Amor. Essa é a palavra que vem a cabeça ao conhecer o trabalho de Mel Cerri. Mel conta que, desde criança, sempre foi atraída por tudo que envolvia letras e arte. Escrevia cartas para os seus amigos e levava a sério as aulas relacionadas ao assunto na escola. No momento em que teve que escolher o que fazer na faculdade, ela soube que queria seguir sua veia artística.

Assim, ela se formou como publicitária e tem trabalhado como Designer desde então. No entanto, no final de 2014, decidiu mergulhar mais a fundo na sua paixão pelas letras e especializar-se no lettering. “Descobrir o que você gosta de fazer não é uma tarefa fácil, mas enquanto eu estava pesquisando, encontrei uma citação de Jessica Hische que dizia: ‘O trabalho que você faz enquanto procrastina é provavelmente o trabalho que você deve fazer para o resto da sua vida’. Essa foi a pista que me fez olhar para alguns cadernos antigos e pastas que estavam cheias do meu melhor “procrastiwork”.

Mel percebeu que durante todo esse tempo estava desenhando letras e que de alguma forma, essas formas sempre vieram naturalmente para ela. Assim, deu início ao seu lindo trabalho com lettering ilustrativo, criados à mão, de forma profissional. Confira sua entrevista, exclusiva o FTC! 

ENTREVISTA COM MEL CERRI

FTC: Mel, conta um pouco sobre a sua história, o que fazia antes e como foi parar no lettering. 

Mel Cerri: Eu venho de uma casa muito maluca, que sempre foi frequentada por pessoas dos mais diversos backgrounds. Minha mãe foi bailarina profissional e depois disso ingressou numa carreira cultural, produzindo exposições de história, arte e esportes. Como ela sempre trabalhou de casa, numa mesma semana eu podia estar com um amigo do ballet, um curador de um museu e um jogador de futebol, todos jantando e contando suas histórias. Com certeza isso contribuiu para que eu sempre mantivesse a mente aberta sobre o que vale a pena fazer e conhecer. Nunca fecho a porta para uma oportunidade louca só porque ela não está diretamente relacionada à minha profissão pois aprendi que daí pode surgir inspiração, novas perspectivas e histórias interessantes que acrescentam demais à minha formação.

Eu sou formada em publicidade pela ESPM de São Paulo, mas nunca trabalhei propriamente com publicidade (nada de agência, rs!). No meu segundo ano eu comecei a pegar alguns freelas de design e a partir daí eu sempre trabalhei como designer. Abri um pequeno estúdio com o meu namorado (atual marido) e assim fomos trabalhando numa área com a qual eu eu sempre me identifiquei muito. No nosso estúdio nós focamos especificamente em design gráfico: identidade visual, impressos (como livros, brochuras, cartazes, folders, etc.) e trabalhamos muito também com design para exposições.

Lá pelo final de 2014, começo de 2015, eu comecei a me perguntar se estava na área certa para mim. Eu sempre fui muito apaixonada por tipografia e tinha conhecido recentemente o trabalho da Jessica Hische (digamos que é uma rockstar do lettering) e assim eu tive um primeiro contato com lettering como profissão, e não apenas como hobby. Aí passei a me perguntar: o que é que eu faço no meu tempo livre e que poderia se tornar uma profissão? O que eu faço por paixão e não como “trabalho”. Foi aí que eu desenterrei meus cadernos antigos (antigos meeeesmo) e vi que sempre fiz muito lettering como passatempo. As letras sempre foram o foco principal das minhas ilustrações e rabiscos, e então pensei “Ahá! Talvez esse seja um caminho para mim”.

Desse ponto em diante, passei a estudar muito e praticar mais ainda. Estava sem dinheiro para cursos e workshops, então eu fui aprendendo vendo tutoriais na internet e usando alguns livros como referência, estudando e aprimorando a minha técnica. De lá para cá, tenho buscado construir uma assinatura estética que seja bem autêntica (isso é mais difícil do que eu pensava), mas sempre procuro me lembrar de que eu entrei nessa carreira para me divertir, então tento ao máximo trazer leveza para o dia-a-dia da minha prática.

FTC: Como você define a sua arte?

Mel Cerri: Eu faço lettering ilustrativo. Isso significa que eu desenho letras, mas de uma forma bastante ilustrada, cheia de adornos, enfeites, frufrus e tudo mais que eu puder! Todo o meu trabalho é criado à mão. Sempre acho bom explicar que eu não pego uma fonte pronta e manipulo. Eu desenho as letras uma a uma, de acordo com cada situação e necessidade.

Eu acho muito difícil definir a minha própria arte, pois eu não a vejo com o mesmo distanciamento com que os a outros veem. Às vezes eu acho que o meu trabalho é feminino, mas muitas pessoas discordam, dizendo que ele é mais ousado do que eu imagino. Então eu posso estar errada, (rs!) mas eu diria que meu trabalho é bastante autoral, vibrante e às vezes tem uma pegada vintage: sou apaixonada pelas letras do passado.

FTC: Com o que você se inspira? Hoje, quais seus principais temas abordados?

Mel Cerri: Inspiração é algo que eu tento buscar ativamente (não é sempre que nós estamos magicamente inspiradas, né?). Eu amo olhar peças vintage: seja cartazes, capas de livros, embalagens, etc. Para isso o Pinterest é legal, mas o melhor tesouro é mesmo o Flickr (por incrível que pareça). Se você souber procurar, o Flickr é um poço de inspiração sem fim.

Para as coisas mais modernas, adoro o trabalho dos artistas de lettering contemporâneos: Jessica Hische (para tudo que é delicado e bem decorativo), Alex Trochut (bem gráfico, diversos tipos de materiais e texturas), Gemma O’Brien (murais maravilhosos), além de muitos outros! Os brasileiros também arrasam: Cyla Costa, Jackson Alves, Gui Menga, etc. O lettering tem uma comunidade muito rica e talentosa no Brasil e no mundo.

Eu abordo temas bem diferentes, mas a minha intenção é sempre abrir uma conversa, criar aquele momento de “nossa, eu também!” com a pessoa que está vendo uma peça minha. Por exemplo, eu já falei de saúde mental (Don’t believe everything you think), ou de perfeccionismo no meio criativo (Done is better than perfect) e também criei uma série inteira sobre as coisas que eu mais amo no natal. Eu acho que o legal do lettering é que ele pode passar uma mensagem literal e uma outra mensagem visual, então dá para explorar muitos caminhos diferentes dentro de uma única peça.

FTC: Mel, conta pra gente mais sobre o uso das cores!

Mel Cerri: Minha mãe fala que desde criança, o presente que eu mais amava ganhar eram canetinhas e lápis de cor, então acho que essa é uma paixão que vem de vidas passadas, rs! Eu amo todas as cores, sem restrição. Isso cria uma facilidade e uma dificuldade. A facilidade é que eu posso trabalhar com qualquer paleta que eu vou estar feliz: vibrante e pop, desaturada e vintage, masculina ou clássica, não importa: para mim o essencial é que a paleta faça sentido com aquilo que eu quero comunicar.

A dificuldade é que eu tenho me questionado sobre se eu deveria trabalhar apenas dentro de uma paleta específica. Acho que isso ajuda o público a reconhecer facilmente uma peça de um artista, o que pode ser vantajoso. Em um mercado tão inundado de referências visuais, ilustradores fantásticos e muitas imagens, é bom você ter um estilo que possa ser facilmente reconhecido. Mas não bati o martelo nisso ainda, e acho que no fim das contas não vou conseguir restringir a minha paleta porque eu amo demais as possibilidades que as cores me permitem para abrir mão dessa versatilidade.

FTC: Qual seu processo criativo no dia a dia?

Mel Cerri: Meu processo varia bastante de acordo com o cliente, mas em geral, começo um projeto tentando entender bem a fundo o que o cliente precisa e espera da arte. Isso às vezes significa ser bastante insistente, fazer muitas perguntas, entender a empresa para a qual estou trabalhando e qual é o propósito da criação. Considero que a comunicação entre o cliente e o artista é a parte mais importante do trabalho, pois evita frustrações no futuro e economiza o tempo de todos.

Depois de entender bem a necessidade do cliente, passo para a fase de coleta de referências e pesquisa. Essa fase pode levar um tempo (e em geral eu tenho a tendência a querer pular!), mas é essencial para que eu esteja sempre melhorando. Seria mais fácil ir direto para o papel desenhar, mas se eu não me expuser a imagens novas, diferentes estilos, outros artistas, etc., é muito fácil ficar repetindo e reciclando o mesmo estilo infinitamente – caio numa zona de conforto perigosa. Nesse processo de juntar referências em geral algumas ideias vão surgindo e eu anoto tudo para não esquecer e depois ver o que pode virar um rascunho legal.

Eu tenho notado que o meu momento mais criativo é de manhã, quando os e-mails ainda não começaram a se acumular e o telefone não está a mil. Tendo isso em mente, eu em geral começo o dia seguinte com os rascunhos e a parte conceitual das minhas peças, o que para mim é a parte mais difícil. Fechar uma composição, definir o estilo das letras e amarrar tudo isso com os adornos e outros acabamentos é a parte mais demorada, por isso gosto de estar com a mente bem descansada, que é quando eu consigo fazer o meu melhor. Eu faço isso ouvindo milhões de podcasts (estou viciada!). Para mim é o momento mais gostoso de todo o processo: sentar em silêncio em algum canto, colocar o fone de ouvido e passar horas e horas desenhando.

Depois dos rascunhos, em geral o cliente pede algumas rodadas de alterações e eu passo para a finalização, que pode ser bem variada: à mão, ilustração digital ou vetor. Com a arte-final criada, é só entregar para o cliente e encerrar o trabalho.

FTC: O que tem lido, ouvido, visto, quais são os artistas preferidos no momento?

Mel Cerri: Eu estou vivendo uma fase de livros de detetive (haha!) então minha leitura está bem monotemática: Sherlock Holmes, Agatha Christie e afins. Minha avó era muito fã de Agatha Christie, então ler os livros do detetive Poirot tem me feito sentir ainda mais próxima dela. Li recentemente também “The Moonstone” e adorei.

Na TV o que eu mais vejo são séries de época: Downton Abbey, The Crown e outras nesse estilo. Também estou viciada em Westworld, meu Deus que série maravilhosa!

Difícil escolher apenas alguns artistas, mas estou amando alguns ilustradores que conheci recentemente. Adoro os animais coloridos da Helen Dardik, as cores da Paola Saliby, e estou encantada com o trabalho da argentina Eugenia Miel – as ilustrações dela tem muito storytelling. Amo também os cartoons da Gemma Correll, acho ela divertidíssima e conheci recentemente o trabalho geométrico do Marc David, que está bombando. A verdade é que estamos vivendo um tempo maravilhoso, cheio de artistas que eu admiro demais!

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Mel Cerri: Meu foco profissional, esse ano, é criar mais murais. Eu fiz alguns no primeiro semestre e me apaixonei por pintar e desenhar em grande escala. É um trabalho completamente diferente de tudo que eu já fiz e, apesar de ser fisicamente cansativo, eu amei. Estou montando um projeto para pintar murais em ONGs de São Paulo e pretendo começar agora no segundo semestre. A ideia é que eu possa praticar e ao mesmo tempo fazer algo de bom para quem precisa.

Além disso, quero começar uma série de vídeos mostrando um pouco do meu processo e ensinando passos simples na construção do lettering. Quero retribuir à comunidade online de “amigos das letras” que tanto me ajudou a aprender e crescer nessa profissão!

Um dos murais de Mel Cerri em grande escala. A artista quer cada vez mais fazer trabalhos desse tipo e espalhar suas letras lindas pelas ruas! 

Acompanhe o trabalho de Mel Cerri em seu site, Behance, Facebook e Instagram.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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