entrevista gui poulain moldando afeto

Guilherme Poulain é designer, ilustrador, calígrafo, cozinheiro, confeiteiro, escritor, blogueiro e apresentador de youtube. É uma pessoa que sempre gostou de observar o mundo, de descobrir as coisas que tocam, as cores, as formas e sabores do que vê por aí. Foi dessa maneira que ele acabou se formando em design gráfico em 2007, e trabalhou por um tempo na área. Ao ser demitido do emprego em 2010, resolveu passar um período em Buenos Aires estudando gastronomia.

Quando voltou para o Brasil, viu que queria trabalhar mesmo é na cozinha, e assim deu início a outros projetos. Na época, ele queria divulgar as massas frescas e molhos que fazia por encomenda pra juntar dinheiro pra estudar confeitaria em Paris, algo que foi realizado em 2012. Desde então, versátil, nunca soube bem definir qual é exatamente sua profissão.

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Foi nesse meio tempo que surgiu, em 2010, o Moldando Afeto – seu blog pra contar histórias na cozinha. Desde então, Gui ilustra receitas, mostra suas aprendizagens na pâtisserie (e em sua vida), nos deixa babando com seus incríveis bolos e biscoitos, e faz sucesso com uma confeitaria deliciosamente original, ao colocar amor em tudo o que faz.

Para ele, cozinhar é muito mais que uma necessidade, é uma forma de externar sentimentos, não só para as pessoas queridas, mas pra ele mesmo. E seu ingrediente secreto sempre foi o afeto. O Moldando Afeto cresce cada vez mais. E ele, que acabou misturando tudo, dessa forma encontrou seu caminho. E diz que continua indo pra onde o coração apontar. Conversamos com ele para saber um pouco mais sobre suas maiores inspirações. Vale a pena conferir:

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FTC: O Moldando Afeto é muito criativo. Junta várias artes como fotografia, ilustração, gastronomia, textos. Como surgiu a ideia de tudo isso misturado?

O blog começou somente com receitas. Era muito rígido e por mais que eu tentasse contar histórias através delas, ele ainda não tinha vida. Um ano depois, em 2012, quando me mudei pra Paris, decidi criar a seção de maior sucesso, as Cartas Amarelas, que na época era pra contar pros meus amigos o que eu estava vivendo de novo, mesmo estando longe. Foi aí que começou a ter um lado pessoal, e com elas, minha caligrafia.

Ao entrar na escola de pâtisserie em Paris, descobri que teríamos aula de artes, afinal a confeitaria é uma arte para os franceses. No primeiro dia me deram um kit de aquarela. Foi nesse momento que redescobri algo que ficou travado por muitos anos: o quanto amava desenhar. Precisei trazer isso para o meu projeto, em forma de receitas ilustradas. Pro fim de 2012, dois anos após o começo do blog, vi que ele começava a se tornar uma mescla de tudo o que gosto: tem meus sentimentos, minhas aquarelas, minha caligrafia, as receitas que eu cozinho com afeto.

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FTC: As receitas ilustradas são realmente incríveis. Como é o processo de criação de cada uma delas? Quais materiais você mais utiliza?

A primeira etapa é que sejam receitas simples. Geralmente é alguma que eu já testei e que não é necessário dar muitos passos para explicá-la. Gosto também de sempre pensar nos ingredientes: elas ficam visualmente mais bonitas quando posso desenhar algumas frutas ou legumes. À partir disso eu crio livre sobre o papel, sem muita medida – do jeito que vem fica. Utilizo como base das ilustrações, a aquarela, mas gosto de escrever o texto com canetas de caligrafia. Uso também lápis de cor aquarelável para dar alguns traços mais fortes.

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FTC: O que é cozinhar para você?

É muito mais que uma necessidade, é um ato de unir as pessoas e também de trazer prazer. Sinto que o melhor lugar de um lar é a cozinha. É sempre nela que a gente lembra das reuniões de família, que fosse pra jantar junto dos nossos pais e irmãos. Meus pais nunca me deixaram comer assistindo TV, por exemplo. Sempre diziam que ao menos no almoço e jantar deveríamos estar todos juntos. E é a hora que a gente conta do nosso dia, ri de algumas coisas.

Nunca me esqueço quando trabalhei dentro de uma pâtisserie em Paris. Nosso expediente começava muito cedo e terminava por volta de 15h. Meu chef gostava que a gente saísse não pela porta dos fundos, mas pela porta que passava dentro da loja. Lembro que um dia vi uma criança com um sorriso enorme no rosto, um sorriso todo lambuzado do recheio de chocolate de um éclair que eu tinha feito horas antes. Nunca esqueci aquele sorriso. Nem passava pela cabeça da criança que era aquele estranho passando ali em frente dela quem havia feito aquele doce que lhe trazia alegria. Eu cozinho pra isso.

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FTC: Como surgiu a ideia da confeitaria com os cookies ilustrados ou com palavras em cima?

Antes de ser confeiteiro, sou designer gráfico. Sempre coloquei pra mim ao mudar de profissão que eu nunca ia perder aquilo que passei tanto tempo estudando. Sei que como designer tenho uma base enorme em estética, desenho, caligrafia, composição, e gosto que isso faça parte dos meus doces. Fiz biscoitos com palavras pela primeira vez num casamento de uma amiga e parece que foi algo que chamou a atenção imediata das pessoas e acabou virando um pouco uma marca registrada.

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FTC: Qual a influência das cores nos seus trabalhos?

Tem bolos que eu começo pensando qual a cor que eu gostaria pra eles pra só depois escolher o sabor. Não gosto muito de usar corantes artificiais, então busco nas frutas e flores comestíveis o que preciso. Gosto da sensação que isso causa nas pessoas. Gosto de cores alegres que sempre trazem um quê de aconchego, que é o mesmo que eu busco ao cozinhar. Procuro frutas coloridas, tentando sair um pouco do escuro marrom do chocolate ou branco do chantilly e glacê.

No meu trabalho com o blog, o amarelo, minha cor preferida, nomeou a seção de maior popularidade e posteriormente meu primeiro livro, o Cartas Amarelas. O subtítulo do livro é: descobrindo cores, sabores e amores na cidade luz. Nas cores residem as minhas melhores memórias de Paris: o azul cobalto do céu de primavera, o amarelo das árvores no outono, o branco e cinza do inverno, as casinhas coloridas da Rue Crémieux, o rosa chiclete do meu bar preferido, Rosa Bonheur, as cores do apartamento que morei por lá, vermelho, diretamente numa rua chamada Chemin Vert (caminho verde).

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FTC: Está tocando algum projeto específico atualmente?

Estou numa época de divulgação do meu livro. Também divulgando uma temporada em Paris do programa de faço no youtube, O Chef e a Chata, que está no ar desde 6 de agosto, toda quinta-feira a partir de 8h no blog. Me preparando para as gravações dos episódio de verão do programa que acontecerão em setembro. Quero começar a pensar em um novo livro, foram dois anos de trabalho nesse que acabou de ficar pronto e vou adorar poder fazer outro pra que saia daqui 2 anos.

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FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte?

Acho que arte é uma forma de se expressar. Tenho um amigo que sempre me disse que minha terapia são meus textos, minhas cartas amarelas. É uma das formas que encontro pra por tudo pra fora. Delas saem meus experimentos em caligrafia. Quando estudei pâtisserie, descobri que os franceses consideram a confeitaria uma arte. Foi aí que comecei a querer expressar meus pensamentos e sentimentos em doces. Tenho forte essa coisa do afeto, então sinto que o que eu faço é carregado de sentimentos bons também.

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FTC: Com o que você se inspira?

Com o dia a dia. Brinco que gosto de cada dia ir na padaria tentando passar por ruas diferentes, mesmo que o caminho por vezes seja maior. É nessas horas que eu vejo uma janela bonita de uma casa antiga. Alguma senhora a olhar da janela. Algumas plantinhas em vasinhos enfileirados. Um azulejo bonito. Uma pichação que parece sem sentido. Minha maior inspiração vem dessas coisas simples que vejo.

Fico transformando essas imagens e formas na minha cabeça em textos, desenhos e doces. Sempre que posso viajar, também o faço. A observação nesse caso se amplifica, afinal tudo é novo pra mim. Vagar pela internet também sempre traz ideias. Acho incrível ver as coisas incríveis que as pessoas vão fazendo pelo mundo. Me deixa ainda com mais vontade de criar.

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FTC: 5 coisas que não consegue viver sem.

Cores, amores, sabores, café e música.

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FTC: Uma frase da sua vida;

Felicidade é ter afetos e projetos.

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Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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