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Renata Malachias cria significados únicos através de fotografias bordadas e revive objetos com suas mãos artesanais, transformando-os em pura poesia. Com uma imaginação à flor da pele, a artista mineira se dedica em tempo integral aos trabalhos manuais que sustentam o Manitu Estúdio, de onde nascem desde peg dolls (bonequinhos de madeira) à quadros e bastidores, sempre cheios de memórias. O Manitu carrega, também, seu olhar de arquiteta, treinado para estudar proporções, volumes e cores às criações da artista.

De acordo com as próprias palavras de Renata, “MANITU significa uma espécie de energia vital pertencente não só aos seres vivos em geral, mas também aos fenômenos naturais. Esse nome foi escolhido porque eu acredito que os objetos podem ter alma e também por sua sonoridade, que lembra manual”.

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Criado em 2015, o projeto surgiu junto com a vontade de Renata de permanecer mais tempo em contato com sua filha, acompanhando de perto seu crescimento, desenvolvimento e educação. A ideia inicial era assumir um novo lifestyle: mais humano e relacionado ao consumo consciente – seguindo os atuais movimentos de valorização de ofícios artesanais e da substituição do desejo de quantidade pelo de qualidade.

Conversamos com a artista para saber um pouco mais sobre como tudo surgiu e suas inspirações. Confira entrevista exclusiva:

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FTC: Poderia nos contar, com suas palavras, um pouco sobre você e como surgiu o Manitu Estúdio?

Eu sou mineira e faço trabalhos manuais desde que me entendo por gente. Aprendi todas as técnicas a que tive acesso. Eu desenho, pinto, faço tricô, sei costurar um pouco, aprendi maquete na faculdade, cozinho. Na infância, era famosa a reclamação da minha irmã mais nova de que eu gostava mais de fazer a casinha da boneca do que brincar de casinha. Ainda na infância, eu vendi colares de miçangas, laços de cabelo de tecido, enfim, experimentei o que foi possível.

Estudei arquitetura, me formei muito novinha, fiz mestrado e comecei a lecionar no ensino superior, sempre trabalhando também com projetos de arquitetura. Mantive o lado ligado às artes e trabalhos manuais vivos, como hobby, fazendo presentes especiais e embalando-os de forma super personalizada, buscando sempre algo que traduzisse a essência do presenteado.

Me mudei de Belo Horizonte para São Paulo há 10 anos e há 5 nasceu minha filha. Nesse momento, aconteceram duas coisas que acredito terem sido fundamentais para a existência do Manitu. Eu comecei a querer uma rotina um pouco mais livre, para acompanhar a Sofia de perto e também a fazer mais trabalhos manuais para as festinhas dela, presentes para os coleguinhas e professores. Foi quando percebi que essa atividade, que era muito natural para mim, despertava atenção e interesse dos outros.

Comecei a receber informalmente encomendas de amigos, que foram aumentando. No ano passado, resolvi encerrar de vez o trabalho com o escritório de arquitetura e assumir o Manitu como meu projeto profissional mais importante.

Hoje faço bordados contemporâneos variados, alguns trabalhos que incluem papel, customizo bonequinhos de madeira e tenho feito, cada vez em maior número, oficinas em que compartilho o aprendizado de trabalhos manuais e tento dividir com as pessoas os benefícios de se dedicar a esse tipo de atividade.

FTC: Quais materiais você utiliza nos seus trabalhos? Qual deles você mais sente prazer ao produzir?

Bastidores, tecidos variados, madeira, tinta, linha, lã, arame, papel. Adoro todos e tenho um prazer especial em experimentar novos tipos de materiais! Quando vou a um armarinho e encontro um material que parece ter bom potencial, o compro antes e, depois, investigo para descobrir como usá-lo.

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FTC: Qual a influência das cores nas suas criações?

Cor é emoção. Para mim, uma forma muito certeira de revelar o que se quer expressar em uma obra. Até o fato de se escolher o preto e branco é conceitualmente definidor em uma proposta.

Nos bordados e nas peg dolls eu normalmente começo com a escolha da cartela de cores, que me norteia para a composição do todo. É claro que às vezes acrescento informações no meio do trabalho, mas cor, para mim, é um elemento definidor de expressividade.

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FTC: O que é que mais transborda de você para o Manitu Estúdio?

Transborda tudo. Transborda minha forma singular de lidar com a vida, meu olhar que vê poesia onde muitos só enxergam aridez. Transborda também meu jeito introspectivo, que aparece nos objetos que produzo em uma busca pelo “gesto mínimo”, uma tentativa de criar o máximo de expressividade com o mínimo de recursos.

Por ter sido gestado (mesmo de forma inconsciente) por tanto tempo, ele carrega meus valores: o desejo de conferir importância e significado aos objetos, contrapondo a tendência de hiperconsumo que temos experimentado nos últimos anos; a discussão sobre figuras femininas inspiradoras, a incorporação da criatividade na vida cotidiana como fator de bem estar e bem viver.

Por ser um projeto tão pessoal, ele me permite várias iniciativas muito específicas. Desde que virei mãe, fiquei mais atenta para o excesso de desperdício das festas infantis: vários objetos despersonalizados, comprados às pressas, que vão para o lixo rapidamente. As peg dolls surgiram do desejo de criar objetos mais afetivos e duradouros para estas festinhas – o bonequinho enfeita a festa e depois vira brinquedo, ou decoração para o quarto das crianças.

E, para os peg dolls, ainda tem um trabalho que acho mais bacana e precioso que é a oficina, onde ensino os familiares a customizar os bonequinhos que vão para a festa. Imagine que delicadeza ter na decoração da comemoração objetos feitos por familiares ou amigos?

Já as fotografias bordadas são nossos produtos que mais emocionam e fazem com que recordações importantes, em plena era digital, ganhem mais valor e possam ser incorporadas a decoração da casa.

FTC: Durante este tempo, qual foi seu maior aprendizado ao se expressar pelo Manitu?

Como a arte é necessária para a vida, o quão pouco as pessoas estão conscientes disso e como é benéfico incluir arte e trabalhos manuais na vida quotidiana. E não estou falando de adotar o fazer manual como profissão.

A pessoa pode trabalhar com qualquer coisa, mas incluir na sua rotina o bordado ou o desenho, desenhar com o filho ou filha para brincar, pode ter um caderno onde desenha suas angústias, pode fazer os cartões que vai enviar.

Essas atividades estimulam a concentração e nos ajudam a nos sentir íntegros, fundamental na vida contemporânea, que é tão atribulada. Observo, também, como um pouco de beleza e carinho, às vezes pode mudar nosso dia.

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FTC: O que é arte para você e o que poderia nos falar sobre a sua arte?

Arte é uma necessidade do ser humano, é uma forma de comunicar, através de elementos de ordem simbólica e estética, emoções, visões de mundo, valores. Meu trabalho propõe esse diálogo: fazer uma leitura das singularidades (seja das pessoas ou de personagens) e devolver para o mundo minha leitura, de um modo afetivo, contemporâneo e bem humorado.

follow-the-colours-fotografias-bordadas-manitu-estudio-14FTC: Está desenvolvendo algum projeto paralelo atualmente?

Muitos. Acabei de finalizar um projeto que se chama “30 bordados em 30 dias” e ele me abriu alguns caminhos de trabalhos em outros suportes. Ando com muita vontade de ampliar a escala. Trabalho com objetos pequenos e tenho tido muita vontade de fazer peças enormes.

Estou desenvolvendo bordados para uma coleção de cestaria feita de embalagens longa vida, para uma marca que se chama Hibrida e também pequenas “coleções conceito” para dois ateliês de trabalhos manuais. Acredito muito em parcerias, acho que essa troca de energia move o mundo de uma maneira muito positiva.

Organizo e invisto também nas minhas oficinas que ensinam trabalhos manuais (bordado, bordado em papelão, peg dolls, bordado em fotografia). Acredito muito nessa vertente do meu trabalho, em que uso minha experiência como docente para incluir arte na vida cotidiana das pessoas.

E estou trabalhando em um projeto muito legal, que ainda é surpresa, mas que deve sair até o fim do ano e vai ser uma maneira de mais pessoas terem contato com a minha produção.

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FTC: Com o que você se inspira?

Com o mundo. Arquitetura, cinema, arte, design, comida, mas especialmente com as pessoas. Acho as pessoas e as estórias que elas têm para contar a coisa mais rica da vida. Tem poucas coisas que eu troco por uma boa conversa; sou ótima ouvinte.

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FTC: Cite 5 coisas que não consegue viver sem.

Criar, pessoas queridas por perto, um tempinho de introspecção, caderno de anotações, café.

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FTC: Um filme, uma música, e um livro que poderiam lhe representar.

O Castelo Animado, do Hayao Miyazaki. A composição visual é incrível, o castelo que se move e se modifica ao longo do tempo não é apenas um cenário, é um personagem do filme. A estória é sensacional: uma bruxa lança um feitiço sobre Sophie que a faz envelhecer. Ela vai para o Castelo e, no contato com ele e seu dono ela vai rejuvenescendo. Para mim, a bruxa só revelou a alma da menina, que era velha e nessa aventura redescobre a cor da vida.

Muito Romântico, do Caetano. Qualquer livro do Manoel de Barros me representa.

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FTC: Uma frase da sua vida.

“Torna-te quem tu és”. O trabalho mais importante a fazer na vida.

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As fotografias bordadas são as peças principais que Renata produz. Impressas em P&B em tecido de algodão tratado, depois ganham linhas. A escolha do que será bordado sempre varia: pode ser um detalhe já existente na foto, pode ser algo que nem está na foto, mas diz respeito a algo especial para quem está retratado.

Esse trabalho é feito com personagens ícones (como no caso das mulheres inspiradoras – Carmem Miranda, Frida Kahlo) ou para pessoas comuns que encomendam no intuito de tornar suas recordações especiais.

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Os bordados usam diversos tipos e materiais, incorporando ou não tecidos aplicados, sempre com leituras contemporâneas da técnica tradicional. Há um conjunto que retrata as constelações dos 12 signos do zodíaco, por exemplo, que foi feita inspirada em uma família de amigos e se chama “o céu de uma família”.

Outra ideia criada por Renata foi um conjunto inspirado em contos de fadas tradicionais, com um recorte bordado de americano cru tingido com chá (para ficar com aspecto de página de livro envelhecido) e depois aplicado sobre tecido estampado.

Para quem se interessou pelos bonequinhos de madeira, saiba que eles viraram mania no mundo. Alegres, podem ser personalizados para compor objetos de decoração, decoração de festas, bolos de aniversário ou casamento e lembranças muito especiais.

As peg dolls permitem levar itens únicos, lúdicos, sem restrição e diferenciação de gêneros, e o mais distante possível de personagens comerciais a crianças e adultos. Atualmente elas são feitas em vários tamanhos e configurações e já viraram também colares e pingentes para bolsa!

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Viciada em açúcar, Marina Gallegani é movida pelas forças da natureza e tem fome de liberdade. Jornalista, escritora e fotógrafa amadora, se entrega às cores da vida e sonha com viagens ao redor do mundo. Em constante reconstrução, acredita ser eterna e tem a certeza de que o sorvete é uma das fórmulas da felicidade.

Marina Gallegani – já escreveu posts no Follow the Colours.


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