Graças à mobilização de muitas crianças, a obra “O Diário de Myriam” foi traduzida para o português e já está disponível para venda

Fonte G1. Créditos: F. Thomas/Divulgação

Passeando pelo seu bairro ou no seu trajeto do trabalho até em casa, o que você encontra? Tem uma quitandinha perto de você, com um vendedor ou vendedora simpática, que sempre fala dos bons preços e da qualidade dos produtos? Existe uma praça na frente da sua casa onde crianças saem para brincar e famílias fazem pic-nic aos finais de semana? Ou um parque arborizado, com uma lagoa e muita grama ao redor, onde os cachorros se esfregam até ficarem cansados?

Com certeza você tem um restaurante favorito na sua cidade ou quem sabe uma sorveteria, onde você e seus amigos se reúnem para se refrescarem no calor, ou um barzinho para curtir à noite. Em todos esses lugares, há rostos familiares, que se tornam até banais na rotina do dia a dia.

Mas imagine se um dia você não pudesse mais ir a esses lugares. Se a padaria perto da sua casa ficasse tão destruída que você não fosse capaz de se lembrar como ela era antes. Se a quitandinha fechasse as portas sem previsão de volta e a sorveteria favorita, por ser um pouco mais longe da sua casa, tivesse se tornado um lugar tão perigoso que nem mesmo fosse possível pensar em chegar até lá.

Fonte: Revista Crescer. Crédito: F. Thomas/ Divulgação

Foi isso que aconteceu com Myriam Rawick, uma garota hoje com 13 anos e que viu tudo o que ela conhecia desaparecer quando a guerra chegou em sua cidade, em Alepo, na Síria. Além de ter presenciado o seu bairro se transformar de um lugar cheio de vida para um monte de escombros, Myriam ainda teve que lidar com situações como racionamento de água, energia e comida e enfrentar caminhos perigosos para não deixar de ir à escola.

Em meio às notícias frias e impessoais de uma guerra que já dura mais de 7 anos e que não tem perspectiva de acabar tão cedo, os escritos de uma criança podem parecer ingênuos, mas são cheios de sentimento e verdade. E foi por isso que Myriam, como sobrevivente de uma tragédia, recebeu um convite especial.

A garota já tinha o hábito de escrever em um caderno, incentivada por sua mãe, a respeito de seu dias e depois que conheceu o jornalista Philippe Lobjois, os dois começaram a pensar na possibilidade de publicar um livro contando o que a menina vivenciava. Assim, ela começou a escrever com a ajuda do jornalista em um diário sobre como era viver em meio ao caos de bombas e explosões.

O Diário de Myriam conta as percepções de sua autora, dos 6 aos 12 anos de idade, a respeito da guerra que tomou conta de seu país e mostra como ela tentava entender esse acontecimento que alterou totalmente a sua rotina e levou embora lugares e pessoas especiais, deixando muitas lembranças dolorosas.

Imagem: Amazon 

“Foguetes estão caindo o dia inteiro. Soa como se o barulho corresse pelas calçadas para subir no meu estômago”, diz um trecho do livro. Em outro, Myriam registra o desespero por ajuda. “Irmão Georges diz que hoje é o Dia Internacional dos Direitos das Crianças no mundo inteiro, mas que esqueceram de colocar Alepo na lista”.

Em 320 páginas, Myriam retrata os momentos difíceis que assim como ela, tantas outras crianças de Alepo vivenciaram. Mas a Síria nem sempre foi um país em guerra e a menina também registra isso. Seu livro começa com relatos de seus lugares favoritos, de suas visitas ao suque, um mercado tradicional e dos diversos cheiros e sabores que ela encontrava em sua cidade e que tanto lhe agradavam.

Animação: Dark Side Books

O DIÁRIO DE MYRIAM NO BRASIL

Sucesso de vendas na França, para onde Philippe Lobjois levou os escritos de Myriam, seu livro foi comparado por jornalistas ao histórico Diário de Anne Frank, escrito por uma garota judia que fugiu da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Agora, o Diário de Myriam também está disponível no Brasil. A tradução do livro para o português aconteceu graças ao pedido de muitas crianças brasileiras, que leram a respeito da obra no Joca, um jornal voltado para essa idade.

Criado em dezembro de 2011, o Joca é um jornal físico publicado pela Editora Magia de Ler e também um site online de notícias, escrito com uma linguagem voltada especialmente para jovens e crianças. Aborda temas atuais, que vão de política a esportes, e pretende sempre colocar as crianças em debates relevantes, despertando o pensamento crítico e ajudando-as a entender o mundo ao seu redor.

O jornalista Philippe Lobjois – Fonte: Cosmo Nerd

O Joca pode ser adquirido por assinantes físicos ou escolas, e foi justamente graças a uma professora da EMEF Prof Laerte José dos Santos, em Osasco, na grande São Paulo, que mostrou o site do Joca para seus alunos, que eles ficaram sabendo a respeito da situação na Síria e da história de Myriam.

Depois de lerem a notícia, o jornal recebeu mais de 200 cartas e mensagens dos alunos da EMEF Prof Laerte e de outras escolas também, que pediam a tradução do livro para o português. E foi isso que aconteceu. A equipe do jornal tomou esse pedido como uma meta e foi atrás de editoras interessadas em publicar a obra.

No final, A DarkSide, que  já estava com um projeto encaminhado, foi quem fez a tradução e publicação do Diário de Myriam no Brasil. As cartinhas das crianças foram usadas pela editora como ilustrações antes do texto do livro e eternizam a força dessa mobilização.

As crianças da escola de Osasco foram surpreendidas e receberam a visita do jornalista Lobjois, que contou a elas como foi conhecer Myriam e como eles trabalharam juntos para contar ao mundo o que o seu país vivia. Os alunos ganharam exemplares do livro de presente e até receberam uma mensagem enviada por Myriam especialmente para eles, que certamente jamais esquecerão dessa ligação entre eles e do poder que um livro tem de conectar pessoas.

Via. Agradecemos à equipe do jornal Joca pelas informações concedidas para esta matéria.

Mariana é jornalista e comunicadora. Adora descobrir novos lugares, explorar a cidade a pé e andar sem pressa. Se interessa por viagem, cultura e tudo o que é novidade. Escreve um blog sobre meio ambiente, sustentabilidade e consumo consciente. Também se dedica a cozinhar, como forma de prazer e arrisca novas receitas no tempo livre.

Mariana – já escreveu posts no Follow the Colours.


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