Antes de começar a tatuar, Isadora Reimão sempre ilustrou e trabalhou com esculturas e máscaras. O surreal e o fantástico sempre estiveram presentes em sua vida de alguma forma.

Apesar disso, ela não só transmite essa temática na tatuagem, pois o trabalho de tatuadora a coloca bastante flexível e receptiva às ideias das pessoas que a procuram. “Considero a minha ‘casa’ esse lugar de sonho, onde as coisas absurdas são muito naturais. Na verdade eu acho mesmo que o ‘natural’ é bem absurdo.”

E complementa: “Gosto de carregar a abertura para o fantástico assim como um bebê que chega ao mundo e não tem outra reação a não ser se divertir tanto se os seus pais chegam brincando de fazer careta quanto se resolvem sair flutuando pelo ar. A gente não chega ao planeta com esses limites bem definidos do que é possível e o que não é. Por que em algum momento a gente solidifica isso?”

Isadora pega a si mesma com esse sentimento esquisito de completo espanto misturado com aceitação sem interrogações sobre histórias em que alguém nasce de uma flor de lótus ou de dentro da barriga de uma mulher porque ela se deitou com alguém. “Tudo me parece tão inacreditável quanto normal na mesma medida. Deixo tudo em aberto”, diz a artista.

Ela acha também que muito da temática de seus desenhos vem de um amor incondicional aos seres. Sempre gostou de retratar os animais e seres imaginários, seus olhos, seus sentimentos, estados de espírito. “Acho que é uma forma de retratar a mim mesma, mas em um mundo diferente”. 

Conversamos com a artista para saber um pouco mais sobre as tatuagens e suas inspirações. Confira!

ENTREVISTA ISADORA REIMÃO

FTC: Há quanto tempo cria? 

Isadora Reimão: Desde muito pequena fui bastante incentivada por meus pais a criar. Meu pai também era artista plástico e não me ensinava propriamente “passo-a-passo” de como fazer as coisas, mas me mostrava que era possível criar o que a gente quisesse. Que os materiais estão aí disponíveis e podemos organizá-los da maneira como quisermos dar nascimento a eles.

Que os objetos e as substâncias não têm significado intrínseco, e que pra “existir” como alguma coisa dependem do olhar que você lança sobre elas. Então essa possibilidade sempre me pareceu muito disponível desde a infância. Mais do que ensinar uma técnica, ele me familiarizou com o processo de ver as coisas no mundo sutil das ideias e de como elas podem se tornar reais a partir de uma intenção.

FTC: Qual influência nos seus trabalhos? 

Os livros infantis que tive na infância foram muito importantes para a construção do meu estilo. Conhecer ilustradores como Guennady Spírin, Andrej Dugin e Olga Dugina, foram como encontrar uma “família”. Obras de outros artistas de fora das artes visuais, como da música ou literatura, também são portais que me ajudam a lembrar do que afinal é importante ser passado adiante. Cortázar, Mário de Andrade e Tom Jobim estão nessa lista.

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte? 

Acho que arte é toda a representação que resume histórias e ideias complexas através dos símbolos.

Essa palavra às vezes vem muito num pedestal, como algo que se vai encontrar em galerias, mas a que mais impacta a nossa mente é aquela do nosso convívio diário, aquela inserida na publicidade, nas músicas populares. Essas manifestações moldam a nossa cultura toda. São a nossa hipnose constante, que definem nossos valores sem a gente se dar conta. Por isso eu acho que se queremos mudar a nossa cultura e a nossa sociedade, o ponto chave são as artes.

A minha arte eu definiria como se fosse um banquinho debaixo de uma sombra com um convite pra fazer tudo mais devagar, apreciar as coisas pequenas, as brincadeiras, os seres vivos e os inventados.

FTC: Com o que você se inspira no dia a dia?  

Eu quase não tenho feito coisas apenas por inspiração própria nos últimos anos. Acho que tive a oportunidade de ter um período no qual pude desenvolver meu estilo e fazer coisas apenas porque tinha vontade. As máscaras, as ilustrações, a maior parte foram feitas por prazer, sem a finalidade de me sustentar, enquanto meu sustento vinha de outros trabalhos.

Ultimamente, depois que comecei a tatuar, coloquei tudo que aprendi a serviço das pessoas. Então tudo que tenho criado é para atender os desejos de quem me procura. A partir daqui tudo tem sido pura escuta.

Mas creio que o ponto que nos une é a sintonia com a natureza, com a calma e com a delicadeza. É incrível como essa comunicação feita sem palavras, apenas por signos traz pra perto de mim pessoas tão especiais. Sou realmente muito grata!

FTC: Uma frase que vc carrega para a vida

Esse trecho de uma prece tibetana: “Possa eu claramente perceber todas as experiências como tão insubstanciais quanto o tecido do sonho durante a noite, e imediatamente despertar para perceber a manifestação de sabedoria pura no surgir de cada fenômeno”

FTC: O que tem lido, ouvido, visto, quais são os artista preferidos no momento?

Nos últimos anos tenho ouvido muito Deva Premal, que não é musica não, é pura medicina! Quem se tatuou comigo provavelmente já ouviu também, hahahah! Sempre gosto de inundar o estúdio com a flauta de Manose. Um amigo até perguntou, “mas música normal você não tem ouvido mais não?” rs… Eu disse que não.

Tenho lido sobre o medo, sobre a morte, sobre compaixão. Alguns desses temas parecem um pouco sombrios, mas é como eu fortaleço a minha paz. Meu último foi “Smile at Fear”, de Chogyam Trungpa.

Tenho ouvido muito a voz tão preciosa da Tenzin Palmo, uma lama que passou 12 anos em uma caverna em retiro no Tibet é minha maior heroína.

Na tatuagem minhas principais referências são trabalho de tatuadores coreanos, que são os maiores do mundo, com aquela delicadeza, como a tatuadora Banul. Gosto muito também da Karolina Szimanska, da Rússia, uma verdadeira mestra. Dylan Kwok, do 1969 Tattoo, também é uma grande referência pra mim.

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Penso em continuar tatuando e conseguir um tempinho pra retornar um pouco às esculturas e aquarelas, ainda não sei bem de que forma. Talvez reunindo pessoas interessadas pra fazer pequenas oficinas. Quando tiver novidades eu volto pra contar tudo!

Para conhecer mais sobre o lindo trabalho de Isadora Reimão, acesse seu site e acompanhe a artista no Instagram!

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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