A história de Thomas Wright, um visionário esquecido, entre a ciência e o anseio espiritual, que inspirou o filósofo Kant e antecipou o telescópio Hubble

Thomas Wright (22 de setembro de 1711 – 25 de fevereiro de 1786) cresceu com uma paixão grande por aprender e um problema de fala. Por isso, foi educado em casa. Seu pai declarou o menino louco por suas paixões matemáticas e queimou todos os livros que a mãe havia comprado. Implacável, Thomas encontrou um professor de matemática local, teve aulas de ciências gratuitas em uma paróquia e, em seguida, tornou-se aprendiz de um fabricante de relógios continuando a estudar por conta própria.

Ele gostava cada vez mais de astronomia e ia em busca da verdade elementar. Wright foi então para Londres, estudar a fabricação de instrumentos matemáticos e logo após fez uma viagem marítima experimental para Amsterdam. Aos 19 anos, em 1730, fundou uma escola própria para ensinar matemática e navegação. Após alguns anos, ele construiria um observatório, e seria o 1º a descrever a forma espiral da Via Láctea, além de se tornar a 1ª pessoa a sugerir que existem outras galáxias além da nossa, quase dois séculos antes do telescópio Hubble (1990) trazer uma prova empírica da compreensão do universo.

“O Objeto daquele Ser incompreensível, que só e em si mesmo compreende e constitui a Suprema Perfeição”.

Vista da Via Láctea com base em uma das próprias observações de Wright.

UMA TEORIA ORIGINAL OU NOVA HIPÓTESE DO UNIVERSO, POR THOMAS WRIGHT

Em 1750, Thomas Wright publicou por conta própria um livro visionário intitulado “Uma Teoria Original ou Nova Hipótese do Universo, Fundada nas Leis da Natureza e Resolvidas por Princípios Matemáticos os Fenômenos Gerais da Criação Visível, e Particularmente a Via Láctea”, de domínio público (original em inglês: An Original Theory or New Hypothesis of the Universe, Founded upon the Laws of Nature, and Solving by Mathematical Principles the General Phaenomena of the Visible Creation, and Particularly the Via Lactea). Por conta de sua aguçada sensibilidade estética (Thomas também era arquiteto, projetista e designer de jardins) ele encomendou “os melhores mestres” para ilustrar suas teorias em trinta e algumas chapas. São lindos desenhos repletos de cometas, planetas e outros corpos celestes.

Através de 9 cartas acompanhadas por 32 gravuras que retratam suas interpretações do cosmos, nas quais ele expande suas teorias da criação e do universo, a publicação de Wright explica a natureza da matemática, o movimento dos planetas ao redor do sol, as estrelas, a pluralidade do sistema, a aparência da Via Láctea. Por falar em Via Láctea, Thomas Wright a descreve como “um efeito óptico devido à nossa imersão no que se aproxima de um camada plana de estrelas. …as estrelas não estão infinitamente dispersas e distribuídas de maneira promíscua por todo o espaço, sem ordem ou projeto,… este fenômeno não é mais do que um certo efeito originado da situação do observador,… Para um espectador colocado em um espaço indefinido,… a Via Láctea é um vasto anel de estrelas…”

Representação da teoria de Wright sobre a existência de galáxias além da Via Láctea, que ele considerou “uma visão parcial da imensidão” e “uma visão finita do infinito”.

As órbitas de Júpiter, Saturno e um cometa.

Apenas 118 cópias do livro foram impressas, todas para os clientes de Wright e assinantes particulares. Um deles finalmente chegou a Immanuel Kant, filósofo, que ficou especialmente encantado pela explicação de Wright de por que a Via Láctea nos parece dessa forma – um efeito óptico devido à posição particular dentro do plano da galáxia – e pela noção de múltiplas galáxias. Kant aproveitou essas ideias e desenvolveu um livro (História Geral da Natureza e Teoria do Céu – 1755) que publicou anonimamente cinco anos depois, baseando-se (e copiando) nas teorias de Wright para conceber seus famosos “universos-ilhas”, que influenciaram gerações de astrônomos durante toda sua época.

Todos os então conhecidos planetas e luas do Sistema Solar desenhados em escala proporcional a um Sol de 30cm de diâmetro.

O ESQUECIMENTO DE THOMAS WRIGHT, POR IMMANUEL KANT

Com a ideia de Wright tomada e melhor elaborada por Immanuel Kant no livro História Natural Universal e Teoria dos Céus, outros pensamentos também são frequentemente atribuídos a Kant. A de que muitas nebulosas fracas são na realidade galáxias incrivelmente distantes, por exemplo. Wright enfatizava que a Terra e a espécie humana são partes insignificantes e transitórias de um vasto universo. Ele se propõe a unir, em vez de separar, ciência e religião. Porém, naquela época, a ciência era vista como uma serva da teologia, e tinha a tarefa não de descobrir a verdade, mas sim de provar a perfeição do deus-criador. 

O livro de Wright caiu no esquecimento, até que um cientista francês casado com uma americana e morando na Filadélfia o redescobriu quase um século depois e o publicou às suas próprias custas. Ele dedicou o livro ao “povo americano”, sentindo que precisava urgentemente de um lembrete de que “conhecimento é poder” e que “em nossa república, como o poder é confiado ao cuidado do povo, é necessário que eles devem ser informados corretamente sobre os pontos vitais, para que possam evitar erros vitais.”

Wright descreve este desenho como “uma representação da convexidade … de toda a criação, como uma coalizão universal de todas as estrelas conspiradas em torno de um centro geral, e como todas governadas por uma e mesma lei”.

Um corte transversal da convexidade da criação proposta por Wright, “com o olho da Providência sentado no centro, como no agente virtual da criação”.

Uma seção tridimensional dos infinitos aninhados.

Surpreendentemente, o livro foi republicado sem as ilustrações incríveis – e talvez como uma tática de marketing, pois a introdução da editora prometia uma próxima tiragem separada contendo apenas os lindos desenhos. Nenhum registro de tal publicação sobreviveu, mas os desenhos desse post foram retirados da antiga edição original de Thomas Wright de 1750.

WRIGHT E OS EXOPLANETAS

Em seu livro, Wright também apresenta um ótimo argumento para a existência de outros planetas orbitando outras estrelas – uma noção avançada por Pitágoras milênios antes, mas ainda radical em sua época, agora comprovada pela missão pioneira da NASA nomeada Kepler. mostrando que sim, nosso céu está cheio de bilhões de planetas ocultos – fora do sistema solar são mais de 2.600 descobertas (existem mais planetas até do que estrelas), constantemente descobertos por astrônomos ao redor do mundo. Wright acrescenta:

Apenas a partir de certas observações, devemos formar todas as nossas noções [do universo], se esperamos chegar à verdade ou esperamos que nossas ideias sejam apoiadas pela razão.

Ilustrando ainda mais sua teoria das perfeições aninhadas, Wright descreve isso como “uma criação de construção dupla, onde uma ordem superior de corpos C, pode ser imaginada como circunscrita pelo anterior A, possuindo uma sede mais eminente, e mais perto da presença suprema e, conseqüentemente, de natureza mais perfeita”.

Nosso Sol (superior e inferior) e Lua (meio) em proporção aos seus diâmetros, ao lado de dois cometas.

Vários cometas principais em proporção à Terra, A.

Sistemas solares diferentes do nosso (A), com caminhos planetários hipotéticos de corpos orbitando outras estrelas.

Quase 150 anos após a morte de Thomas Wright, o telescópio Hubble e a NASA provariam que sim, ele estava certo.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no FTCMAG.



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