Autodidata, Carlos Araújo começou a pintar aos 13 anos. Foi pela tinta à óleo que se apaixonou, apesar de litografia e desenhos fazerem parte de seu trabalho

O artista Carlos Araújo, em seu ateliê

“O artista? Ele voa, voa, por isso preciso racionalizar o processo”, disse Carlos Araújo para mim em seu ateliê, em São Paulo. Algumas de suas obras são enormes e quase batem no teto de uma casa de vila no Morumbi cercada de árvores. Em sua calça jeans, respingos de tinta. Em seu rosto, uma simpatia imensa. Em uma parede branca, quase não se via, mas havia vários telefones anotados e alguns recados marcados a lápis: “sua agenda”- me disse uma pessoa que o conhece bem, desde quando era jovem.

Estava diante de um dos maiores artistas brasileiros, e de um homem com um dom imenso: o dom da arte, das palavras, e dom de alguém que procurou olhar para dentro de si em busca de encontrar seu caminho.

CARLOS ARAÚJO, DO HOMEM AO CRIADOR

Carlos Alberto de Araújo Filho é um artista brasileiro que iniciou seu trabalho nos anos 60. Autodidata, começou a pintar aos 13 anos inspirado pelos entornos da sua janela. Engenheiro por formação, foi durante o curso que sua carreira começou a crescer.

Com a ajuda de um querido professor (Pietro Maria Bardi) fez sua 1ª exposição individual no Museu de Arte de São Paulo (MASP), aos 18 anos e depois, começou a expor suas obras no exterior. Seus temas, na época, apresentavam as atitudes do homem, a sociedade brasileira, as misérias e tragédias humanas. Entre os materiais com os quais trabalha estão o óleo sobre tela, desenho e a litografia.

Algumas obras no ateliê de Carlos Araújo expostas no dia da nossa visita

 

View this post on Instagram

 

A post shared by TUDO PARA A SUA ARTE! (@acasadoartista) on

Aos 23 anos, Carlos foi convidado para criar um livro sobre o homem no Brasil. O artista viajava muito e conhecia pessoas que materialmente não tinham nada ou quase nada, mas espiritualmente, se sobressaiam a qualquer outra que havia conhecido em São Paulo.

A dicotomia que existia entre a felicidade e a matéria o levaram a um questionamento pessoal sobre tudo aquilo que ele havia aprendido. Carlos Araújo entrou em uma pesquisa muito profunda de vida, de quase dois anos, sobre quais os valores que ele deveria seguir.

Durante este período de “deserto” como ele mesmo chama, se deparou com o convite de uma editora de Paris que havia trabalhado com grandes artistas como Salvador Dalí e Ernst Fuchs, que pintavam o significado de Deus. Esses trabalhos então, eram transformados em livros-objetos, de aproximadamente 1 metro de altura.

Logo, ele foi convidado para criar um livro de São João do Apocalipse. Lançou 100 cópias e fez uma exposição na Galeria Furstenberg, na França, mas a questão sobre a sua verdade ainda o perseguia. Sua busca pela felicidade e pelo sorriso das pessoas que havia conhecido em suas viagens, mesmo com tão pouco, sondava sua alma.

A TRANSFORMAÇÃO

O alívio desse momento de crise veio com a palavra bíblica, quando ele começou a ler, por uma questão até de desespero e entender a palavra de Deus, coisa que antes achava arcaico. E como uma bomba que estourou em seu espírito, percebeu que esse talvez fosse o seu caminho. Mergulhou na leitura dela e ali encontrou muitas respostas à miséria humana e para a sua vida pessoal.

O artista conta que para ele foi um caminho natural. “No começo eu ficava assim, num barco à deriva”. Mas hoje, o que podemos chamar de ‘seguir a intuição’, para Carlos isso foi visto como orientação – e ele se enxerga como um instrumento dessa orientação. “Quando o artista desenvolve algo para o benefício de um próximo, não é ele que o faz, ele é um instrumento de uma força maior e tem que se entender com tal.” 

Assim, ele começou a pintar espectros, obras transcendentais e etéreas. No abstracionismo de suas telas surgem inspirações dos mestres renascentistas, em especial de Michelangelo, Leonardo da Vinci, Carl Bloch, os flamengos, artistas que demonstraram a situação do homem e sua solução para melhora com a luz (Deus).

Dessa forma, Carlos Araújo sempre foi muito dedicado a representar essa palavra por meio da pintura.

UM PROJETO DE VIDA

Há anos, iniciou um projeto ousado: pintar telas retratando passagens de toda a Bíblia. Até hoje foram mais de 2 mil quadros. Muitos foram reproduzidos no livro “Bíblia – Citações”, junto com uma versão ecumênica do texto sagrado, resultando em uma publicação de 685 páginas, que mede 50cm por 30cm e pesa 7 quilos.

O trabalho agradou tanto o Papa Bento XVI a ponto de fazê-lo escrever um prefácio para a 1ª edição, que foi lançada em Florença, na Itália. Cada Bíblia vem com uma gravura feita por Carlos especialmente para a edição – são 35 imagens diferentes com cem cópias cada, totalizando 3.500 exemplares da tiragem em português.

Suas obras ficaram bastante conhecidas para além do Brasil também, tanto que até o Papa João Paulo II era seu fã. Os quadros de Carlos Araújo foram expostos no Pantheon em Roma, local que ficou 3 séculos sem receber nenhuma exposição, além do Vaticano.

SOBRE O FUTURO

Carlos Araújo conta que precisa acabar 100 passagens bíblicas que está elaborando para a divulgação de uma exposição na Itália, no Vaticano e no Pantheon. E completa: “Pense em quantas coisas do bem e do mal ocorreram naquele espaço…Olha o intervalo do tempo que eu demorei para fazer uma exposição lá no Pantheon, 4 mil anos?  É o que digo, você nunca esteve sozinho na batalha”. 

Foram ao todo mais de 800 telas grandes e 12 mil telas pequenas pintadas ao longo de sua carreira e que hoje encontram-se em inúmeras coleções particulares e museus. Seu trabalho garante ao artista o título como um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira.

Para finalizar, Carlos Araújo diz: “Demorei cerca de 30 anos para melhorar um pouquinho, dar importância ao espírito e desimportância à carne. Se você trabalha com o bem ao próximo, isso é eterno. Você ajudou ele evoluir. Isso é que é bonito na vida, é o que fica. Cada um sabe o que o afasta da luz”. 

*Para saber mais sobre o artista, acompanhe o nosso Projeto #artistahomenageado em parceria com @ACasadoArtista, que tem como objetivo resgatar e valorizar importantes nomes brasileiros contemporâneos da arte e apresentar a sua história. 

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


Você também poderá gostar de:

Comentários