No tempo em que menino de calça curta, gomalina no cabelo e casaco de couro preto sonhava ter um cadillac rabo-de-peixe, o cinema Drive-In era programa pra lá de badalado.

A categoria, que tem um único “sobrevivente” na América Latina, o Cine Drive-in de Brasília, corria até o mês passado o sério risco de extinção. O espaço seria demolido por conta das reformas do autódromo Nelson Piquet, sede da Fórmula Indy no Brasil.

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(Foto: Bruno Coutinho/Flickr)

Graças a um abaixo-assinado criado pelo arquiteto Cristiano Sousa e um grupo de urbanistas na plataforma Change.org, o cinema não está mais em perigo de extinção. Em um mês e meio, mais de 18 mil assinaturas garantiram a preservação desse pedacinho de história do país.

A polêmica, aliás, serviu de inspiração para dois filmes lançados esse ano no Festival de Cinema de Brasília: o longa-metragem de Iberê Carvalho, O Último Cine Drive- In; e o curta Cine Drive-In – Cinema Sob o Céu, de Cláudio Moraes.

Inaugurado em agosto de 1973, o espaço possui 15 mil metros quadrados de área asfaltada, capaz de acomodar até 500 veículos em seu estacionamento. A tela de concreto mede 312 metros quadrados e uma torre de som, com uma estação de rádio FM, garante a transmissão da gravação do filme em estéreo pelos rádios dos carros. O Cine Drive-In conta ainda com garçons e cardápio de bebidas e comidas – para solicitar algo, basta piscar o farolete.

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Na era da tela IMax com som surround, o drive-in certamente é um refúgio, não só para namorados fissurados, como se imagina. Transcrevo a seguir um parágrafo do brilhante texto publicado por Augusto Nunes em seu blog na Veja: “O drive-in é o éden dos gordinhos, que podem se espalhar sem culpa pelas poltronas do carro. É a solução para fumantes, que simplesmente abrem as janelas para baforar ao relento. É o sossego das velhinhas, especialistas em comentar cada cena do filme oitavas acima do que convém nas salas tradicionais. É a redenção dos despojados, que podem aparecer de pantufas e pijamas. É a Arcádia dos modernos aflitinhos, que podem se pendurar à vontade nos seus inúmeros celulares. E é, sobretudo, o ninho das urgências de todos os apaixonados ─ oficiais ou não”.

Enfim, longa vida ao Cine Drive-In (e quem sabe a novos espaços como esse por aí)!

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* Em tempo, o primeiro Drive-in foi inaugurado por Richard Hollingshead em 1933 com a comédia britânica “Wives Beware”. Richard só teve essa ideia após a sua mãe, uma senhora acima do peso, reclamar dos assentos pequenos dos palaces, como eram chamados os cinemas daquela época. Então, ele amarrou lençóis nas árvores do seu quintal e ligou um projetor em cima do seu carro. Após anos de estudos, conseguiu chegar a um modelo perfeito e patenteou a ideia, abrindo o primeiro drive-in em New Jersey.

Paulo Moura é jornalista, sócio-diretor da Agência VIRTA e autor do blog Mosca Branca. Além do FTC, também escreve sobre inovação e criatividade para o Hypeness.

Paulo Moura – já escreveu posts no FTCMAG.



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