Fazia tempo que as imagens femininas e botânicas de Maya Soletti apareciam como sugestão para seguir no Instagram. Amigas curtiam e dia sim dia não, o algoritmo resolvia sempre me lembrar que seu trabalho merecia ser acompanhado mais de perto. Foi quando resolvi segui-la de vez. Maya então disponibilizou um de seus desenhos gratuitamente como wallpaper para smartphone. A ilustração ficou sendo capa do meu celular por meses, mas até então eu nunca havia conversado com ela.

O feed continuou rolando, o trabalho de Maya cada vez mais bonito, e eu cada vez mais interessada pelo seu modo de retratar mulheres e a botânica. Foi quando decidi fazer uma visitinha ao seu estúdio privado em SP e acabei ganhando várias surpresas em um dia só. Marcamos um horário e a tímida Maya, que insiste em deixar claro que é uma aprendiz (ah, se toda aprendiz fosse assim!), me recebeu com um largo sorriso em seu espaço. Parece que naquele dia, a tatuagem foi apenas um pretexto do universo para nos conhecermos.

Maya é uma profissional que a gente se apaixona assim fácil: pelo seu estilo simples e ousado de arte ao mesmo tempo, seja na tatuagem, na ilustração, seja pela sua pessoa. Ela mesmo nem imagina onde pode chegar com tanto talento, humildade e força de vontade. Ter sua arte registrada e o processo de sua caminhada guardado na pele é privilégio.

Maya me contou um pouco do seu caminho, que estudou Farmácia, como chegou até São Paulo, os temas abordados em seu trabalho hoje, e como tem transformado personagens femininas, flores e folhas, através de tattoos blackwork em memórias sensíveis e eternas. E te digo mais: ela está apenas começando! Confira a entrevista exclusiva que fizemos com Maya Soletti, também conhecida como Folhas da Maya!

ENTREVISTA COM FOLHAS DA MAYA – MAYA SOLETTI 

 

FTC: COMO FOI PARAR NA TATUAGEM?

Sempre me interessei por desenho e ilustração, mas só comecei a desenhar efetivamente em 2011. De lá pra cá fui encontrando meu traço, meu estilo. Como sou casada com um tatuador, tinha acesso aos materiais e ao aprendizado em si, então trazer meus desenhos para a tatuagem acabou acontecendo meio naturalmente, também em função do próprio estilo do meu trabalho.

Acabei entrando na tattoo da maneira que me sentia mais confortável, tatuando apenas desenhos autorais, mais simples, que me sinto confortável em fazer enquanto evoluo na técnica em si.

FTC: COMO VOCÊ DEFINE A SUA ARTE HOJE?

Difícil definir uma coisa tão íntima, mas tudo que desenho é muito verdadeiro pra mim. Não sou uma pessoa que transita por várias técnicas e estilos, meu desenho segue uma temática e um estilo que são naturais pra mim, que é o que eu sei fazer,  como consigo me expressar e o que me dá prazer em criar. Estou sempre buscando evoluir no traço, na anatomia, sem perder a identidade própria do meu trabalho.

FTC: QUAIS TEMAS CURTE ABORDAR NAS TATTOOS E ILUSTRAS?

Os temas que eu trabalho focam muito no feminino, figuras femininas e botânicas prioritariamente, flores, folhas, ramos. A inspiração eu realmente não sei definir, eu mesma em determinado momento me surpreendi com o caminho feminino e delicado que meu trabalho estava tomando pois não me via dessa maneira e não sabia de onde isso vinha, mas assumi que é isso que me vêm naturalmente e então é isso que tenho pra mostrar.

Acompanho outros artistas com temáticas parecidas na tatuagem, ilustração, artes plásticas, bordado e busco formas na própria natureza, apesar de não reproduzi-las literalmente.

FTC: QUAL FOI SUA 1ª TATUAGEM EM UM CLIENTE?

Minha primeira tatuagem em um cliente real, tirando amigos, familiares e eu mesma (hahaha), foi em uma cliente que entrou em contato comigo pelo Instagram após eu ter postado uma folha de flashes. Conversamos, expliquei pra ela que era super iniciante e perguntei se ela se sentia confortável com isso. Aí ela foi no estúdio, tatuamos, correu tudo bem.

FTC: CONTA MAIS SOBRE O P&B, O VAZIO DAS CORES.

A estética do preto e branco veio naturalmente, era o que me atraia visualmente e o que tinha vontade de fazer quando comecei a desenhar, então segui esse caminho meio intuitivamente e acabei me encontrando no nanquim e bico de pena. Sempre foi meu material favorito, experimentei algumas outras coisas mas ainda não me encantei tanto com nada.

Gosto de usar outras superfícies, outras plataformas, mas por enquanto usando a mesma estética. Quando trabalho digitalmente brinco um pouco mais com as cores, mas são fases. Em algum período tenho vontade de usar determinada paleta de cores, aí uso, mas sempre volto pro P&B. O contraste do preto chapado no branco ou na própria pele me agrada demais e segue forte no meu trabalho.

FTC: SEU PROCESSO CRIATIVO NO DIA A DIA?

Eu acho que sentar, se concentrar e desenhar, se sentindo inspirada ou não, é o que faz o trabalho acontecer efetivamente. Eu tento me manter concentrada, hoje em dia temos acesso a tanto a artistas que tenho tentado seguir o caminho inverso e buscar meu trabalho mais internamente e menos externamente.

FTC: O QUE TEM LIDO, OUVIDO, ARTISTAS PREFERIDOS DO MOMENTO?

Essa pergunta pra mim é super difícil, hahaha. Como já disse antes, com o Instagram principalmente são TANTOS artistas, de tantas áreas,  nem consigo nomear. O que eu tento fazer é  acompanhar também trabalhos bem diferentes do meu, não só os que têm a mesma linguagem, em áreas diversas.

Eu tento conciliar principalmente a leitura com o trabalho, tento ler coisas que não sejam relacionadas à tatuagem, ilustração, etc. Minha última leitura foi a biografia da Ingrid Betancourt e tenho ouvido muito vozes femininas, principalmente pra desenhar: Erykah Badu, Lauryn Hill, Jill Scott, Lady.

FTC: E AGORA, O QUE VEM PELA FRENTE?

Eu estou focada em evoluir a técnica da tattoo e assim poder tatuar uma gama maior de desenhos, dentro do meu trabalho. Continuo desenhando, tentando também evoluir no desenho, estudando anatomia. Gosto muito de trabalhar como ilustradora, além de tatuar, e tenho explorado outras superfícies como porcelana e cerâmica também. É uma coisa que estava planejando há algum tempo, que tenho gostado do processo e do resultado!

 

Acompanhe o trabalho de Maya Soletti (Folhas da Maya) no Instagram!

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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