O fotógrafo brasileiro Rodrigo Simas, que excursiona pelo mundo clicando artistas, nos conta como é viajar clicando suas bandas favoritas

Ser fã de um artista e trabalhar com ele é um sonho para muitas pessoas. E o carioca Rodrigo Simas realizou esse objetivo. Designer de formação, ele se dedica à fotografia profissional há pelo menos 12 anos, trabalhando especialmente com música, excursionando pelo mundo e fazendo exposições.

Autodidata, ele começou a fotografar em 2008, sem focar muito em técnicas e pensando essa atividade como mais uma vertente que poderia oferecer como serviços de profissional freelancer.

“Eu sempre fotografei como hobby mas nunca levei a sério. Como designer, tinha uma relação com a imagem e fazia algumas fotos em alguns eventos das bandas que produzia. E com isso fui aos poucos aguçando o olhar”, conta ele.

Na época, Rodrigo Simas trabalhava fazendo serviços de redes sociais da Dave Matthews Band, grupo do qual era e é muito fã. Em 2010, a banda incluiu o Brasil em sua nova turnê latina e passaria pela América do Sul sem fotógrafo.

“Eu disse ‘olha, eu vou estar nos shows e posso fotografar’. E foi a primeira grande turnê que eu fiz, assim meio no susto. Eles gostaram e partir dali já comecei a ir para o exterior todos os anos para acompanhar eles para alguns shows. Em 2016, começamos a fazer turnês inteiras juntos”, explica Rodrigo.

Desde então, já fotografou em eventos como Bonnaroo, Rock in Rio, Monsters Of Rock e o ProgPower Atlanta e já pegou a estrada com Ben Harper, Epica e Blind Guardian. Além de diversas publicações, tem fotos usadas em encartes, artes e capas de CDs, incluindo discos da Dave Matthews Band, do vocalista Ed Kowalczyk (Live), Hamilton de Holanda e artes para Ben Harper. Simas participou de exposições fotográficas com ícones do gênero como Danny Clinch e Rene Huemer, em Charlottesville e em Seattle, nos Estados Unidos, e fez uma individual em Lisboa.

“Quando comecei a ir muito pro exterior, via o trabalho de outros fotógrafos e comecei a me esforçar para melhorar para chegar naquele nível. Afinal, tinha que convencer o pessoal a me tirar do Brasil e me levar pra fotografar quando tinham profissionais perto”, se diverte.

Conversamos com Rodrigo para saber um pouco mais sobre suas inspirações. No bate-papo tem até dicas para quem quer se lançar neste mercado. Confira!

ENTREVISTA COM RODRIGO SIMAS

FTC: Como você iniciou sua jornada na fotografia?

Iniciei fotografando eventos de bandas que eu produzia, lá por 2004-2005. Em 2010, a Dave Matthews Band veio para a América do Sul sem fotógrafos e eu perguntei se poderia (tentar) fazer o trabalho. Eles gostaram. A partir dali comecei a trabalhar profissional.

FTC: Você vê alguma relação entre seus trabalhos no design e na fotografia? Como eles se complementam?

Totalmente. Como eu aprendi a fotografar na marra, sozinho e já no palco de uma das maiores bandas americanas, eu pulei toda a parte teórica e fui logo pra prática. Até hoje eu sei bem pouco da parte teórica da fotografia em si. Coisas básicas eu ainda não sei. Mas eu trabalho muito bem na pós produção das imagens e essa parte eu domino. E isso vem 100% do design gráfico e da minha experiência trabalhando por anos no ramo.

FTC: Você tem viajado para vários países para clicar artistas que admira. Como foi entrar nesse mercado disputado?

As coisas foram acontecendo e quando vi já estava inserido. O difícil é se manter no ramo, principalmente lá fora que o nível é muito alto.

FTC: Quais os desafios para se manter nessa profissão?

Saber como divulgar seu trabalho, estar sempre aprimorando seu equipamento, melhorando como profissional e mantendo e ampliando sua rede de contatos.

FTC: Desde que começou até agora, como você vê sua evolução? E a profissão e o mercado em si, como eles têm mudado?

Muito. Eu tive um “salto” de qualidade + ou – em 2013 e depois outro em 2018. Isso é fácil perceber pelas imagens. A profissão, aqui no Brasil, para fotógrafos de shows/eventos em si é bem fechada e tem uma galera que já domina há anos o mercado – com mérito, diga-se de passagem – e é bem difícil furar esse “bloqueio”. Tenho conseguido aos poucos me infiltrar, mas é trabalho de formiguinha. Lá fora a concorrência é maior, mas o mercado é mmmmmuito maior também, então você tem mais oportunidades. Outro diferencial é que lá eles dão bem mais valor pelo trabalho, pagam melhor e te tratam com bem mais respeito.

FTC: Durante um show tem mil coisas acontecendo, e você é um só! Quais são os seus focos para não perder nada e garantir um registro o mais completo possível?

Varia de artista pra artista. Mas você tem que se preocupar em capturar a energia do local também e não só “o artista”. A casa de show, o público, a troca que existe… eu geralmente foco em captar as emoções, um olhar, um sorriso, mais do que a luz ou o enquadramento perfeitos.

FTC: Como funciona a contratação – você se candidata a uma vaga ou projeto específico ou as bandas entram em contato com você por já terem visto suas fotos?

Também varia de artista pra artista. Eu tive e tenho sorte com a Dave Matthews Band porque eles fazem turnês anuais, então sempre tem trabalho e já funciona automático. E já perdi trabalhos por causa da DMB. Ano passado, por exemplo, ia viajar com eles pra fazer Brasil e México (na época do Rock in Rio, que fotografei com eles) e umas duas semanas antes me chega um e-mail do baterista do Anthrax querendo que eu fotografasse os shows deles por aqui, mas eu tive que dizer não. Mas corro atrás também… e já tive que entrar em contato com várias bandas oferecendo meus trabalhos.

FTC: As pessoas costumam associar turnês internacionais a glamour. Pode compartilhar também alguns perrengues que você já passou na estrada?

A DMB realmente viaja em alto nível. Com eles os maiores perrengues é acabar um show e sair correndo pegar o ônibus, sem tomar banho, todo suado, pra ir pra outra cidade porque os ônibus não pode esperar (já que estão com escolta policial). Então você sai do palco, entra no ônibus direto e vai pra próxima cidade. Se o show é no dia seguinte, a gente vai direto pra casa de shows, não para em hotel, então você só vai tomar um banho na manhã seguinte. Se acontece isso durante alguns dias seguidos, é cansativo.

FTC: Que conselho você daria para quem tem o mesmo sonho?

Acreditar no trabalho e fotografar o máximo que puder pra ganhar experiência e o “olhar” necessário. Hoje vejo que o grande diferencial é o olhar, já que a parte técnica “qualquer um” pode aprender se meter a cara. O “olhar” não se ensina. Se tem ou se ganha com a prática.

Confira mais fotos de Rodrigo Simas em seu site e Facebook.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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