Fauna e flora se entrelaçam em uma sensibilidade onírica, recheada por sonhos coloridos e delicadezas criativas. Para o olhar atento de Marcela Ghirardelli, tudo é possível.

Marcela Ghirardelli é o coração pulsante que dá vida a uma beleza encantadora e caprichosa em cada uma de suas produções artísticas. Das ilustrações aos bordados, a poesia está sempre presente, pedindo um olhar mais atento ao equilíbrio harmonioso de materiais e texturas intrigantes, que contracenam com a feminilidade e ousadia, moda e design.

A artista respira atualmente um momento especial de sua carreira, lançando na próxima segunda-feira, dia 13 de junho, a “Delírios”, uma exposição que revela toda a suavidade marcante de seu trabalho.

Ilustrações, aquarelas e bordados transbordarão autenticidade na Chá Comigo, em Belo Horizonte, das 18h às 22h. As peças decorarão o espaço até o dia 28 de junho. 

Diretora criativa da ArtBeat, Estúdio Criativo, Marcela possui uma trajetória artística inspiradora, tendo sido incentivada a desenvolver seus talentos desde criança. Atualmente trabalha com design e ilustração, e é apaixonada pelo que faz.

O prazer em desenhar começou na infância. Na época em que copiava os desenhos da Disney e da Turma da Mônica, sua família foi morar em Patrocínio, Minas Gerais, fazendo com que Marcela carregasse, a partir daí, uma saudade imensa de suas avós de Ribeirão Preto (São Paulo), dedicando-se em tempo integral a brincar na rua e desenhar.

Quando começou a participar de um ateliê de artes e artesanato, dirigido pela artista Valeska Bustamante, seus talentos foram despertados, desabrochando seu dom artístico desde então: “Foi lá que aprendi a desenhar de verdade e nunca mais parei”, diz Marcela. Em uma entrevista exclusiva para o FTC, a artista conta sobre sua “subjetividade delirante” de forma leve, tranquila e espontânea, uma delícia de se ler! Confira:

FTC: Conte um pouco sobre você e sua trajetória.

Marcela: Por influência da Valeska Bustamante e da minha família, terminei o colégio e entrei para Design de Moda na Universidade Fumec. O foco do curso sempre foi a criação e desenho e, durante a graduação, desenvolvi toda a estamparia da etiqueta jovem da Patachou, a Chou Chou, e continuei desenhando sem “fazer roupas” de fato, mas reafirmando minha vontade de ilustrar, desenhar, pintar, estampar tecidos e papeis.

Terminei o curso em 2010, achei que tinha me aperfeiçoado muito, mas ainda não era o que eu me identificava de verdade, então imediatamente depois da formatura ingressei no curso de Design Gráfico e conclui em 2013. Neste último me identifiquei, aprendi bastante muitas outras referências que aguçaram ainda mais minha vontade de ilustrar.

Durante toda a minha vida levo comigo um caderno de desenho, os sketchbooks. A partir das ilustrações da série “My version of” que iniciei após um workshop com a ilustradora Fernanda Guedes, aprendi a usar canetas hidrográficas e canetas design. Me identifiquei com a técnica e tenho desenvolvido muitos projetos dessa forma.

Meu primeiro projeto pessoal foi o Legs, em que pedi às minhas amigas que enviassem fotos de suas pernas para que eu pudesse transformá-las em ilustrações. Hoje eles ocupam as vitrines Urban Arts, uma galeria brasileira muito interessante com mais de 600 artistas participantes, onde encontrei uma ótima forma de comercializar e divulgar minhas ilustrações.

Junto ao Paulo César Moura Francisco, meu marido e sócio, criei um estúdio criativo, a ArtBeat, para me profissionalizar e melhor atender os clientes nas áreas de design e ilustração, ainda que do meu home office.

Cada dia é uma oportunidade de aperfeiçoar os projetos e nosso nome como profissionais no mercado. Somos assim: Paulo, o cérebro e raciocínio do nosso coração, e eu, o pulso criativo, vamos assim dizer, delirante da sociedade. A pouco colocamos nosso site no ar.

FTC: Marcela, você já deixou marcas encantadoras no universo das ilustrações, aquarelas e colagens. Agora, surge com um trabalho deslumbrante através do bordado. Como foi passar por cada um destes processos e como chegou até as agulhas e linhas?

Marcela: Obrigada! Acho que tenho muito a trilhar, mas já estou feliz demais em poder mostrar mais um pouquinho do que faço. Às vezes me perguntam o que é meu trabalho, e lá vou eu me perder na resposta, porque desenho até em vidro. Mas voltando aos bordados… Já fazia um tempo que queria voltar a bordar. Comecei a observar, principalmente pelo Instagram, uma tendência crescente de ilustradores bordando.

Foi quando surgiu o convite da Laura Damasceno do Chá Comigo (casa de chás) para realizar uma exposição naquela casinha tão charmosa, que eu já frequentava toda semana em BH. Vi neste convite a oportunidade de ilustrar bordando, e levei para essa técnica minhas referências, gostos e, claro, delírios com o universo feminino, flora e cores.

Finalizei o primeiro e mostrei para algumas pessoas, o resultado me surpreendeu, porque vi que havia um reconhecimento do meu estilo de desenhar.


Agora resolvi pintar umas bonequinhas para a exposição também, fiz a Amy, a Marylin, a Malala, a Frida, a Coco Chanel, entre outras. Mas bordar é um vício, devo bordar mais alguma coisa até o último minuto para lançar na exposição, sempre acho que tenho pouco material, aí tento fazer mais uma coisinha.

FTC: Como aprendeu a bordar?

Marcela: Aprendi com a minha mãe, ela é ótima e super habilidosa com mãos também. Caprichosa que só.

FTC: Há quanto tempo vem trabalhando com o bordado e quais materiais você utiliza?

Marcela: Tem apenas dois meses que voltei a bordar. Este convite da Laura foi a fagulha que faltava para criar coragem e encarar novos projetos autorais. Sobre os materiais, uso tecido de algodão, gosto muito do americano cru, achei a trama muito boa! Linhas de meadas e algumas agulhas. (Quebro várias! ;P)

Uso feltro também para formar as figuras femininas, além de lápis e algumas canetas comuns para desenhar nos tecidos antes de começar a bordar.

FTC: Qual a influência das cores na sua arte?

Marcela: Amo as cores! Mesmo que tente, planeje algo com poucos tons, quando eu me distraio está tudo sempre muito colorido, fico mais contente com ilustrações coloridas. Adoro trabalhar com canetas “Copics”, e sempre que posso compro mais e mais cores. Acho que as cores alegram a vida e, vendo meu trabalho colorido, fico feliz. Hoje entendo que essa é minha “expertise”, tudo colorido!

FTC: A presença de elementos femininos é muito forte em suas criações. Poderia explicar essa característica marcante?

Marcela: Me formei em Design de Moda antes do Design gráfico, então, o universo da moda com certeza é uma fonte de inspiração constante no meu trabalho. O feminino me inspira muito, busco sempre inspiração em elementos da fauna e flora que acho que dialogam muito bem com a moda e com a mulher.

E não tão distante da moda, tenho gosto pelo rock; as personalidades e seus trajes são sempre muito bem vindos na hora de ilustrar, e meu projeto de final de curso do Design Gráfico foi sobre Rolling Stones: 25 ilustrações sobre os 50 anos de carreira. Ilustrar esses ícones foi desafiador.

Na faculdade me chamaram de “esquizofrênica”, por não ter um estilo único e transitar por muitos universos, eu aceitei como um elogio, afinal, muitas coisas me inspiram. Tenho gosto por detalhes de pessoas e lugares por onde passo, mas as mulheres têm mais detalhes, sutilezas e cores.

FTC: Está produzindo algum projeto específico atualmente?

Marcela: Crio, ao mesmo tempo, os projetos dos clientes. Neste momento o maior o projeto cultural é o Dia de Feira, de BH. Este projeto busca valorizar a cultura das feiras na cidade; para eles, criei a identidade visual e hoje sou da equipe de design do projeto. Algumas vezes, aparecem demandas do projeto “Legs”. Também tem as demandas de vidros e espelhos ilustrados para casamentos.

Marcela, seu marido Paulo, e suas ilustrações em vidro

Mas o principal agora são as criações para a exposição: fiz 14 bordados; 3 ilustrações; pôsteres em fineart, cada um com uma técnica: nanquim, copics e outro em aquarela; almofadas estampadas com alguns dos bordados; colagens; broches de coração, feitos pela minha mãe; canecas estampadas com o coração Delírios e 6 bonequinhas pintadas à mão de mulheres delirantes. Será que ainda tempo de mais alguma coisa?

FTC: Como está sendo a experiência de sua nova exposição, intitulada como “Delírios”?

MarcelaEstá sendo muito legal, muito mesmo, estou muito feliz, porque além de ser a primeira exposição solo, é totalmente autoral, fiz o que deu na minha cabeça, delirei mesmo! Começou com um convite de fazer coisas novas e só cresceu. Claro que estou também um pouco apreensiva, será que está tudo legal? Tem coisa suficiente? Mas tenho feito tudo de coração!

FTC: O que é arte para você e como definiria sua arte?

Marcela: Difícil. Para mim arte instiga, emociona. Meu trabalho é arte? Espero que aconteça isso, cative e emocione as pessoas, não somente por imagens de impacto, mas por poderem perceber que foi feito à mão, com carinho, esmero e dedicação. Um pouco do meu mundo para colorir a vida de mais alguém. Sou muito emotiva e acho que vou chorar de ver muita gente ir me prestigiar.

FTC: Com o que você se inspira?

Marcela: Com detalhes, cores, flores… a moda e a arte me inspiram. Hoje está tão fácil de se inspirar, temos muitos bons designers e artistas a um toque.

FTC: 5 coisas que não consegue viver sem.

Marcela: Família, marido, enteada… bom, não são coisas. Rs! Chocolate, materiais artísticos –  sempre alguma coisa para rabiscar, meu iphone, secador de cabelo, maquiagem… (delírio total, né?…)

FTC: Um filme, uma música e um livro que expressam quem você é.

Marcela: Nunca parei para pensar sobre isso, mas vamos lá! Música: Follow you Follow me  – Genesis. Livro: A Viagem de Théo. Filme : Não sei se me representa totalmente, mas foi o que lembrei de cara e porque me vesti de Audrey Hepburn quando tinha quinze anos e isso me marcou – Bonequinha de Luxo. Se pudesse andaria super arrumada e elegante como ela todos os dias.

FTC: Uma frase de sua vida.

Marcela: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Acompanhe o trabalho de Marcela Ghirardelli através do seu perfil pessoal e do ArtBeat, ambos no Instagram, seu site, Facebook, ou tenha mais perto de você algumas de suas obras que podem ser compradas pela Urban Arts.

Viciada em açúcar, Marina Gallegani é movida pelas forças da natureza e tem fome de liberdade. Jornalista, escritora e fotógrafa amadora, se entrega às cores da vida e sonha com viagens ao redor do mundo. Em constante reconstrução, acredita ser eterna e tem a certeza de que o sorvete é uma das fórmulas da felicidade.

Marina Gallegani – já escreveu posts no Follow the Colours.


Você também poderá gostar de:

Comentários