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O Universo Mágico, Onírico e Lúcido do Artista Indígena Jaider Esbell

O Universo Mágico, Onírico e Lúcido do Artista Indígena Jaider Esbell

Índio Macuxi da Amazônia, o trabalho de Jaider Esbell abre diálogos sobre ancestralidade, conhecimento, memória, política e o caos da humanidade

Artista, escritor e produtor cultural indígena, Jaider Esbell nasceu em uma aldeia do povo Macuxi, na reserva Raposa Serra do Sol, em Normandia, estado de Roraima. Jaider viveu no local, até aos 18 anos, quando deixou a casa dos pais para continuar seus estudos em Boa Vista.

Seu primeiro encontro com a arte foi através das histórias que seu avô contava sobre a cosmologia Macuxi. Como adolescente indígena, cresceu com isso e logo fez contatos em outras vilas, cidades e aldeias. Em seguida foi ser auxiliar técnico para sobreviver na capital por 8 meses.

Esbell trabalhava o dia todo e estudava à noite por conta própria na biblioteca pública. Assim, fez concurso público para vaga de eletricista em linha de transmissão, e aprovado, partiu para fora do estado. Na Eletrobras, como eletricista, alcançou o topo da carreira para sua função.

A ideia de uma maior compreensão entre os universos indígena e branco através da arte continuava latente em sua alma, e paralelamente, ele iniciou sua produção em literatura. Nesta época, porém, destruía tudo o que criava.

Jaider passou no vestibular, quando não havia cotas para indígenas, foi aprovado e concluiu o Curso de Geografia em 2007 na UFRR. Em 2009, fez especialização em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Faculdade de Tecnologia Internacional.

Em 2010, se inscreveu em um edital de literatura e ganhou uma bolsa da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Lançou seu primeiro livro, Terreiro de Makunaima – Mitos, lendas e estórias em vivências – e a partir disso, assumiu definitivamente sua vocação artística.

Arte Indígena Contemporânea no Brasil

Foi somente em 2011 que Jaider Esbell começou a pintar. Não parou mais. Sua primeira mostra individual foi em Normandia e Boa Vista. Depois disso, foram várias exposições, inclusive internacionais, viagens pelo Brasil, lançamento de outros livros, artigos, além de produzir um rico material artístico nas mais variadas mídias.

Em 2013 foi convidado para expor e dar aulas nos Estados Unidos, (Pitzer College). Assim, desligou-se provisoriamente da Eletrobras e permaneceu nos EUA por 8 meses. Na volta, abriu seu ateliê, a Galeria de Arte Indígena Contemporânea.

Ao lado de nomes como Denilson BaniwaIsael Maxakali, Jaider organizava o Encontro de Todos os Povos, desempenhando um papel central na consolidação da arte indígena contemporânea no Brasil.

Jaider Esbell e seu Breve Legado

Jaider recebeu indicação ao Prêmio PIPA, em 2016, o maior prêmio da arte contemporânea Brasileira. Sendo a arte o próprio objeto de vida, ele se desvinculou de vez da Eletrobras e embarcou em sua principal jornada. Inúmeras mostras suas tiveram destaque.

Como um dos expositores da 34ª Bienal de São Paulo (2021) montou uma instalação de duas serpentes, com cores vibrantes e ilusão interna. As cobras, com aproximadamente 20 metros cada, representavam “um animal de poder” na cultura do xamanismo indígena.

Exposição de Jaider Esbell na 34ª Bienal de SP / Levi Fanan /Fundação Bienal de São Paulo

“A energia das cores me alimenta a alma. Minha alma é plenamente colorida, pois assim me mostra meu avô ancestral Makunaimî. Somos de uma linhagem que tem na transformação as bases de nossa forma. As cores são, portanto, assim como o som de nossa música, nossa plataforma de existir e proporcionar existência”, disse em entrevista ao Amlatina

Jaider foi encontrado morto em seu apartamento, na cidade de São Paulo, em 2 de novembro de 2021.

Livre para Sonhar

Em seu trabalho, Jaider Esbell envolvia pinturas, textos, desenhos e instalações, procurava divulgar a história e as tradições indígenas, resgatar o seu legado cultural ancestral, além de denunciar os problemas que afligem os povos, como a violência, a discriminação e ameaças à posse da terra indígena, romantizações brancas e apropriações culturais.

As simbologias utilizadas em suas obras, como animais e vegetais, não são apenas ornamentos ou sobreposição em suas narrativas, mas entidades do cosmo que afirmam os valores de sua comunidade. Esbell tinha também a preocupação de não deixar os assuntos abordados por ele cairem no modismo.

Seu falecimento destacou ainda mais seu talento artístico e os valores comunitários de sua etnia, a Macuxi. Jaider se tornou artista através das habilidades que descobriu possuir na infância, e para alcançar seus sonhos percorreu caminhos que julgou serem os melhores.

O ‘artivista’ entendia que as artes podem aproximar mundos e utilizava a sua também como ferramenta política, já que queria cada vez mais mostrar a realidade e a cosmologia de seu povo.

“Desde antes do tempo vir a ser tempo, as plantas partilham entre si a maestria da vida: são portas para portais de mais mistérios. Hoje em crise, humanos, que nos achamos, ainda temos, talvez, as últimas chances de nos conectarmos ao todo. Uma moita de mato, por menor que seja o ramo, contém ali todo o antídoto para o veneno que é a megalópole. Isso nem deveria ser segredo, embora ainda seja – segregação.” – Jaider Esbell

Veja um resumo deste post aqui:

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