Ressignificar, essa é a palavra que traduz Paula Luchiari e seu trabalho. A inquietação e a vontade de abandonar aquilo que não a fazia mais feliz e não tinha mais sentido, foi o motim para abdicar da carreira comercial no mundo corporativo e na indústria têxtil para assim se dedicar a algo que fazia o seu coração bater mais forte.

E é este ressignificar que estamos falando: atribuir uma nova interpretação a algo ou alguém. Paula trabalha com reciclagem, fazendo miniaturas em papel e com restos de embalagens que ela e seus filhos consomem. O resultado é arte com sinestesia, poesia e muito amor.

As miniaturas começaram em 2017, quando Paula presenteou seu melhor amigo com caixinhas nas quais ela fazia pequenas ilustrações de lugares, livros, mini teatros. No final desse mesmo ano, ela estava bastante descontente profissionalmente e resolveu sair do seu último emprego, sem ter ideia do que faria na sequência.

“Eu havia me separado do pai dos meus filhos um ano antes, e nessa época alternávamos a guarda das crianças. Pela primeira vez, depois que tive filhos, eu tive tempo, ficava alguns dias completamente sozinha, e sentia muito prazer em estar só. Sempre escrevi diários e textos sobre mim, mas, nesse momento, eu não queria escrever. Eu queria falar sobre o abandono, sobre a beleza dele, sobre a beleza que existia em tudo que havia dado errado na minha vida, mas eu ainda não sabia como. Foi quando eu fiz a minha primeira casinha abandonada, e eu simplesmente não consegui parar mais. Eu havia ficado 13 anos sem desenhar. Quando digo que minha lacuna de 13 anos sem desenhar começou com um dia sem inspiração, na verdade, quis dizer que começou com um dia de concessão. É mais sobre abrir mão do que nos dá prazer, do que sobre inspiração efetivamente, embora esteja relacionado né?”

Hoje, a artista define suas pequenas obras como miniaturas tridimensionais ilustradas. Todos os seus trabalhos são pintados, recortados e colados à mão. Confira um pouco mais sobre o processo e as criações de Paula Luchiari:

FTC: Paula, conta mais sobre ressignificar esses materiais, o que isso significa para você e como você classifica isso?

Durante muitos anos, quando trabalhei na indústria têxtil, fui obcecada por tingimentos naturais, fibras e tecidos orgânicos. Sustentabilidade era um tema recorrente na minha vida, mas que nunca consegui implementar, de fato, nos lugares nos quais trabalhei. Comecei a fazer ilustrações utilizando restos de papéis por que era a matéria-prima que eu tinha disponível naquele momento.

No começo deste ano, fiz uma série de mini jardins com os cartões de visitas de contatos para os quais eu ensaiava enviar meu currículo, e voltar a trabalhar na indústria têxtil. Mas, definitivamente, eu não queria desistir da ilustração naquele momento. Expus meus mini jardins na primeira feira que participei, e vendi todos. As pessoas que compraram aqueles trabalhos nem imaginavam do que eles eram feitos, e do quanto aquele momento foi importante para mim. É claro que também existe o aspecto ambiental da reutilização e reciclagem, que eu gosto bastante, mas o impacto positivo do meu trabalho no meio ambiente, muitas vezes, acaba parecendo irrisório até para mim, afinal, com uma caixa de pasta de dentes sou capaz de fazer uma dezena de borboletas.

Mas acredito mesmo é no impacto da educação do nosso olhar para o que consideramos lixo, inútil, ou incômodo  e esse olhar serve tanto para um papel descartado quanto para um sentimento ruim, como uma frustração. Hoje, valorizo mais uma embalagem usada do que uma folha de papel em branco. Tem uma frase do Manoel de Barros que me define muito: “amo os restos como as boas moscas”. Tenho tentado ser uma boa mosca!

FTC: Pode contar pra gente um pouco do seu processo criativo no seu dia a dia?

Tenho dois filhos (Antônio de 14 anos e Helena de 4), me separei há pouco mais de dois anos e há um ano cuido sozinha dos dois. Existe aí então, logo de cara, uma dificuldade imensa em produzir e criar como eu gostaria, ou da maneira que eu considero ideal. E muitas vezes (quase diariamente) fico frustrada por não poder trabalhar a quantidade de horas que me satisfaçam, ou descansar a quantidade de horas que eu julgo necessárias, ou ter tempo para, simplesmente, contemplar e criar.

Acredito que essa condição adversa, de tempos em tempos, torna-se potente, e me dá um sopro de energia e motivação. Nesses momentos eu ressignifico a adversidade, assim como faço com os papéis. Não tenho dúvidas de que existe um crescimento e maturidade nesse processo, inclusive no meu olhar para as outras mulheres. Por isso, para mim e para o meu trabalho, tornou-se inevitável falar sobre esse assunto, ele invade meus dias, a minha realidade, a percepção do que me cerca e, finalmente, invade tudo o que eu expresso.

Portanto, não havendo o tempo desejado e específico para produzir e criar, me mantenho aberta e sensível o tempo todo. Viver e sentir tornaram-se a minha profissão. Busco conhecimento e informações através do contato com outras mulheres artistas, que são minha maior fonte de inspiração. Tento estar sempre próxima das pessoas que acreditam em mim e no meu trabalho. Produzo quase diariamente, e me esforço para me sentar na minha mesa por pelo menos por 30 minutos todos os dias. Não quero ficar mais 13 anos sem desenhar, e sei que essa lacuna de mais de uma década começou com um dia sem inspiração.

FTC: Está tocando algum projeto especial ou específico atualmente?

Meu próximo projeto são aulas para crianças carentes aqui da minha cidade (Americana, SP). Sempre falo que a matéria-prima que utilizo é democrática e acessível, mas muitas vezes eu me esqueço de que o conhecimento não é. O conhecimento eu adquiri em escolas particulares, em uma universidade estadual, e com uma infância cheia de privilégios, como visitas mensais a museus e uma biblioteca particular na casa dos meus pais.

A partir de dezembro vou compartilhar um pouquinho do que eu sei e do que eu desenvolvi com 20 crianças que não têm acesso a quase nada do que eu tive, e este talvez seja o momento mais vitorioso dessa minha trajetória, que já está sendo cheia de conquistas.

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Adoraria publicar as histórias das minhas casinhas abandonadas (quase todas já estão no meu Instagram). Talvez esse seja meu próximo projeto.

FTC: Como são as encomendas? As pessoas podem pedir uma miniatura em especial ou elas já são criações específicas?

Trabalho muito com encomendas. Elas se dividem em dois tipos, basicamente. Existem as reproduções de lugares e ambientes, como janelas, casas… E também existem as reproduções das histórias das pessoas, bastante utilizadas como presentes entre amigos.

As pessoas me contam suas histórias, detalhes da relação, momentos marcantes, viagens, e eu reproduzo de uma maneira um pouco mais livre, normalmente dentro de pequenas caixinhas, exatamente como eu fazia para o meu melhor amigo. Também tenho os trabalhos prontos, algumas peças são exclusivas e outras produzo em pequenas séries!

AS MINIATURAS ILUSTRADAS DE PAULA LUCHIARI

 

Acompanhe as histórias e miniaturas ilustradas de Paula Luchiari pelo Facebook e Instagram.

Talita França é Jornalista, metida a decoradora, apaixonada por fotografia, ilustrações e artes em geral, e claro, fã de música.

Talita França – já escreveu posts no Follow the Colours.


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