Com ilustrações marcadas por uma explosão de sensibilidade, beleza e empatia, Manu Cunhas dá voz a mulheres que possuem uma relação extremamente sensível com o próprio corpo através do projeto Outras Meninas. 

Se você luta ou já lutou para alcançar um ideal de beleza tido como perfeito, foi ou é contra a naturalidade das suas curvas, formas e cores, é bem provável que você tenha tudo a ver com as histórias compartilhadas por Manu Cunhas.

Manu é formada em Design Gráfico e trabalha como ilustradora freelancer há cerca de oito anos. Seu talento mergulhado na imprevisibilidade da aquarela é que traz encantamento para o Projeto Outras Meninas e o transforma em algo tão mágico.

Ser mulher sempre foi uma questão de vencer as fronteiras do preconceito diário, de uma sociedade patriarcal e machista, que explora a fragilidade e insegurança gerada pela falta de aceitação do corpo em que se vive. Não era para cada uma ser a melhor amiga de si mesma?

Por que odiar o que se carrega com toda a perfeição o que se é por dentro? Por que querer ser igual a outra pessoa? Por que não ser cada vez mais fiel a si mesma?

Foi pensando nisso que surgiu o Outras Meninas, um espaço que fala sobre empoderamento feminino. Em cada cor ilustrada, reflete-se a necessidade de expressão através de depoimentos, histórias e fotografias enviados para Manuela que, com maestria, cria uma incomparável representatividade.

Conversando com ela, tivemos o prazer de entender um pouco mais sobre suas inspirações, anseios e sobre os desenhos que fazem tanto sentido nos dias de hoje. Confira a entrevista exclusiva que o FTC realizou com a artista:

FTC: Gostaríamos que nos contasse um pouco sobre você e como chegou até as ilustrações em aquarela;

Manu: Eu sou natural de Tubarão, uma cidade mais ao sul de Florianópolis, onde vivi há 10 anos. Sempre amei ilustração e foi no design que comecei a perceber como poderia trabalhar com isso, principalmente no meio editorial. Eu amo demais livros, então minha alegria sempre girou em torno de consumir e produzir o material visual dos mesmos.

A aquarela veio como uma técnica naturalmente, com toda a imersão que tive em livros infantis e quadrinhos europeus. Eu gosto muito da técnica, porque ela permite um trabalho expressivo e até meio imprevisível, então a gente nunca sabe o que vai sair do desenho. Gostaria de estudar agora outras técnicas e tentar ampliar minha produção.

FTC: Como surgiu a ideia do projeto Outras Meninas?

Manu: Ele surgiu de uma vontade de fazer um pequeno projeto retratando mulheres nuas com corpos reais. Ao tentar me desenhar, tive mil crises ao olhar meu corpo nu e comecei a perceber como se encarar era muito mais complicado do que deveria. Depois de contar com depoimentos de pessoas próximas eu fiz as primeiras ilustrações. Depois dos primeiros posts, o projeto foi crescendo naturalmente.

FTC: Qual é o objetivo ou propósito do projeto?

Manu: Acho que para as participantes é botar para fora aquele monte de angústia ou mesmo amor próprio que fica bem guardadinho normalmente, além de ver como são bonitas através do desenho. Acho que a melhor coisa é a rede de empatia que surge, com as pessoas lendo os textos e se vendo neles e na ilustração. É muito gostoso acompanhar isso.

“Levei 30 anos para aprender a me amar. TRINTA ANOS. É muito tempo perdido, até parar de lutar com a balança e fazer as pazes com meu corpo. O que me libertou foi o nascimento da minha filha. Parir aquela bebezinha e ver o exato momento que o corpo dela passou a funcionar por conta própria, me transformou. Ela ter aberto os olhos, se movido, puxado o ar e colocado o pulmãozinho para funcionar me mostrou como nosso corpo é perfeito e como eu quero ser um exemplo para ela.”

FTC: Como você escolhe os depoimentos e as fotos que irá ilustrar?

Manu: Eu não escolho, tudo o que recebo eu desenho. Inclusive ainda tenho alguns para terminar.

FTC: O que há em comum entre você e o Outras Meninas?

Manu: O que não há? Tem um pouquinho de mim em cada história, mesmo como ilustradora do projeto, no final eu sou mais uma leitora que se emociona e se enfurece junto com as moças do livro.

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FTC: Qual é a sensação de poder dar voz a essas mulheres?

Manu: Acho que é uma sensação ótima! É muito bonito ver que isso faz diferença e que muitas delas se sentem modificadas por isso. É difícil de descrever como isso mexe comigo.

FTC: Você acredita que estamos passando por um momento de transição, mesmo que demorado, de empoderamento e aceitação do corpo feminino?

Manu: Com certeza. Nos último dois ou três anos, o coro de indignação ficou tão alto, as pessoas simplesmente começaram a notar como são incoerentes as cobranças que giram em torno do ser mulher. Essa onda só vai aumentar, passaremos por uma enorme mudança violenta de perspectivas.

FTC: Como é seu processo criativo?

Manu: No caso do Outras Meninas, eu leio a história algumas vezes e vou anotando algumas palavras chaves. Depois eu parto para o desenho, escolhendo antes a paleta cromática e o tipo de acabamento que eu espero dele, geralmente restringindo a duas ou três cores – depois é desenhar.

FTC: Qual tem sido seu maior aprendizado desde que iniciou o projeto?

Manu: Acho que acima de tudo, foi me colocar no lugar dos outros, começar a enfrentar todos aqueles preconceitos que temos e nem notamos, com os outros e comigo mesma. Levei muitos tapas na cara só de ler os textos; tendemos a diminuir e simplificar as angústias dos outros.

FTC: O que é arte para você e o que poderia nos falar sobre a sua arte?

Manu: Para mim tudo isso é novidade. Como disse antes, sou designer por formação, então sempre observei o universo da arte como uma fonte de inspiração ou mera espectadora. Acho apenas que arte precisa provocar algum tipo de mudança nas pessoas, mesmo que seja só um momento de paz ou tensão momentânea.

FTC: Com o que você se inspira?

Manu: Com qualquer coisa, sou extremamente aleatória. Tendo a guardar pequenos objetos que acho por aí e ficar observando o meu entorno. Se acho que posso trabalhar algo, anoto e mais tarde vejo o que posso fazer com aquilo.

 FTC: Como é a influência das cores nas criações?

Manu: Hoje é enorme, mas quando comecei, eu tinha um medo muito grande de trabalhar com ela. Era difícil pensar em cores, sem permanecer no óbvio. Agora, é parte essencial do meu trabalho (embora eu tenha umas predileções que não largo, rs).

 FTC: Cite 5 coisas que não consegue viver sem.

Manu: Ler quadrinhos, desenhar, ler livros, sexo e conversar, não necessariamente nessa ordem.

FTC: Um filme, uma música e um livro que poderiam lhe representar.

Manu: Filme: Paprika / Música: “Spirits”, de The Strumbellas / Livro: “As Brumas de Avalon”, de Marion Bradley

FTC: Uma frase da sua vida.

Manu: Planeje mil projetos de vida, para colocar 5 em prática e terminar um, que nem sempre fica bom, para já correr pro próximo.

Para você ter uma ideia melhor de como funciona toda essa turbulência de sentimentos do Outras Meninas, aqui vai um dos depoimentos que fazem parte do projeto:

“Bem, essa sou eu. Mas nem sempre eu fui assim. Passei quase 18 anos da minha vida pra me enxergar bonita como eu sou. Desde pequena sempre fui zoada na escola, principalmente no começo da pré-adolescencia quando saí da escolinha de bairro e fui pra escola pública. Todos os apelidos ruins e xingamentos eram referentes ao meu cabelo, à minha magreza, mesmo o mantendo-os escondidos, sempre. Minha mãe também sofreu na infância e achando que eu ia sofrer menos, alisou meu cabelo aos 12 anos, quando a cabeleireira disse que minha idade podia. A química era constante, a cada seis meses (porque eram todas as economias que mainha conseguia juntar nesse tempo). Além de frequente, as aplicações eram tão fortes a ponto de todo o cabelo do alto da cabeça ser arrancado pela escova de um cabeleireiro, que me fez usá-lo amarrado, bem apertado, durante dois anos inteiros. Mesmo com chapinha, usava-o preso, com vergonha do que as pessoas pudessem falar. Mas não adiantava. Elas falavam. Elas olhavam. Isso me incomodava muito. Me perguntava porque não podia ter nascido com o cabelo das minhas bonecas, das moças da TV. Eu tinha um defeito?” 

Com o apoio do público e da iniciativa do Catarse, Manuela conseguiu o necessário para lançar o livro “Outras Meninas“, e você pode comprar o seu exemplar apaixonante clicando aqui.

“Desde a minha adolescência enfrento inúmeros problemas relacionados ao meu corpo. Tenho 1,55m e desde que eu pesava 50kg ouvia diariamente que eu deveria emagrecer uns quilinhos. Quando passei para 60kg, ouvia que eu deveria estar pesando uns 50. Hoje, tenho certeza que aquela mãe que passou os últimos 12 ou 13 anos da minha vida dizendo que eu poderia pesar 50kg, ficaria radiante se eu sequer conseguisse voltar à marca dos 60 e poucos.”

“Eu era ridicularizada pela maioria dos meus colegas (e até professores), poucas amigas me apoiavam, mas eu tinha minha querida mãe – ela era meu porto seguro. Mãe solteira, ela se esforçava em dar conta de tudo sozinha e não ligava para o que os outros falavam, sempre me achando linda e me apoiando no que eu precisasse. Com o passar dos anos fui sendo considerada cada vez mais esquisita e alguns tinham a audácia de culpar minha mãe pelo meu jeito – como se isso fosse culpa de alguém.”

Acompanhe este projeto incrível seguindo o perfil do Outras Meninas no Instagram, página no Facebook ou no site de Manu Cunhas.

Viciada em açúcar, Marina Gallegani é movida pelas forças da natureza e tem fome de liberdade. Jornalista, escritora e fotógrafa amadora, se entrega às cores da vida e sonha com viagens ao redor do mundo. Em constante reconstrução, acredita ser eterna e tem a certeza de que o sorvete é uma das fórmulas da felicidade.

Marina Gallegani – já escreveu posts no Follow the Colours.


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