Tal como na arte, a arquitetura naif refere-se a produções espontâneas e criativas, elaboradas de maneira instintiva e autodidata. Geralmente, as construções ingênuas não possuem  característica funcional e equiparam-se a esculturas monumentais, sendo muitas vezes a única obra de seu criador. Nestes termos, La Maison Picassiette é um monumento classificado como arquitetura naif, feita de mosaicos de faiança e vidro fundido em cimento, idealizado e construído por Raymond Isidore (1900-1964).

Nascido em uma família humilde na cidade de Chartres (96km de Paris), na França, Isidore levou sua vida trabalhando como zelador de um cemitério local. Casou-se com Adrienne Dousset e, em 1929, comprou um pequeno lote de terra fora do centro da cidade para construir uma casa para sua família. Mudou-se para a residência em 1930. Oito anos depois, em uma caminhada cotidiana, o zelador encontrou fragmentos de louças de porcelana que despertaram sua atenção devido às cores e brilho do material.

Levou-os para casa pelo encantamento ainda sem pretensão de uso específico e empilhou-os em um canto no jardim. Desde então, continuou a recolher diferentes padrões de materiais nos lixões da cidade.

Em uma determinada noite, Isidore sonhou com o que deveria fazer com os cacos recolhidos: “Eu vi meu motivo diante de mim como se realmente existisse… pedaços de porcelana ou faiança estavam ao nosso alcance, prontos para uso”, explicou ao jornalista Robert Giraud. Os sonhos inspiradores continuaram durante toda a produção de sua obra que durou quase três décadas para ser finalizada.

Os primeiros sete anos de produção foram voltados para a área interna da casa, onde Isidore aplicou o mosaico em todas as superfícies incluindo as paredes, o chão, o teto e diversos móveis como a mesa da cozinha, as camas, a máquina de costura e as cadeiras. Em 1945, ele começou a trabalhar na área externa cobrindo o pátio, os caminhos e os detalhes do jardim, onde construiu uma capelinha, um trono e uma pequena casa de verão para que também pudesse ornamentá-los com o mosaico.

Foto de @guetteururbain, via Instagram.

Durante a montagem de sua obra, Isidore sofreu rejeição dos moradores da cidade que o provocavam apelidando-o de Picassiette – termo que foi interpretado como advindo de pique (roubar) e assiette (prato). No entanto, quando sua produção partiu para a fachada da casa, o ceticismo virou admiração e muitos iam visitá-lo para conhecer o espaço visionário do artista, repleto de motivos alegres e coloridos da fauna, da flora, da vida cotidiana, de construções históricas e de símbolos e cenas bíblicas.

Foto de Michael P Chang, MD, via Flickr.

Em 1954, recebeu a visita de Pablo Picasso e de uma comitiva de escritores e fotógrafos. Em 1960, a existência de La Maison Picassiette e de seu criador chegou aos Estados Unidos através de uma matéria intitulada “Mosaic House” na revista Popular Mechanics.

Ao final de sua vida, em 1964, dois anos após a conclusão do monumento, Isidore ganhou um novo apelido: Picasso Assiette – algo como o “Picasso dos pratos”. Tal nomeação reconhece a criatividade de Isidore, capaz de elaborar um paraíso cintilante produzido pela união de pequenas peças de cerâmica e vidro que brilham e colorem de maneira caleidoscópica.

Sua viúva continuou na casa até 1979 e, em 1981, a cidade de Chartres adquiriu a propriedade para consagrá-la como Monumento Histórico Nacional.

LA MAISON PICASSIETTE, A CASA DE MOSAICO DE CHARTES

Hoje, a La Maison Picassiette é um monumento acessível ao público. Para visitá-la é possível confirmar os horários/dias de visitas através do e-mail: musee.beaux-arts@ville-chartres.fr

A casa não fica aberta durante todo o ano, então é bom confirmar o funcionamento antes da sua ida que vai de 1 de abril a 31 de outubro, das 10h às 12h e das 14h às 18h. Fechada nas terças-feiras e manhãs de domingo.

Endereço: 22, rue du Repos – Chartres. (Obs: A La Maison Picassiette fica um pouquinho afastada do centro histórico de Chartres. Para chegar lá você pode ir de taxi, Uber ou ônibus.)

No Brasil, saiba que há um monumento bem parecido com esse na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. A Casa de Pedra/Castelinho de Pedra do escultor Estevão, conhecido também como Gaudí brasileiro, vale muito a pena a visita também! 

Marjorie Simões é designer de interiores e artista visual. Curiosa, observadora e pesquisadora, adora aprender coisas distintas para depois conectá-las. Valoriza os trabalhos manuais, a cultura vernacular, a economia criativa e a produção/consumo sustentável. Acredita no poder das cores e tem leves faniquitos quando entra em ambientes beges.

Marjorie Simões – já escreveu posts no Follow the Colours.


Você também poderá gostar de:

Comentários