“Na dúvida vá na padaria”. “Fiquei decepcionada mas a expectativa era toda minha”. “Foda-se fiz o meu melhor”. Quem diria que um dia, frases como essas virariam tatuagens? Nem Matheus Tomé acredita. Mas o artista atualmente faz bastante sucesso com seu estilo sincerão de escrever umas verdades e sentimentos na pele.

De Paulínia, interior de São Paulo, com apenas 22 anos atualmente, o artista mora na capital de SP com mais dois amigos também tatuadores. Matheus se formou em Artes Visuais na FAAL e conta ao FTC que começou a tatuar há uns 5 anos, tentando fazer desenhos convencionais. E apesar de gostar de tatuar, ficava insatisfeito e triste pensando muitas vezes em desistir.

Foi aí que há uns dois anos e meio, ele simplificou os seus desenhos, fugindo do realismo ou de qualquer outra forma de fácil aceitação das pessoas. Hoje ele define a sua arte como um diário aberto. “Um diário aberto de um menino comum, conto muito sobre mim e sobre o que acho das coisas”. E ainda confirma: “Acho que esse estilo de tatuagem mais simples ainda vai dar muito o que falar”. Não temos dúvida, Matheus!

Confira a nossa entrevista exclusiva com Matheus Tomé:

FTC: Como começou a formar esse estilo? 

Matheus Tomé: Já com desenhos com menos detalhes, comecei adicionando frases que o complementavam, em inglês mesmo. Isso foi evoluindo até que enjoei e dei um respiro fazendo uns quatro trabalhos abstratos. No começo de 2019 tive mais uma crise de que nada estava bom e se eu realmente deveria parar de tatuar, até que decidi postar um “o melhor after é ir pra casa dormir’’ e essa postagem desencadeou todas as outras. Percebi que ser sincero funcionou, as pessoas se identificam e gostam do meu ponto de vista, nada é inventado. Eu realmente acho, quero ou vivi aquilo que escrevo.

FTC: Tem alguma frase que você tatuou que é bem marcante até agora?

Matheus Tomé: A frase mais legal que já tatuei provavelmente foi a ‘’não sabia o que escrever mas queria ter algo escrito’’. Foi o ápice do foda-se – e confiança em mim. Tipo, quero uma frase sua e não sei o que quero escrever e pronto.

FTC: Tem alguma técnica artística que te inspira?

Matheus Tomé: Gosto muito do movimento De Stijl e do abstracionismo de forma geral, me encanta ver o equilíbrio das formas e como é dividido o peso, luz, massa, a harmonia e ao mesmo tempo isso sendo extravasado. Gosto muito de Basquiat, admiro muito sua forma de criar, composições, o equilíbrio dos desenhos com as letras.

Também adoro observar pixações, acho incrível a diversidade de fontes/tipos, como se apropriam dos muros e objetos e como utilizam do espaço urbano para mostrar que passaram por ali. Mas o abstracionismo com certeza é minha maior influência para isso, também não sei o porque, só sei que é! ahahaha

FTC: No dia a dia, como é seu processo criativo?

Matheus Thomé: No dia a dia, eu tento prestar atenção em tudo: nos diálogos alheios, propagandas, nas ruas e tudo mais que me rodeia. Tudo pode ser útil para que eu possa desenvolver pensamentos, questionamentos e possíveis conclusões para que eu escreva.

FTC: O que é arte para você? 

Matheus Thomé: Para mim, arte é o ato de fazer o que temos vontade, sem leis, sem regras, apenas o que queremos. É a forma mais sincera de demonstrarmos as coisas, seja com grandes conceitos e grandes pretensões ou simplesmente porque tivemos vontade de fazer e expressar um sentimento.

FTC: No Brasil esse estilo das ignorant style tattoos ainda são pouco difundidos. Pode falar sobre isso? 

Matheus Tomé: Historicamente, sem dúvidas será muito importante e lembrada, pois é algo totalmente novo, experimental e intuitivo. Estamos fazendo algo que busca mostrar a beleza interior, o que sentimos. Essa beleza está se tornando palpável/física e será algo esteticamente aceitável e relativamente bonito. Sentimento acima de técnica!

A cena de tatuagem autoral está incrível no Brasil, muitas particularidades, formas de ver o mundo e formas de encarar os problemas cotidianos.

“Acredito que isso só está no começo e que é apenas um caminho pra algo que ainda vai surgir daqui um tempo, por isso será tão importante. Acho que o ignorant style veio como um quebra-barreiras para desencadear novas opiniões e porque não novos estilos futuros?!”

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Matheus Tomé: Estou pesquisando mais sobre poesia concreta e abstracionismo. O próximo passo é tentar juntar isso em um só trabalho. De resto ainda não sei!

FTC: Como você se realiza hoje?

Matheus Tomé: Eu me realizo muito pela confiança que as pessoas depositam em mim para contar suas histórias. As pessoas que tatuam comigo muitas vezes não sentem vergonha de expor suas fraquezas e coragens. As pessoas também se tornam diários abertos delas mesmas.

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Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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