Muito usadas antigamente, as ilustrações botânicas são verdadeiras relíquias e inspiram artistas e estudiosos no mundo

Imagem: The Botanic Garden, Volume 8, Biblioteca do Patrimônio da Biodiversidade (CC BY 2.0)

Antes da existência de máquinas fotográficas, era por meio das ilustrações botânicas que se tinha acesso à rica e infinita variedade de espécies de plantas e flores ao redor do mundo. Grandes expedições exploratórias costumavam ter sempre artistas entre as caravanas e estes eram responsáveis por retratar os novos locais e categorias encontradas ali.

Hoje em dia é comum ver livros de ciência e botânica com ilustrações fotográficas. As imagens são da melhor qualidade, tiradas com lentes macro ou micro e não deixam passar nenhum detalhe. Mas antes, era graças ao talento, técnica e minuciosidade de artistas que se podia conhecer novos tipos da fauna e flora. O trabalho exigia grande habilidade artística, atenção aos detalhes e conhecimento técnico de horticultura.

As ilustrações botânicas eram a única maneira de registrar visualmente as muitas espécies de plantas do mundo no passado. Imagem: Biblioteca do Patrimônio da Biodiversidade (CC BY 2.0). 

No passado, ilustrações botânicas eram muito utilizadas por farmacêuticos, médicos, cientistas botânicos e jardineiros para identificação, estudo e classificação de espécies. Apesar de tais desenhos não serem muito mais usados como fonte de consulta atualmente, eles são muito consultados como fonte de inspiração para artistas que prestam uma homenagem à diversidade das plantas de uma maneira contemporânea. 

ILUSTRAÇÕES BOTÂNICAS

“De Materia Medica.” (Foto: Wikimedia Commons )

A ilustração botânica pode ser descrita como a arte de retratar a forma, cor e detalhes do reino plantae. Os primórdios da prática são associados ao livro do início da história da farmácia, De Materia Medica, ilustrado pelo botanista grego Pedanius Dioscorides. Na época, seu objetivo era ajudar os leitores a identificarem espécies de plantas que poderiam ser usadas para fins medicinais

“De Materia Medica.” (Foto: Wikimedia Commons )

A tecnologia possibilitou muitos avanços relacionados a processos de impressão. Cores e detalhes ficam ainda mais visíveis depois de prontos. Mas há de se admitir que muitos desenhos de antigamente não deixam muito a desejar se comparados com fotografias. Alguns artistas desenvolveram técnicas realistas e impressionantes, capazes de enganar e encantar os olhos humanos.

Tanto é que ser um ilustrador botânico era uma profissão requisitada e respeitada antigamente. Maria Sybilla Merian, Pierre-Joseph Redouté, Anne Pratt e Franz e Ferdinand – os irmãos Bauer estão entre os nomes de maior destaque no campo ao longo da história. Muitas mulheres figuram entre os grandes nomes da ilustração botânica.

ARTISTAS BOTÂNICOS FAMOSOS DO PASSADO

Esses artistas e ilustradores de todo o mundo fizeram contribuições significativas para publicações científicas sobre a vida vegetal. Inspire-se no trabalho de alguns dos mais famosos da história:

MARIA SIBYLLA MERIAN (1647-1717)

Metamorfose de uma borboleta (1705 – gravação em cobre) – Metamorphosis insectorum Surinamensium, Placa XX, por Maria Sibylla Merian (Imagem: Wikipedia)

Considerada uma das maiores artistas botânicas de todos os tempos, a artista alemã Maria Sibylla Merian criou impressionantes pinturas de história natural em seu próprio estilo. Ela é mais conhecida por ilustrar o ciclo de vida de insetos no contexto de sua planta hospedeira. Maria baseava-se nos espécimes que recolhia e estudava, publicando as fases de larvas, lagartas e borboletas. 

PIERRE-JOSEPH REDOUTÉ (1766-1854)

Coroa Imperial. Fritillaria imperialis var. jaune por P.J. Redouté. Prato de aquarela. Choix des plus belles fleurs e des plus beaux fruits, t. 2, P.J. Placa de 1827. Texto de 1833 (Imagem: Wikipedia)

Empregado como pintor real de flores por Marie Antoinette (a última rainha da França) e pela imperatriz Josephine Bonaparte, o artista francês Pierre-Joseph Redouté é conhecido por suas pinturas de rosas, lírios e outras flores – muitas das quais continuam populares até hoje. Na época, Pierre foi até chamado de “o Rafael das flores”.

OS IRMÃOS BAUER

“Strelitzia reginae”, c. 1820 por Franz Bauer, Museu de História Natural, Londres. (Imagem: Artechne)

Franz e Ferdinand Bauer deram uma enorme contribuição ao “século dourado” da ilustração da história natural entre 1750 e 1850. Franz trabalhou no Jardins Botânicos Reais de Kew em Londres por mais de 50 anos e mais tarde foi empregado como “pintor de botânica para sua majestade“. Tornou-se membro da Royal Society. Ele desenhou todas as novas plantas com flores em Kew e se especializou em pintar orquídeas

Seu irmão Ferdinand viajou com botânicos e exploradores para mapear e registrar a flora e fauna naturais da Grécia e da Austrália.

ANNE PRATT (1806-1893)

Uma orquídea pintada por Anne Pratt. (Imagem: Wikipedia)

Anne Pratt é uma das ilustradoras botânicas inglesas mais conhecidas da era vitoriana. Devido a problemas de saúde, Anne passou grande parte da sua adolescência em casa, sendo incentivada a ocupar o seu tempo desenhando. Assim, ela escreveu mais de 20 livros, contribuindo para a popularização da botânica, ilustrando-os com litografias coloridas. 

MARIANNE NORTH (1830-1890)

Samambaia e flores na fronteira com o rio em Chanleon, Chile. Marianne North (1830 a 1890). 

A artista britânica Marianne North viajou pelo mundo pintando plantas e flores. Autodidata, ela produziu 833 pinturas de 17 países em 14 anos, representando mais de 900 espécies de plantas. Por sugestão de Charles Darwin, Marianne foi para a Oceania em 1880, e por um ano retratou imagens da Austrália e da Nova Zelândia. Suas pinturas estão agora alojadas na Marianne North Gallery, em Kew Gardens, Londres. 

ERNST HAECKEL (1834-1919)

Orquídeas por Ernst Haeckel

Nascido na Alemanha em 1834, Ernst Haeckel passou a vida pesquisando flora e fauna “desde os cumes mais altos até o oceano mais profundo”. Biólogo, naturalista, filósofo e artista, seus incríveis desenhos ajudaram a educar o mundo sobre organismos microscópicos que eram anteriormente despercebidos, além de ajudar a popularizar o trabalho de Charles Darwin.

O pesquisador descreveu e nomeou várias espécies novas, mapeou uma árvore genealógica que relaciona todas as formas de vida e foi dos primeiros a considerar a psicologia como um ramo da fisiologia. Ernst deixou um legado duradouro no mundo científico e artístico e inspira artistas até hoje.

EM SÃO PAULO, UMA BELA MOSTRA

Para quem está ou vai a São Paulo, vale muito a pena uma parada no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para conferir o Espaço Olavo Setubal e as Coleções Brasiliana Itaú e Itaú Numismática. São 1,3 mil obras que remetem ao período do descobrimento do Brasil e do Brasil colônia. Há diversas ilustrações de 1820 e 1830, de artistas como Debret, Chamberlain, Auguste Sisson, Buvelot e Moreau, que retratam a fauna e flora brasileiras.

A coleção Brasiliana reúne 969 obras, sendo 12 pinturas, 30 desenhos e aquarelas e 693 gravuras, entre outros. É possível conferir as ilustrações feitas por Frans Post, pintor holandês, para o livro Barleus, considerado um dos mais luxuosos do século XVII. Algumas das gravuras são originais do livro, retiradas sem prejuízo da encadernação e expostas.


Via.

Mariana é jornalista e comunicadora. Adora descobrir novos lugares, explorar a cidade a pé e andar sem pressa. Se interessa por viagem, cultura e tudo o que é novidade.

Mariana – já escreveu posts no Follow the Colours.


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