Artista visual e tatuador autoral há um ano, depois de deixar uma carreira de animador 2D, storyboarder e motiongrapher para trás, Pedro Rosa, também conhecido como Pink Peter, decidiu viver da própria arte. “Viver só da própria arte é difícil pra muita gente, fácil pra alguns, mas apesar do sangue e das lágrimas, é sempre recompensador o olhar das pessoas reagindo ao meu trabalho ao ouvir como elas se identificam e ressignificam as coisas que eu tiro de espaços escondidinhos da minha mente”.

O contador de histórias mudou há poucos meses também para Porto Alegre – RS, depois de mais de dez anos no pedaço do planeta em que ele mais gosta, São Paulo. “Eu tenho uma paixão pelas pequenas coincidências da vida, eu também gosto muito do silêncio das madrugadas em centros urbanos e de enxergar a vida como observador, mesmo que minha memória seja curta demais pra me lembrar de tudo isso depois. Desenhar e escrever, às vezes, me ajudam a registrar isso um pouco melhor que só na minha cabeça. Eu não gosto de me machucar com coisas que eu não queria fazer, dos meus momentos de ansiedade e de não conseguir me concentrar, o que acontece quase o tempo todo”.

A identidade de sua arte, nada mais é do ele sendo gentil consigo mesmo. Pedro reduziu as expectativas de técnicas avançadas de desenho que aprendeu durante anos no curso de audiovisual, pra entregar subjetividade, simplicidade e sentimento. “Tudo isso de uma forma que não me faça entrar em colapso tentando atingir o produto final perfeito ou pretensioso. Os caminhos brutos de se expressar são tão valiosos quanto os das técnicas elitistas”, diz o artista.

Conversamos com Pedro Rosa / Pink Peter para saber um pouco mais sobre suas inspirações. Confira entrevista exclusiva:

FTC: Há quanto tempo cria?

Pink Peter: Desde sempre. Eu me lembro de vender desenhos por dez centavos pra comprar doce na escola, antes da quinta série. Um dia eu vendi um desenho pra um senhor na rua e ele me deu 1 real, eu nem sabia o que fazer com tanto dinheiro. Com menos de dez anos eu escrevia revistas em quadrinhos misturando todos os mangás que eu gostava e durante o ensino médio eu varava madrugadas escrevendo histórias e desenhando os personagens dos mundos que eu criava baseados nos Rpgs que eu jogava.

Eu nunca parei de escrever histórias e trabalhei durante anos desenhando pra animação com o objetivo de ver essas histórias ganhando vida. Só quando eu entendi que não há tanto espaço pra individualidade no mercado que a parte autoral surgiu. E isso faz pouquinho mais de um ano, que eu tatuo e vivo só da minha arte. Eu nunca fiz nada tão recompensante quanto ver alguém se identificar com minhas vísceras em um papel couché.

FTC: Quais as influências nos seus trabalhos?

O que eu penso, o que eu sinto. Solidão, solitude. Lacunas, erros. Assimetria, devaneio. Coincidências, decisões. Fantasmas, medo. Enfim, essas coisas.

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte?

Difícil né, dizer o que as coisas são. Eu mesmo sou mais do tipo que prefiro achar que não há uma definição para as coisas do que tentar definir. Minha arte é o que enxergam dela, ela não tem rosto. A gente preenche lacunas com o nosso imaginário e quando eu desenho eu coloco tudo que eu to sentindo, mas cheio de buracos – e quem vê é quem preenche eles.

Se eu expor qualquer arte minha na frente de dez pessoas, cada um vai me descrever de uma maneira diferente. Eu achava que me expunha demais desenhando, mas aos poucos fui descobrindo que as pessoas se expõem muito mais ao se identificarem e ressignificarem o que eu criei. Tudo meio que é arte, então eu não me atrevo a definir ela nem pra mim, porque o que eu disser hoje eu já acho diferente amanhã. Talvez arte seja isso, não sei.

FTC: Com o que você se inspira no dia a dia?

Boletos. Eu adoraria romantizar essa parte, até porque a vida deveria ser bem mais do que isso, mas, por enquanto, viver de arte autoral é tão difícil quanto recompensante. Todos os dias eu acordo e me exponho um pouquinho em cada arte porque eu acredito no potencial de acrescentar algo ao universo particular dos seres humanos vivos e eu produzo com muito carinho e dedicação, procurando aproximações diferentes pra que as pessoas descubram que eu existo, espalhem minha palavra e comprem meu trabalho.

FTC: Uma frase que você carrega para a vida.

O Neil Gaiman disse em um curso uma vez “Haja o que houver, faça boa arte.”

FTC: O que tem lido, ouvido, visto, quais são os artista preferidos no momento?

O que eu mais gosto de ler, assistir, jogar são coisas que envolvem realismo mágico. Não é que eu só consumo isso, mas se tem realismo mágico e mistério já me ganhou. Eu to jogando “Kentucky Route Zero”, eu não sei explicar muito bem esse jogo, mas o mistério e a magia presente nele são lindas demais, fora que tem bastante liberdade pra fazer escolhas o que dá uma sensação de autonomia da história enorme, eu amo.

Minha última leitura foi “Antes de Nascer o Mundo” do Mia Couto que é um dos meus autores favoritos junto com Gabriel Garcia Marques, e Guimarães Rosa. Eu tenho assistido pouca coisa, mas tem uma mini série do Cartoon Network que eu sempre volto pra assistir chamada “Over The Garden Wall” e também é uma das coisas mais lindas que eu já vi.


Meus artistas preferidos são vários. É aqui que eu posso perder horas me divertindo, mas serei direto. Eu gosto muito da ideia de perder muito tempo vendo muita arte antes de começar a fazer as minhas, principalmente de quem faz arte hoje: Faustine Tarmasz, tatuadora belga que eu defino como rainha. Pam Wishbow, ilustradora de Seattle que tem a melhor arrumação de mesa pra feira que eu já vi. Isabel G Machado, ou La Quebranta, outra rainha maravilhosa que faz animações lindíssimas e ilustrou um livro que me dá vontade de ser ela quando crescer. O casal que faz instalações e tatuagens cubistas extraordinárias Expandedeye. Enfim, tem Gosia Herba, Anja Susanje, Sanae Sujimoto, Maria Corte a lista é enorme.


Não só de contemporâneos eu vivo, e dedico muito meu tempo admirando, observando e reproduzindo Tarsila do Amaral, Carybé, Di Cavalcanti, Portinari, Remédios Varo, Picasso, José de Almeida Negreiros, Matisse, Amadeo Modigliani, André Derain, enfim a lista é grande também.

Mas falando dos mais próximos da gente: Susano Correia o artista das coisas do coração, Desgosto artista que me apresentou (Sem saber) para o mundo da tatuagem autoral, a Lele Reis que põem as vísceras em cada trabalho, a Dani Estuani, tatuadora aqui de Porto Alegre que carrega o autoral da região nas costas, Sam Cora que conheci há pouco tempo, também aqui de Porto Alegre, faz quadrinhos e ilustrações maravilhosas, enfim tem muitos outros que eu admiro muito, mas eu já falei demais.

FTC: E agora, o que vem pela frente Pink Peter?

Na verdade eu só quero desenhar e contar histórias e é isso que eu vou fazer amanhã. Eu não enxergo muitos palmos a minha frente, não. Minha ambição é tatuar pessoas. Daí colar adesivos por aí, terminar os livros ilustrados que estou escrevendo, me manter aberto pra explorar novos caminhos, conhecer cada vez mais gente que faz arte ou que quer consumir arte e dominar o mundo.

Acompanhe o trabalho do artista Pink Peter no Instagram.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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