A pintura corporal é uma manifestação cultural praticada desde os Neandertais, há aproximadamente 50 mil anos. Desde então, a pele tingida recebeu características representativas de posições sociais, celebrações festivas/ritualísticas, ideais estéticos e emblemas de batalhas. Milênios depois, na década de 1960, a body art surge como uma vertente da Performance e qualifica um corpo, em sua materialidade, como suporte para a obra; como meio de expressão artística. É sob tal perspectiva que Yves Klein utilizou modelos como “pincéis vivos” ao carimbarem seus corpos nus pintados com a tinta Azul Klein sobre telas ao título de Antropometria.

Atualmente, a pintura corporal é amplamente produzida pelo mundo com diversas técnicas e olhares de habilidosos artistas. Nessa categoria, Laura Spector foca seu trabalho na reprodução de obras de acervos museológicos; Paul Roustan cria obras mais conceituais;  Alexa Meade propõe o ilusionismo da transformação de elementos 3D em 2D; e a australiana Emma Hack – que  ganhou notoriedade ao ter sido responsável pelo emblemático cenário do clipe musical de Gotye, em Somebody That I Used To Know – é especialista em camuflagem. Nos exemplos acima, percebe-se o corpo como suporte artístico, como um expositor de um conceito geral muito acima de sua função, como se qualquer corpo pudesse ocupar aquele lugar.

O SER DE LUANA

No entanto, falar no corpo como mera tela é simplificar a criação e a existência do projeto Ser de Luana. Não se trata apenas de um torso feminino pintado. Tampouco é uma solicitação de determinado desenho como se estivesse pedindo uma bebida em um bar. A elaboração dos conceitos é feita através da história de vida da mulher a ser pintada, contada durante uma entrevista que mais parece uma conversa entre amigas íntimas.

É neste momento de confiança, de entrega pessoal sobre vivências, expectativas e anseios que a artista Luana Cavalcante identifica ícones, símbolos e características peculiares de cada Ser para elaborar o croqui na mesma hora, com um desenho exclusivo. A pintura emana a essência de cada mulher e seu corpo transmite a mensagem sobre si mesma. Logo, não se pode separar o corpo da pintura, pois só aqui a arte se completa.

Muitos depoimentos destacam o momento emocionante da apresentação do croqui como um instante de reconhecimento, de reencontro consigo própria. Luiza Romão, uma das mulheres pintadas pela artista, entende o projeto O Ser de Luana como uma “iniciativa sensível e poética que têm como intuito aproximar as mulheres de seus corpos e trajetórias”. Afinal, o trabalho de Luana proporciona felicidade e amor-próprio. O empoderamento torna-se uma consequência natural.

SOBRE A ARTISTA LUANA CAVALCANTE 

Natural de Mossoró-RN, Luana Cavalcante teve em seu pai, Laércio Eugênio, a primeira referência artística. Todavia, seguiu carreira na área de design gráfico e publicidade em agências, onde atuou como Diretora de Arte por 17 anos. Neste período, em 2012, conseguiu a chance de estudar Design e Multimídia na Universidade de Coimbra, em Portugal onde interessou-se pela Escola de Artes e estudou Composição Fotográfica.

Foi nessa disciplina que surgiu a oportunidade de se reconhecer como brasileira (a única da turma) em Portugal, através de trabalhos de autorretrato pintando o próprio corpo, como os índios. Luana afirma que tal processo colaborou para uma descoberta de si mesma, como mulher e artista, e desde então, praticou constantemente o estudo artístico como autoterapia. “Eu me sentia cada vez mais segura e feliz comigo, com meu corpo e pela descoberta do meu ser genuíno. Então, em 2016, resolvi proporcionar tudo isso para outras mulheres”, explica a artista.

Atualmente o projeto O Ser de Luana contabiliza mais de 100 histórias de mulheres transformadas em arte e cinco exposições. O processo, resultados, depoimentos e agendamentos podem ser visualizados/feitos no Instagram. Confira mais Seres de Luana:

Marjorie Simões é designer de interiores e artista visual. Curiosa, observadora e pesquisadora, adora aprender coisas distintas para depois conectá-las. Valoriza os trabalhos manuais, a cultura vernacular, a economia criativa e a produção/consumo sustentável. Acredita no poder das cores e tem leves faniquitos quando entra em ambientes beges.

Marjorie Simões – já escreveu posts no Follow the Colours.


Você também poderá gostar de:

Comentários