Dono de uma arte única, Gabriel Ribeiro colore as ruas das cidades e exibições em galerias ao unir arte analógica com a digital. Aliás, arte sempre foi sua principal maneira ao se expressar – e ele descobriu isso quando adolescente, ao ter contato com o lambe-lambe.

Fascinado pelos detalhes da cidade e por São Paulo, o designer, fotógrafo e artista visual paulistano cria incríveis obras ao misturar técnicas diferentes que se completam. Fotografia, arte digital, colagem digital, colagem analógica, ilustração, pintura digital e arte urbana dão vida à suas famosas gueixas e outras lindas imagens repletas de botânica, surrealismo e retratos, que nos passam mensagens cheias de significados.

“Me inspiro com coisas simples, geralmente caminhando e observando a cidade e seus detalhes, sempre ouvindo música, pois sou movido por ela”. Ao falar pouco, é bem fácil perceber que Gabriel cria com calma e com toda a sua alma, deixando transbordar em seus trabalhos uma explosão de sutilezas. Confira nossa entrevista exclusiva com o artista:

FTC: Poderia nos contar um pouco sobre você e como chegou até esse universo artístico?

Sou um cara simples, fascinado e apaixonado por São Paulo, suas alegrias e tristezas. Meu desejo é poder tocar nas pessoas através da arte. Sempre fui tímido e a arte me ajuda nesse sentido de transmitir algo bom para o mundo. Com isso, quero expandir fronteiras, conhecer novas pessoas e lugares.

FTC: Há quanto tempo cria arte digital?

Já são mais de 10 anos!

FTC: Como o lambe-lambe surgiu no seu processo criativo?

Tive meu primeiro contato com o lambe em São Paulo por volta dos 15 anos. Sempre achei interessante ficar observando as propagandas que existiam espalhadas pela cidade. Lembro de uma vez ver alguns caras pendurados em um prédio colando as partes de um outdoor. Pirei naquilo.

Aos 17, juntamente com meu irmão, criei uma série de artes que se chamava Dear Tempo, em que homenageávamos pessoas que nos influenciavam de alguma maneira. Queríamos espalhar nossa ideia por aí e a maneira mais fácil, rápida e barata para isso era o lambe-lambe.

Na série das gueixas, onde falo dentre muitas coisas sobre a resistência das mulheres na sociedade, a ideia de retornar e utilizar o lambe veio de encontro ao conceito do projeto. Daí não parei mais.

FTC: Quais materiais você utiliza? Qual deles mais sente prazer ao produzir?

Minha arte é um mix de técnicas (fotografia, arte digital, colagem digital, colagem analógica, ilustração, pintura digital, arte urbana) então, sempre estou buscando novos materiais. Não tenho um material preferido, a possibilidade de testar e misturar novas técnicas é o que me encanta, como por exemplo, os lambes 3D que venho desenvolvendo com borboletas e flores em papel.

FTC: Qual a influência das cores nas suas criações?

As cores tem papel muito significativo em meus trabalhos, busco sempre uma harmonia entre elas. As vezes isso ocorre de maneira quase que natural, muito disso se deve a minha formação em design. Vejo a cor como parte fundamental juntamente com outros elementos como texturas e formas para resultar em uma composição que me agrade.

FTC: Do que você mais gosta nas exposições em galerias? E nas intervenções urbanas?

Gosto muito das possibilidades que a galeria proporciona para o artista: poder modificar e intervir com total liberdade em um ambiente é quase que um sonho. O espectador tem a oportunidade de ver a arte da maneira que o artista pensou com as melhor condições de luz, estrutura e informação. Mesmo tendo algumas críticas ao velho modelo de galerias de arte, vejo um novo movimento surgindo e tornando esses espaços cada vez mais democráticos.

Já as intervenções urbanas são minha paixão. Poder participar de um processo desses em uma cidade como São Paulo me motiva. A rua é uma galeria ao céu aberto, sem paredes, seguranças ou julgamentos. Como vi uma vez em um lambe: ‘A rua não tem curador, é exatamente essa liberdade que me fascina.’

Todos podemos ser artistas, espectadores e transitar nas nuances que existem no meio dessas pontas da experiência ao observar as cidades.

FTC: Qual tem sido o maior aprendizado nessa mistura criativa?

Me cobro muito em relação ao aprendizado. Sempre começo o dia dando uma olhada em uns sites de referências criativas, museus e em artistas que admiro. Nunca se teve um acesso tão grande a informação, por isso, procuro ver, filtrar e assimilar o máximo de coisas, sempre tomando cuidado com a maneira e velocidade que irei fazer isso.

Essa mesma relação procuro levar para a cidade. Gosto e caminho muito por SP e com o passar dos anos, a minha forma de observar a cidade mudou. Me pego muitas vezes observando uma flor no jardim de uma casa, o sticker e o bomb na parede de uma padaria, o desenho de um ornamento de portão antigo.

Toda essa informação vai se conectando e criando uma simbiose: o maior aprendizado é esse. Ver tudo com um outro olhar sem tentar criar barreiras, alimentar as possibilidades e deixar que essa mistura criativa se construa de forma livre.

 FTC: Está desenvolvendo algum projeto paralelo atualmente?

Sou meio hiperativo. Então estou sempre trabalhando em coisas novas. Desenvolvi uma coleção limitada de cerâmicas (pratos) em parceria com a loja Hybrida. Estou realizando uma nova série de gueixas em conjunto com a artista Argentina Alma, onde misturamos bordado tradicional japonês (Sashiko) com a minha arte.

Também estou participando de um projeto relacionado a Shunga a convite do fotógrafo Gal Oppido. Tem muitas novidades em andamento. Em breve uma nova série de lambes também vai tomar as ruas de SP!

FTC: O que é arte para você? Poderia nos falar sobre a sua arte?

A arte é mutável, então não creio que tenha uma definição. Eu mesmo não tenho algo que diga: ‘isso é ou não é arte’. A única coisa que pode definir arte na minha opinião é a verdade que o ser que está fazendo coloca na mesma. Minha arte é minha verdade. É onde eu coloco parte de quem sou, uma tentativa de me comunicar, repassar algo que de alguma forma pode estimular e criar novas experiências ao outro.

E mesmo que de uma forma pequena, trazer democratização para quem se permitir observar a cidade. Por isso coloco meus trabalhos na rua. O processo de caminhar, escolher o local, é muito importante. Meu lambe não é caracterizado pela quantidade, não inundo a cidade com eles; assim, como as pessoas, a arte precisa de respiro.

Por isso, penso muito onde vou colar, a composição, textura da parede, cores, entre outras coisas, são fatores que levo em consideração. É o lado designer presente rs! Acima de tudo minha arte é uma terapia.

FTC: O que há de subjetivo e em comum, que está presente tanto na fotografia, quanto na arte digital e no lambe?

Comecei na fotografia analógica e trago muita coisa dessa formação na minha arte, como por exemplo, a questão de se pensar antes de executar uma arte ou um click. Quando comecei, o filme era caro e eu não tinha muito dinheiro para gastar com a fotografia, então cada click que realizava era muito pensado e processado. Acho que esse ‘tempo’, esse ‘respiro’, trago comigo até mesmo nas minhas composições digitais.

Por mais rápido que seja o processo, o mesmo é muito pensado e embasado. Não crio nada sem um motivo ou significado. Muitas pessoas fotografam para eternizar um momento, uma sensação. Nos lambes, a única coisa eterna é o processo de criação e o ato de levar o mesmo para a rua. Porém, o lambe possibilita uma interação com o espaço e com as pessoas que muitas vezes não são alcançadas na fotografia.

Eu vejo nos lambes um resgate da época em que era comum revelarmos as fotos e mostrá-las ao amigos. É isso que busco: que meus lambes sejam como uma foto revelada, que façam as pessoas pararem – nem que seja um minuto – para observar a imagem.

FTC: Cite 5 coisas que não consegue viver sem.

Família, arte, rua, música, amigos. É somente 5, mas não tem como eu viver sem o Palmeiras, então vão ser 6 (rs)!

FTC: Um filme, uma música, e um livro que te representam.

Acho que muitas coisas poderiam me representar. Assim como minha arte, também sou uma junção de muitos elementos. Tem um trecho de uma música da Banda o F.U.R.T.O que mostra um pouco disso:

“Eu sou um misto de cinemas / convertidos com funk de laje / desenhos japoneses e pelada de rua / doce de Cosme e Damião versus televisão/ Caixa de fósforo com MPC” – Paradoxo – Marcelo Yuka.

FTC: Uma frase da sua vida.

Não tenho uma frase específica, mas tem o trecho de uma música que levo na minha vida como se fosse um mantra.

“Eu agradeço a Deus, quando tudo tá bem
Quando tudo tá mal, agradeço a Ele também.” – Dívida de Gratidão – Shawlin

Veja mais trabalhos do artista em seu site. Acompanhe Gabriel Ribeiro no Facebook e no Instagram.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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