instagram: @streetview.portraits

Marjorie Simões é designer de interiores e artista visual. Curiosa, observadora e pesquisadora, adora aprender coisas distintas para depois conectá-las. Valoriza os trabalhos manuais, a cultura vernacular, a economia criativa e a produção/consumo sustentável. Acredita no poder das cores e tem leves faniquitos quando entra em ambientes beges.

Marjorie Simões – já escreveu posts no Follow the Colours.


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