Matheus Sari e Yuri Rosa realizaram um trabalho em dupla, que nasceu da necessidade de explorarem o processo acima do resultado, buscando inspiração nos conflitos que o cotidiano contemporâneo traz, e na dualidade de se viver em busca de paz interior em meio a uma rotina caótica. Em parceria com a TRUNKSHOT desenvolveram um registro visual interessantíssimo sobre o processo. O Documentário Visiva – Projeto Díade – você confere aqui, acompanhado de uma entrevista exclusiva com os artistas do Estúdio Galeria Teix de Curitiba, PR. Confira:

PROJETO DÍADE: ENTREVISTA COM YURI ROSA E MATHEUS SARI

FTC: Queria que vocês falassem um pouco sobre o que faziam antes e como foram parar na tatuagem. 

YURI: Concluí minha graduação em Gravura na EMBAP | Escola de Música e Belas Artes do Paraná em 2013, e na época trabalhava como coordenador de vendas na SIM Galeria, uma das principais galerias de arte contemporânea de Curitiba. Era um momento em que, por estar me formando, me senti meio frustrado profissionalmente, e perdido com o que viria depois.

Conversando com amigos sobre essa questão, um deles me perguntou por que eu não começava a tatuar, e bateu uma curiosidade. Corri atrás de um kit iniciante e experimentei em mim mesmo pra ver como era, e se doía (descobri que dói sim). Minha primeira tattoo parece um risco de caneta Bic no joelho. Decidi sair da galeria e focar na minha produção artística. Fiquei uns 6 meses desenvolvendo alguns projetos que serviram para gerar repertório, mas a tatuagem estava em segundo plano.

Entrei como aprendiz em um estúdio de tattoo e em paralelo montei um atelier de ilustração com a minha mulher. Toquei ambos simultaneamente por 1 ano, porém o foco era o meu atelier. Precisei de muita frustração e do nascimento do meu filho para descobrir que querer fazer tudo é igual a não fazer nada, e aí eu redescobri a tatuagem, quando me dediquei integralmente a ela. Logo em seguida entrei no estúdio Teix, e o universo encaminhou tudo.

MATHEUS: Eu fazia faculdade de engenharia e no 4º ano recebi minha primeira tatuagem. Fiquei extremamente curioso com o processo. Imediatamente eu queria saber como a tinta entrava na pele, como a máquina atuava, com qual pressão a agulha precisava entrar e tudo que envolvia a execução de uma tatuagem. Essas reflexões ficaram ecoando na minha cabeça por um tempo. Assim que tive oportunidade, eu comprei um kit de máquina e fonte para descobrir tudo isso. Eu precisava saber!

Comecei a treinar em amigos (e em mim mesmo) mas não aspirava me tornar tatuador, estava só muito curioso. Só que conforme eu comecei a testar, percebi que precisava fazer aquilo bem, eu queria conseguir fazer linhas bonitas, preenchimento sólido e etc. Então, quando me formei, voltei para Curitiba e busquei aprendizado de tattoo em um estúdio. Acabei encontrando o Estúdio Galeria Teix e aqui estou até hoje. O estúdio me ajudou a crescer como artista, fiz minha primeira exposição de arte aqui e participei com o Yuri da última edição do VISIVA, nosso evento que busca discutir tatuagem contemporânea, apresentando o projeto Díade.

FTC: Como você definiria o estilo de sua arte hoje?

YURI: Na minha pesquisa busco identificar e representar nossos aspectos mais internos, desejos, questionamentos, medos, símbolos, etc. Gosto de articular estes sentimentos dentro de um universo onírico e/ou etéreo. São elementos atávicos ao ser, que através do figurativo, crio narrativas para representar. Na tatuagem eu mantenho uma conexão de questionamento com o cliente. Sempre existe o briefing para um projeto: “Quero tal coisa, de tal jeito, de tal tamanho em tal lugar”.

Na maior parte dos projetos, a tatuagem fica totalmente diferente da ideia inicial, porque durante a conversa estes questionamentos, “Porque isso?, por que de tal jeito?”, fazem com que aconteça uma redescoberta da ideia. Busco sempre construir o design com o cliente, e subjetivar a ideia para que ela ganhe mais interpretações, é o momento onde aparecem as características e sentimentos que eu comentei no inicio. Para mim, o projeto Díade é o desdobramento de todos estes elementos.

MATHEUS: No meu próprio trabalho utilizo de dois universos bases: a botânica e o mundo geek. Como aprendiz de ilustrador botânico, busco interpretar as plantas para criar soluções diferentes para a resolução das texturas, das formas e das cores. Gosto das flores, pois tatuando elas, vejo a tentativa de capturar essa beleza efêmera, que é uma pequena parte da vida da planta. E no universo geek, busco trazer aspectos que gosto de desenhos que já conheço, e eternizar personagens e memórias que foram importantes para meus clientes, como se fossem importantes para mim. Busco tratar estes personagens (de jogos ou de filmes) como os personagens que tenho carinho, e executo como gostaria que eles fossem feitos na minha pele.

No projeto Díade, vejo que nosso trabalho é dependente e resultado de uma simbiose entre três elementos: os dois tatuadores e o tatuado. Buscamos inspiração do universo onírico, e de pinturas abstratas contemporâneas. Tentamos colocar em imagem as sensações, e elas são para nós uma busca da representação da contemporaneidade, e as emoções envolvidas com o cotidiano moderno. O processo de criação e de execução acontece de maneira fluída, sem comunicação praticamente, somente o instinto de cada integrante sendo usado como parte de uma conversa silenciosa, sonhadora.

FTC: Nem sempre a união de dois artistas resulta em uma colaboração bacana. A gente sabe que há muita coisa envolvida como vocês mesmo citam no vídeo. O que esse projeto trouxe para vocês em termos de experiência?

YURI: Penso que a maior qualidade de um artista é a sua capacidade de ser um canal para manifestar o mundo das ideias no campo físico, e que seu maior defeito é poder contaminar este canal com seu ego. Para isso não acontecer é preciso ter humildade e respeito. Isto gera equilíbrio com você, com seu trabalho e seu entorno. O projeto é a articulação ativa deste conceito , que questiona como estamos vivendo. Ele enfatiza essa necessidade de equilíbrio, que só existe pelo fato de não se articular o “eu”, e sim o “nós” na troca que acontece entre os envolvidos.

MATHEUS: Posso dizer que aprendi a respeitar o espaço e o tempo de trabalho do meu colega, ser mais empático com ele e com quem está recebendo a tatuagem. Durante o processo, tive um sentimento muito forte de união, e agora tento trazer para cada tatuagem que faço esta sensação. Quero que o cliente seja parte ativa do processo, que estejamos conectados, mesmo que por um breve momento, no intuito de fazer um trabalho incrível.

FTC: Estão tocando algum projeto especial atualmente?

MATHEUS: Estamos preparando uma exposição de nossos trabalhos autorais, juntamente com outros tatuadores no estúdio, apresentando instalações e tatuagens que conversem entre si. O evento acontece em outubro no Estúdio Galeria Teix e adoraremos contar mais para vocês em breve!

YURI: Além da exposição que o Matheus comentou, temos implementado uma rotina de aprofundamento e pesquisa junto com os tatuadores do estúdio. Nos reunimos mensalmente para apresentar questões sobre a produção autoral e também lapidar a poética interna de cada um. Está funcionando muito como uma residência artística, e tem dado ótimos resultados.

FTC: Tem algo em termos de tatuagem que gostariam de fazer e ainda não fizeram?

YURI: Sempre! Existe um incômodo no bom sentido, um projeto passado que se reformula ou uma ideia que fica latente até se conseguir aplicar.

MATHEUS: Acredito que todo dia estamos trombando com coisas que gostaríamos de fazer, e creio que isto é parte do processo de aprendizado da artesania da tatuagem. Mas ainda gostaríamos de explorar a execução de desenhos de observação na pele, que é uma pesquisa que o Yuri está pensando em desenvolver em breve. Eu gostaria de adaptar algumas gravuras que já fiz para a tatuagem, e também criar ilustrações botânicas a partir da observação de plantas em tempo real. Mas acredito que iremos explorar isso mais para frente.

FTC: E agora, o que vem pela frente? 

Nos próximos meses vamos nos concentrar em criar e executar novas propostas para o Projeto Díade, e em fazer uma exposição com o resultado dessas pesquisas. Estamos em busca de pessoas para participar da experiência, que envolve desde meditação até uma conversa com o intuito de conhecer nosso participante. Queremos saber o que tem de profundo nele, que sentimentos ele vive e quer eternizar em sua pele!

Curtiu? Acompanhe o trabalho dos dois artistas no Instagram: Yuri Rosa e Matheus Sari. Para informações e agendamentos: estudioteix@gmail.com

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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