A publicação de 1931 do astrônomo e físico inglês James Jeans, Por que o céu é azul (Why the Sky Is Blue), se tornou um clássico da ciência desde que foi publicado pela 1ª vez em uma série de palestras. Em apenas quatro parágrafos e uma analogia surpreendentemente detalhada mas simples, Jeans mostrou a milhões de estudantes uma compreensão do azul celestial do céu comparando-o com algo familiar, não substituindo a poesia da natureza por jargões e diagramas científicos. Assim, ele nos explica o processo pelo qual as ondas de luz azul se espalham acima de nós.

Porém, mais de cem anos antes, um cientista já havia criado uma ferramenta bem interessante dentro desse tema; neste caso, ele tentou mostrar como o céu é azul. O Cianômetro de 1789, do físico suíço Horace Bénédict de Saussure (1740-1799) era “um círculo de amostras de papel tingidas de azuis cada vez mais profundos, do branco ao preto” e incluía 53 tons em sua interação mais avançada, pretendendo mostrar como a cor do céu muda conforme sua elevação. A ideia era fazer experimentos e catalogar as cores do céu.

COMO MEDIA O AZULADO?

Mas como medir o ‘azulado’? Usando suspensões de azul da Prússia, o papel tingido de Saussure formava quadradinhos de cada tom que ele conseguia distinguir as nuances. Assim, eram reunidos em um círculo de cores numerado que podia ser erguido até a distância padrão do olho – e o quadrado correspondente estabelecia o grau de azul.

O fascínio de Saussure com o azul do céu começou quando ele era um jovem estudante e viajou para Mont Blanc e ficou impressionado com o cume. Ele então sonhou em escalá-lo, mas em vez disso usou a riqueza de sua família para oferecer uma recompensa à primeira pessoa que pudesse. Vinte e sete anos depois, o próprio Saussure subiu ao topo com uma equipe, em 1786, carregando consigo “pedaços de papel de diferentes tons, para se erguer contra o céu e combinar com sua cor”.

Saussure foi surpreendido por um fenômeno relatado por montanhistas: conforme se sobe mais, o céu fica com um tom de azul mais profundo. E então começou a formular uma hipótese, que a Royal Society of Chemistry explica:

Armado com suas ferramentas e um pequeno kit de química, ele percorreu os vales e além. À medida que suas viagens o levavam cada vez mais alto, ele se confundia com a cor do céu. Diz a lenda local que, se alguém escalasse alto o suficiente, ficava escuro e seria possível ver, ou até mesmo cair no vazio – tais terrores mantinham os homens comuns longe dos picos. Mas, para Saussure, a cor azul era um efeito ótico. E porque em alguns dias o azul do céu se desvanecia imperceptivelmente no branco das nuvens, Saussure concluiu que a cor deve indicar seu teor de umidade. 

No topo do Mont Blanc, o físico mediu o que ele considerou “um azul do 39º grau”. O número significava pouco para ninguém além dele. Obcecado por medir fenômenos meteorológicos pelos quais suas excursões pelas montanhas da Europa o levaram mais, Saussure- foi geólogo, meteorologista e alpinista suíçoinventou e aprimorou vários instrumentos científicos. Entre eles também havia um magnetômetro e o diafanômetro, nomeado para medir a clareza da atmosfera.

Mas após sua invenção, o cianômetro rapidamente caiu em desuso, como Maria Gonzalez de Leon aponta. “Afinal, pouca informação científica foi dada.” Porém, dizem que Horace confiou em seu Cianômetro pelo resto de sua vida.

A ferramenta, no entanto, acompanhou o famoso geógrafo Alexander von Humboldt também através do Atlântico, “para o Caribe, as Ilhas Canárias e a América do Sul”, onde Humboldt “estabeleceu um novo recorde, no 46º grau de azul, para o céu mais escuro já medido” no cume da montanha andina Chimborazo. Este seria um dos únicos usos notáveis ​​do artifício poético. Quando a verdadeira causa do azul do céu, a dispersão da luz, foi descoberta décadas depois, na década de 1860, o círculo azul de Saussure já havia caído na obscuridade.

O Naturgemälde de Humboldt, também conhecido como Mapa Chimborazo, é a representação dos vulcões Chimborazo e Cotopaxi em seção transversal, com informações detalhadas sobre a geografia. A ilustração foi publicada em The Geography of Plants, 1807, em grande formato (54 cmx84 cm). 

O protótipo não estava, pelo menos dessa forma, destinado a passar para a posteridade. Nunca foi fixado em um suporte, nem inserido em um telescópio orientável como alguns cientistas fizeram com seus artefatos nas décadas seguintes.

ONDE ENCONTRAR O CIANÔMETRO

O Cianômetro está agora em exibição no Museu de História da Ciência de Genebra, perto da sobrecasaca de Saussure e dos muitos instrumentos que ele levou para o topo do Mont Blanc no início de agosto de 1787. Mesmo em uma vitrine de vidro, os pequenos quadrados azuis não perderam em nada do seu brilho.

Como os outros instrumentos aperfeiçoados pelo sábio suíço, este é o testemunho de uma etapa fundamental para a ciência. Seu objeto ajudou a levar a uma conclusão super importante na época: o azul do céu teria sua medida de transparência causada pela quantidade de vapor de água na atmosfera; além disso, outras ferramentas ajudaram na constituição da meteorologia e, mais amplamente, para a física moderna.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no FTCMAG.



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