A tecnologia e a pandemia tem trazido diversas questões quando falamos em ressignificar as coisas: casa, trabalho, descanso, relações sociais, prazer, moda, e até o transporte. Se locomover faz parte do ser humano, independente do modo, seja ao usar transporte público, a pé, bicicleta. E a Ford desafiou os alunos da Parsons School of Design, em Nova York, a estudar as tendências da mobilidade urbana, ao abordar questões de locomoção e espaços urbanos.

Projetado por alunos do programa de pós-graduação em Design Transdisciplinar da Parsons, as “intervenções especulativas de design” foram desenvolvidas em uma aula com a experiência de representantes da Ford, bem como palestrantes da ARUP e dos futuristas Garry Golden e Stephan Sigrist. Os insights foram publicados no relatório Mobility Speculations e hoje o FTCMag traz um resumo deste estudo. Veja algumas estratégias que poderiam ser adotadas:

Imagined Bus, uma das proposta para um projeto de ônibus traria serviços a bordo que chamam a atenção para vários desafios sociais. Essa é uma das intervenções de design especulativos desenvolvidas por estudantes da Parsons como parte da Mobility Speculations, uma parceria de projeto com a Ford Motor Company

1 –  INTERZONAS

E se pudéssemos reduzir a quantidade de tempo gasto com engarrafamentos mudando o próprio tempo?

Pense na seguinte cena: pandemia, segundo semestre, estamos perto de mais um final de ano, e as pessoas não aguentam mais o cenário atual. Começam então a traçar planos com o intuito de cumprir aquilo que se propuseram no Revéillon como aprender uma nova língua, construir uma casa, comprar um carro, e tantos outras vontades que nem sempre conseguimos cumprir.

Se formos falar da escassez na produção que estamos tendo nesta crise, podemos dizer que a economia dos seminovos tem se valorizado muito. No caso de carros, até mais do que os 0 km. Os Ford seminovos por exemplo, estão em um bom momento. No entanto é preciso considerar que estamos falando das marcas que são líderes em seus segmentos e de versões que estão entre as preferidas do público. Porém, com mais carros na rua, mais tráfego nas cidades, certo? Não necessariamente.

É preciso equilibrar os pontos e pensar em todas as perspectivas. Assim surgiu esta proposta. Os designers Andrea Karina Burgueño, Ricardo Dutra e Stephanie Lukito propõem fusos horários escalonados na cidade de Nova York para alterar o padrão de congestionamento, eliminando a hora do rush. Isso poderia ser alcançado dividindo a cidade em três fusos horários diferentes, chamados Interzones.

De acordo com o plano, a Interzone 2 (IZ2) é o fuso horário padrão. A Interzone 1 é duas horas antes da IZ2. A Interzone 3, duas horas após a IZ2. Horários de trabalho regulares das 9h às 17h seriam escalonados ao longo do dia para mitigar o congestionamento. “Apesar de seu impasse, as cidades são máquinas bem lubrificadas que têm uma tremenda infraestrutura para governar como as pessoas se movem através de uma cidade”, diz a proposta. “A Interzone se basearia nas estruturas existentes, como a atualização dos regulamentos de estacionamento e dos padrões de táxi.”

Dessa maneira, a concentração de pessoas e carros se deslocando ao mesmo tempo diminuiria e, consequentemente, os congestionamentos e a lotação no transporte público. A ideia é ter pessoas indo e voltando do trabalho em momentos diferentes, dividindo o tráfego em três grupos.

As interzonas seriam separadas uma hora uma da outra. Inferior: Como seria uma família operando em três fusos horários.
Andrea Karina Burgueño, Ricardo Dutra, Stephanie Lukito

Na prática o home office e o trabalho híbrido contribuiriam muito com essa mudança já que no pós-pandemia temos visto uma revolução nas relações de trabalho e essa mobilidade permite que a cidade não tenha fluxos tão determinados como o “bairro centro” pela manhã, as “cidades dormitório” como temos hoje e a tendência de concentração. Pesquisam apontam que um plano eficiente de mobilidade pode diminuir significativamente o trânsito.

2 – BLUE CHALLENGE

Transformar o estressante trânsito urbano em um jogo e promover o envolvimento da comunidade

Como estamos na era da gameficação, os designers Isabella Brandalise, Laura Dusi, Aya Jaffar imaginaram se os usuários de transporte deixassem de ser vistos como uma multidão de pessoas para serem vistos como pequenos grupos, que competem entre si para ver quem faz o melhor uso do espaço urbano. Um jogo, batizado de Blue Challenge, é um sistema de recompensa que usa pontos como moeda. As pessoas ganham pontos dependendo dos modos de transporte usados e das distâncias percorridas. Há também missões especiais e minijogos propostos durante viagens de transporte coletivo para maiores benefícios.

Controlado pela cidade via apps e sensores, o projeto incentivaria a mudança nos transportes coletivos, e tem como objetivo, fazer com que todos pensem coletivamente, diminuir a pressão sobre os recursos urbanos e naturais. A compensação traria benefícios que iriam da permissão para usar vagas de estacionamento de graça a descontos em serviços públicos e coletivos.

O “Blue Challenge” torna a experiência de deslocamento um jogo, concedendo mais pontos àqueles que viajam a pé ou de transporte público. Isabella Brandalise, Laura Dusi, Aya Jaffar

3 – ÔNIBUS REIMAGINADO

Que tal transformar o transporte público em uma experiência positiva, facilitando novos tipos de interação humana? 

O chamado “Ônibus Imaginado” (Imagined Bus) criado pelos designers Janson Chang, Gui Curi e Cameron Hanson repensa a experiência do ônibus, que levam seus passageiros para onde estão indo, ao mesmo tempo em que abordam questões sociais como estresse e assédio sexual. Uma das ideia seria, por exemplo, encaixar cada passageiro em uma “cúpula de privação sensorial” – para ajudá-lo a relaxar. Equipado com “nuvens” individuais, poderia fornecer um refúgio para passageiros atormentados.

Um segundo ônibus visaria reduzir o assédio sexual. Chamado de Bubble Bus, todos seriam obrigados a usar coletes plásticos que estouram alto se alguém estivesse sendo tocado.

O ônibus “Marketplace” conecta compradores e vendedores por meio de um aplicativo no ônibus. Janson Chang, Gui Curi, Cameron Hanson

Uma terceira versão transforma o ônibus em um mercado, conectando vendedores e compradores por meio de um aplicativo no ônibus. 

4 – ELIMINAÇÃO DE RESÍDUOS

E se os serviços públicos se tornassem hiperlocalizados? 

Por último, este sistema coloca a responsabilidade pela eliminação de resíduos em entidades hiperlocais, reduzindo assim as tensões na infraestrutura da cidade e promovendo um comportamento responsável em relação à criação de resíduos. O plano inclui canos de lixo que transportam resíduos entre edifícios, ônibus que usam composto como moeda e vagões de metrô que incineram lixo para gerar energia.

O projeto se dividiria em três ideias. Resíduos não seriam mais transportados por veículos automotores, mas por vácuo ou algo parecido. A segunda ideia seria instalar receptores de lixo orgânico já “compostado” nos ônibus. Ao entrar nos veículos, as pessoas deixariam ali o seu lixo e ainda receberiam como contrapartida um desconto no valor da passagem. Mais: se já houver tecnologia para isso, o lixo serviria de combustível para os próprios ônibus. A mesma lógica serviria para outra proposta: pessoas levariam o lixo até estações de tratamento localizadas em estações de metrô perto de casa.

Claro, muitas dessas ideias seriam desafiadoras de implementar. A ideia de Interzones, por exemplo, pode ser um difícil se pensarmos no agendamento dos jantares em família e reuniões de negócios. E fazer com que as pessoas abandonem completamente os carros não será uma tarefa fácil. A iniciativa demonstra o papel do design na busca de soluções para questões urgentes e no desafio do status quo. Esse é o ponto e essas ideias devem ser provocações para o pensamento, não soluções 100% definidas, finais e implementáveis. O que você achou? Conta para a gente!

Para mais informacões, acesse Bloomberg City Lab/ Revista Automotivo/ Parsons School of DesignDesign Indaba.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no FTCMAG.



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