Artistas habitam o mesmo mundo que todas as outras pessoas que se dizem sem criatividade, e mesmo assim, muita gente continua a acreditar que a criatividade é algo inerente aos artistas. É fato que quem trabalha com criatividade experimenta o mundo de forma diferente. Um pintor de quadros, por exemplo, pode ficar encantado com a cor de uma sombra projetada por um prédio sobre o outro ou maravilhar-se com as as formas de uma folha de um dente-de-leão e assim ter uma ideia rapidamente para um projeto.

Muita gente também acredita que ser criativo é somente escrever um romance premiado ou fazer um filme para o festival de Cannes ou o Oscar. Se formos realmente seguir este padrão, praticamente ninguém pode ser criativo e a criatividade permanece realmente como uma anomalia e será algo para poucos, totalmente desconectada da vida comum.

Aos olhos de um artista, as visões aparentemente cotidianas e mundanas podem ser super atraentes, por exemplo, um lindo pico de montanha cheio de neve. É importante deixar claro que todas as pessoas possuem o potencial para se inspirar com as coisas ao redor; as formas de zig zag do padrão chevron do seu vestido podem encontrar um lugar em sua pintura abstrata, enquanto as cores da sombra do carro na garagem podem aparecer como camadas mais escuras na tinta.

Os artistas vêem o mundo e o seu redor como matéria-prima e podem transformar o que viram em seu dia a dia em obras de arte e referências para o seu trabalho: eles treinaram o olhar para perceber coisas que os outros ignoram. No entanto, enxergar o mundo como um artista é uma habilidade que qualquer um pode desenvolver.

Pensando nisso, traduzimos estes exercícios simples criados pelo site Artsy para te ajudar a desenvolver uma maneira única de olhar o mundo. Confira:

1 – Olhe ao seu redor com a curiosidade de uma criança

Se você tivesse que nomear os objetos da foto acima, flores, bananas e maçãs, provavelmente estariam no topo da sua lista. Isso ocorre porque identificar e nomear as coisas que conhecemos satisfaz nosso desejo de dar sentido a um ambiente. Ao observar uma cena ou imagem, tendemos a olhar, rotular e mover nossos olhos de um objeto para outro.

Quando vemos algo que não conseguimos identificar, no entanto, analisamos isso de uma maneira totalmente diferente. Estudamos sua cor, forma, textura e tamanho com a mesma curiosidade que temos quando crianças, quando descobrimos os objetos pela primeira vez. É assim que muitos artistas se esforçam para ver – para evitar a rotulagem que está no caminho da percepção mais fácil. Agora, olhe a foto novamente e tente descrever os objetos sem usar seus nomes.

Ser criativo é aprender a ver como elementos aparentemente improváveis podem se encaixar em um novo arranjo.

2 – Aproxime-se das variações de cores

Abra bem os olhos e deixe os vagar pela imagem. Agora, examine o agrupamento de objetos redondos semelhantes e identifique quantas variações de cores você puder. Você verá que alguns desses objetos são predominantemente vermelhos com um pouco de amarelo; alguns são amarelos com listras de vermelho; e outros possuem vários tons de laranja.

Observe o traço marcante de luz em um dos objetos e descubra onde ele é repetido em outros objetos. Os artistas usam essas repetições de cor e valores para criar unidade e harmonia em uma composição e para conduzir o olhar do espectador de uma forma semelhante para outra. Você percebe outros exemplos de repetição de cores nesta composição?

Agora, faça com uma das mãos tipo um binóculo fechando os dedos no polegar e olhe para os objetos isolados através deste buraco. Isolar uma única cor facilita a visualização, principalmente se você estiver pintando, isso ajuda na mistura de tons em sua paleta.

Juntamente com as variações de cor, procure variações na forma. Entre os objetos redondos, você verá que alguns aparecem mais ovais com extremidades embotadas, enquanto outros são mais curvos ou têm elementos lineares salientes. Tome nota das formas que tornam cada objeto único.

Criatividade significa perceber uma oportunidade de melhorar as coisas através de uma nova adaptação ou combinação.

3 – Force os olhos e imagine os objetos juntos

Em seguida, mude seu foco e aperte os olhos para a imagem inteira. Forçar a visão minimiza a cor, os detalhes e as distinções entre os objetos, permitindo que uma cena complexa se torne uma composição simples de forma e cor. Na prática, isso ajuda um pintor, por exemplo, a descobrir como representar uma floresta cheia de árvores, sem pintar cada árvore. Em vez disso, ele pode pintar uma única massa de cor para depois sugerir muitas individuais.

Nesse caso, apertar os olhos mostrará que os objetos redondos se juntam para formar uma forma triangular de vermelhos, laranjas e amarelos. Objetos longos e amarelos se combinam em um bloco horizontal atrás do triângulo, e pairando acima deles há um arco arejado de formas pequenas, pontiagudas, amarelas e alaranjadas sobre um leque de verde. Algumas das formas pontiagudas podem ser unidas ao serem forçadas com a vista, enquanto outras permanecem firmemente separadas.

Você pode decidir se as duas formas retangulares vão ser vistas como uma massa única com uma forma escura no meio. Um artista que os visse dessa forma os tornaria com uma abordagem diferente de quem os vê como duas formas colocadas juntas.

A pessoa criativa é aquela particularmente comprometida com a ideia de que deve haver um jeito melhor de fazer as coisas.

4 – Procure pelos espaços negativos

O espaço em torno das coisas é tão importante para os artistas quanto os próprios objetos em si; eles estudam o “espaço negativo” com grande atenção. Variar o tamanho e a forma dos espaços negativos pode trazer interesse para uma área relativamente homogênea de uma pintura; adicionar esse espaço pode criar equilíbrio ou tensão, ou até mudar a sensação que uma obra de arte transmite.

Nesta foto, a configuração foi alterada para criar espaços negativos maiores na tigela e entre os cilindros. Tome nota de como isso afeta sua percepção da composição. Enquanto os objetos justos e sobrepostos na montagem original transmitem abundância, ao introduzir um espaço negativo, isso faz com que pareça sutilmente mais formal e rígido.

5 – Estude os efeitos dos ângulos e linhas

Como exercício final, pare de pensar no conjunto como uma coleção de objetos e veja-o como um arranjo de ângulos e linhas que movem seu olho pela composição. Os artistas manipulam essas forças dinâmicas para criar uma experiência de visualização precisa para seu público.

Na foto original, o ângulo íngreme do livro leva nossos olhos rapidamente da parte inferior da armação até a borda da tigela. Isso nos faz olhar para cima e através da curva das flores. Finalmente, nossos olhos se movem para baixo, seguindo a linha das bananas na tigela. É uma jornada visual satisfatória na qual cada ângulo e linha leva naturalmente a outro e nenhum objeto importante é omitido.

Mas e com o efeito ao mudar um ângulo (o livro) e adicionar uma linha curva (a banana)? Agora, nossos olhos entram pela esquerda e param abruptamente contra a tigela. Depois de uma pausa, nossos olhos atravessam a borda e percorrem um caminho oval criado por banana, folhas e agitador. Nós terminamos na tigela, pulando as flores completamente. Nossa experiência de visualização foi transformada.

Se você praticar esses exercícios com freqüência em sua vida e com tudo ao seu redor, sua percepção se tornará cada vez mais sutil. Pode treinar o seu olhar com fotografias, desenhos, cinema, ilustração, etc. Você começará a ver o mundo com os outros olhos e revelará um outro tipo de beleza, interesse e variedade em seu trabalho.

Muito trabalho – pago ou não – é mais criativo do que normalmente supomos: quando pintamos o banheiro e escolhemos uma cor mais agradável que vimos em um livro sobre casas na Índia, quando preparamos uma refeição e colocamos os aspargos em uma travessa do jeito que vimos em um filme, quando introduzimos um conjunto de ícones em um relatório para que os pontos principais apareçam mais claramente, quando colocamos no parapeito da janela um vaso de gerânios que encontramos na loja de paisagismo para deixar o ambiente mais alegre, ou quando apresentamos dois amigos um ao outro porque percebemos que, apesar de algumas diferenças notáveis, eles se darão bem. Em todo caso, somos criativos porque notamos uma oportunidade de fazer uma melhoria e aumentar nosso prazer na vida através de um ato de reorganização e combinação. – Por que a Criatividade é Importante Demais para ser “Coisa de Artista” (Texto The School of Life Brasil)

Curtiu? Aqui, veja 4 dicas simples do dia a dia para dar um impulso na criatividade. E aqui, a matéria que mostra que copiar a arte de outras pessoas pode te deixar mais criativo! Será?

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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