Tramas e interseções, agulhas e linhas. Mylene Rizzo é psicóloga, historiadora, fotógrafa e viajante. Com mais de 60 países na bagagem sempre procurou um ângulo inusitado em suas imagens e viagens que foca em experiências vivenciadas na cultura de cada povo visitado. Os trabalhos manuais sempre estiveram presente em sua vida mas foi na fotografia bordada que encontrou o ponto de encontro.

Com as imagens de suas explorações pelo mundo, ela liga as linhas de sua construção pessoal ao acervo que construiu. Bordando sobre as fotografias, Mylene reproduz sua essência criando novas narrativas, baseadas em culturas diferentes e referências históricas. Hoje apresenta este trabalho como uma leitura de experiências. Confira a conversa que tivemos com ela:

“Eu posso dizer que floresci na quarentena! Pode parecer clichê, mas de alguma forma este isolamento fez uma interseção de histórias da minha vida se ressignificarem para criar algo novo. Os laços femininos ligados aos trabalhos manuais, as imagens de quase vinte anos de roteiros pelo mundo com o projeto Viajando com Arte e a aulas de história da arte que ministrei se conectaram e desabrocharam.

Numa configuração familiar eminentemente feminina, os trabalhos manuais sempre perpassaram as relações, convivi entre agulhas e linhas desde a mais tenra infância. Com minha mãe aprendi a desenrolar novelos e minha avó era referenciada na máquina de costura.

Quando adolescente eu tricotava pulôveres para toda a família, passava as aulas na faculdade de psicologia mais interessada nas agulhas do que nos professores. Mais tarde migrei para a tapeçaria, os quartos dos meus bebês foram decorados com telas em casa caiada e arraiolo.”

“Abandonei o artesanato, (e a psicologia) andei pelo mundo em viagens onde sempre busquei referências embasadas na história e cultura e nesta trajetória acabei me apaixonando pela fotografia. Mas foi agora que encontrei o ponto de intersecção! Bordando sobre as imagens que capto, reproduzo minha essência interna criando um novo matiz baseado em culturas exóticas e referências históricas.”

Todas as fotos que Mylene borda foram tiradas por ela mesma e tem uma história por trás, trazem referências das pessoas e culturas onde estão inseridas.

Ela a transforma em uma imagem monocromática e só então deixa a paleta de cores surgir. Cada fotografia pede uma cor diferente que não tem relação direta com seu tom original. “Aqui se configura uma relação entre a criação bordada e a persona retratada”, comenta.

ÍNDIA, PARADIGMAS DA BELEZA

A série que criou incialmente se chama Índia, Paradigmas da Beleza. A Índia pode ser um dos locais com mais desafios ao estrangeiro. Só que exatamente por isso, poucos países permitem que uma pessoa assimile e ressignifique tantas coisas a partir de uma única viagem. “A gente pode nem notar num primeiro momento, mas as novas conexões vão se construindo e se criam outras tramas e conceitos que vão fazendo sentido com o tempo. Nem sempre se atinge o estado de elevação espiritual dos monges, mas frequentemente a atmosfera local contribui para que seus visitantes encontrem novos propósitos”, diz a viajante experiente.

As cores do local sempre seduziram Mylene, os tecidos com combinações inusitadas, as tramas e as padronagens, além do povo que tem uma mistura única de alegria e acolhimento. Em suas fotos, a fotógrafa buscava capturar estas almas ingênuas e verdadeiras.

Assim que ela começou a transformar as imagens com este contexto, conseguiu enxergar mais fundo para ressaltar o colorido que vem do âmago. “No maior paradigma indiano, a beleza brota e se multiplica em flores e ramas. Cada fotografia tem intrínseca a sua paleta de cores, meu trabalho é desvendá-la e aplicar as linhas do bordado para que a fábula surja naturalmente”.

Mylene Rizzo conta não foi por acaso que ela estava na Índia no momento em que o mundo todo se volta para olhar para dentro, para repensar a maneira de se relacionar com os outros e com a natureza. Uma busca da verdade interior inerente e individual.

Os indianos são defensores da tolerância e espiritualidade e acreditam que somente através de nossos próprios esforços somos capazes de nos libertar, assim, ela sente que encontrou em sua história os fios que ligam ao passado e dão suporte para alçar novos vôos.

NOVOS PROJETOS

Agora, ela já pensa em fazer uma série sobre o Brasil. Como seu trabalho é floral, pensa em buscar referência na flora brasileira e bordar a Amazônia. “Já tenho uma série de fotos e estou desenvolvendo pontos que retratem a vitória régia, as diferentes texturas da mata e buscando outros para retratar as pinturas faciais das tribos sem agredir a imagem. Tenho esta preocupação, não gosto que o bordado desfigure a persona. Acho que o afeto está na arte de compor”.

Também já separou retratos do sul da Ásia, Myanmar, Laos e Vietnam. Esta é uma série que está se desenvolvendo em sua cabeça.

INSPIRAÇÕES

Quando questionada sobre livros, filmes e músicas que tem a inspirado neste momento, Mylene indica que no início da quarentena leu muito, foram mais de oito livros em dois meses. “Li sobre a história da Índia, suas influências têxteis e a questão da partição do país no livro ‘Esta noite a liberdade’. A história da arte sempre está no meu rol de interesses. Ultimamente li também sobre a vida de Gustav Klimt e a Secessão vienense. Também gosto dos pintores ingleses da Escola dos Pré Rafaelitas que retratam tão bem a alma feminina, um dos meus temas bem recorrentes.”

Um artista que sempre adorou e que a influenciou é o brasileiro Artur Bispo do Rosário, com seus mantos bordados.

O PRAZER DE CRIAR AS FOTOGRAFIAS BORDADAS

O prazer para ela vem da introspecção, de poder criar algo novo em cada trabalho num processo quase analítico. “Ver a imagem limpa e depois transformá-la com textura e cor é quase uma catarse. O único problema é que me falta tempo para desenvolver todo o cabedal de ideias que tenho tido.”

Uma última curiosidade é que como ela tem bordado em diversas imagens mulheres indianas varrendo com a tradicional vassoura feita de palha (jhadoo), recentemente recebeu um contato do museu de vassouras indiano pedindo uma entrevista sobre o significado deste utensílio em seu trabalho.

Para saber mais sobre seu trabalho, acesse o site de Mylene Rizzo e acompanhe seu Instagram.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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