Entre linhas, agulhas, papéis e sentimentos, nascem pequenas histórias que depois são impressas em poucas tiragens. São livretos, zines, colagens, pôsteres, impressões, contos. Tudo surge das mãos do jornalista Ricardo Rodrigues que desde a época do colégio sempre curtiu escrever textos de ficção“A minha geração cresceu entre dois universos: a tradicional forma de editar um livro, via grandes editoras, ou publicar de forma livre, seja bancando a impressão ou por meio de sites, blogs e, mais recentemente, redes sociais”.

Porém, Ricardo estava cansado de ver seu trabalho circular apenas na tela dos computadores, tablets e celulares. Pensava em materializá-lo no papel, e mais do que isso, pesquisar de forma mais aprofundada a relação texto-imagem. Em 2015, ele postou uma série de três pequenos contos que falavam sobre relacionamentos, e a resposta foi tão legal que fez uma tiragem impressa desses textos e deu de presente para os amigos. O feedback foi ótimo e ele percebeu que criar um selo de autopublicação poderia ser um caminho viável. Assim, em março de 2016, nascia o Experimentos Impressos. 

Como o nome diz, a ideia é experimentar formas, texturas, técnicas, tais como bordado sobre papel, carimbo artesanal e outras intervenções. São produzidas tiragens pequenas para valorizar o máximo do trabalho manual – alguns títulos são feitos em cópia única. Com exceção da impressão dos miolos, todo o resto é feito por Ricardo, um por um. Isso ajuda a garantir uma certa singularidade em cada exemplar.

Ricardo conta que o objetivo é justamente atingir um público que quer consumir um produto diferente, produzido manualmente e em baixa escala. O projeto surgiu num momento do crescimento das feiras gráficas e com menos de dois anos de vida, o projeto Experimentos Impressos tomou uma forma maior do que esperava. Com ele, o jornalista circulou em eventos pelo Rio Grande do Sul, onde mora, Santa Catarina e São Paulo.

A ideia agora é encontrar novas linguagens e produzir novos títulos. Além disso, Ricardo hoje ministra workshops de criação, entre eles de bordado sobre papel. E, assim, segue espalhando seu fantástico e encantador trabalho! Confira entrevista:

EXPERIMENTOS IMPRESSOS – POR RICARDO RODRIGUES

FTC: Quais as influências que estão por trás dos projetos?

Quando estava definindo de que forma eu iria atuar entrei em contato com muitas referências importantes. Queria trabalhar da forma mais manual possível, operando pequenas tiragens, e acabei experimentando diversas técnicas, tais como carimbo artesanal, pinturas e o bordado sobre papel.

Nessa última gosto de lembrar sempre do Jose Romussi, que tem um trabalho legal de interferência sobre foto, e a Izziyana Suhaimi, que esbarrei logo que comecei a pesquisar a técnica. Isso falando em termos visuais, mas há muitas referências literárias também, como García Márquez e Erico Verissimo, por exemplo.

FTC: Poderia nos explicar qual é a principal proposta dos Experimentos Impressos? 

A principal proposta é trabalhar com pequenas tiragens de textos literários. Como a ideia acabou crescendo, surgiram novos “produtos”, alguns até desdobramentos dos títulos de ficção, como pôsteres, prints, postais e colagens manuais/digitais. Quero que as pessoas tenham acesso à um produto quase único, pois todos são feitos um por um e acabam apresentando diferenças estéticas (como por exemplo no caso de capas impressas com carimbos).

Nesse contexto sempre respondo para as pessoas que sim, acabo atingindo um número muito menor de pessoas do que se estivesse publicando tradicionalmente em massa, em grandes escalas, ou mesmo pela internet, mas tenho um público bastante fiel já que sabe o que quer consumir e o tipo de produto que vai encontrar.

Anatomia Afetiva de Bolso foi criado a partir de colagens manuais e textos escritos à mão. É uma espécie de diário visual sobre um rompimento amoroso. Foi concebido através de 53 poemas e ilustrações. Na encadernação, tecido e papeis garimpados em enciclopédias antigas.

FTC: O que é arte para você e como você define o seu tipo de arte? 

Arte é uma forma de estimular debate, conceitos e significados, e foi nisso que pensei quando criei o projeto. Queria encontrar formas diferentes do pensar imagem-texto, e que as pessoas pudessem também tirar suas próprias conclusões sobre esses conteúdos, que não fosse tudo sempre entregue de forma tão mastigada.

FTC: Qual tem sido o maior aprendizado desde o nascimento dos Experimentos Impressos? 

Tenho aprendido muito e vou continuar aprendendo sempre. Aprendi desde a questão gráfica (eu sou formado em publicidade e jornalismo, com maior experiência nessa última habilitação, então tinha pouca vivência com a imagem), passando por gestão das publicações (controlando o que já fiz, o que preciso fazer, o que deu certo, o que não deu), até a troca de ideia com o número enorme de artistas que conheci nas feiras por onde passei, seja no RS ou nos eventos que participei em SC e SP.

FTC: Quais materiais mais utilizados? 

Minha base maior é o papel, então eu experimento todos os tipos, cores, texturas e formatos. Tenho sempre muita coisa em casa, às vezes sem nem saber em que projeto vou aplicar, é como um vício. Depois disso uso muito linhas de bordar/costurar, para os bordados em papel, e também tecidos de algodão, pois alguns títulos são encadernados de forma mais tradicional, então uso tecido de algodão nas composições.

FTC: Qual publicação que você tem como a mais especial até o momento? 

A maior referência quando falam sobre meu trabalho são as publicações da série ANATOMIA. Ela começou em julho de 2016 com a publicação de 3 zines de poemas ilustrados com desenhos científicos do século XIX, por meio de colagens digitais. O projeto cresceu tanto que hoje conta também com uma coleção de 30 pôsteres com essas ilustrações e bordados, cartões postais e um livro comemorativo editado esse ano, chamado ATLAS DE ANATOMIA. Ele tem um apelo muito legal por conta do texto, mas sem dúvida é um produto muito visual, e as pessoas demonstraram interesse na relação poema/partes do corpo humano.

Atlas de Anatomia engloba zines, pôsteres bordados e cartões postais. Foi produzido a partir de colagens digitais com ilustrações científicas do século XIX. Sua concepção levou seis meses, entre produção dos novos textos e colagens, pesquisa de materiais, papel adequado e o tipo de encadernação.

FTC: O que vem pela frente? 

Tenho como meta, desde o início, a formalização de todos os processos necessários para, em médio ou longo prazo, poder publicar textos de outras pessoas (inclusive, às vezes recebo mensagem de pessoas querendo tirar alguma obra da gaveta da forma que eu opero, em pequena escala, mas por enquanto ainda não é possível). E além disso continuar experimentando técnicas, afinal, como o nome diz, é preciso sempre provar novas formas de trabalho, descartar o que não funciona e desenvolver o que dá certo.

FTC: O que tem lido, ouvido, visto, quais são os artista preferidos no momento? 

Essa é sempre uma pergunta difícil pra mim haha. Eu sempre li muito, muito mesmo, acabava lendo tudo o que caía na minha mão. Inclusive nos anos que trabalhei em uma biblioteca. Lia García Márquez, Nelson Rodrigues, Erico, Fernando Veríssimo, Claudia Tajes, Leticia Wierzchowski, Jane Austen, Carol Bensimon, entre tanta gente. No momento tenho lido muito pouco em função dos trabalhos.

Na música tenho muito carinho por Laura Marling e Rachael Yamagata, e daqui, CéU e Roberta Sá. Recentemente, Francisco El Hombre também está na minha playlist. E tento ir nas exposições que circulam pela minha cidade e região. Tudo acaba se tornando “repertório” e pode se tornar importante referência visual/textual.

Acompanhe o trabalho de Ricardo nas redes sociais! Onde encontrar os Experimentos Impressos? No Facebook e no Instagram!

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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