O assunto pode parecer polêmico, mas tem fundamento. Criatividade e cópia parecem ser temas opostos, certo? Enquanto a criatividade exige originalidade, livre pensamento e novas ideias, a cópia é apenas, bem, copiar algo. Parece improvável, então, que haja alguma ligação entre replicar o trabalho de outro artista e ser capaz de criar algo novo de sua autoria.

No entanto, Kentaro Ishibashi e Takeshi Okada, um arquiteto e um professor da Universidade de Tóquio, no Japão, pesquisam esse assunto por anos e descobriram que a cópia pode ajudar, facilitar e aumentar a sua criatividade artística. Isso mesmo! Como?

Imagem: Annie Spratt

CRIATIVIDADE E CÓPIA: O ESTUDO

Em um experimento, os pesquisadores selecionaram 30 estudantes universitários para um estudo de três dias e os dividiram em grupos. Um grupo, o grupo de controle, foi solicitado a desenhar uma obra de arte original todos os dias e recebiam um objeto para usar como tema – como um copo, ou um vaso de plantas, por exemplo.

O segundo grupo também foi instruído a criar um desenho original de um objeto banal no primeiro dia. No segundo dia, no entanto, eles foram presenteados com uma imagem de uma obra de arte abstrata de um artista para “copiar a imagem em um pedaço de papel em branco enquanto imaginavam a intenção do pintor”. Então, no terceiro dia, os participantes produziram sua própria peça original, novamente baseada em um objeto real.

Dois artistas profissionais avaliaram as obras produzidas por ambos os grupos, dando notas de um a cinco ao basear-se em três critérios que avaliavam a criatividade: atratividade estética, originalidade e habilidade técnica, e os profissionais puderam revisar todos os trabalhos antes de começarem as pontuações.

Imagem: Štefan Štefančík 

O QUE ELES DESCOBRIRAM

As obras criadas pelo grupo que havia copiado outros artistas foram classificadas como mais criativas do que as criadas pelo grupo que não havia copiado. Os participantes que não haviam copiado o trabalho de um artista produziram desenhos mais realistas no terceiro dia, enquanto os que haviam copiado, criaram peças que exibiam mais experimentações próprias.

Notavelmente, essas obras não mostravam simplesmente o trabalho que foi copiado, mas refletiam seu próprio estilo pessoal, sugerindo que o ato de copiar levou a um senso mais amplo de liberdade artística.

“Eu suspeitava que a cópia pudesse ter algum efeito criativo”, escreveu Okada em um email. “[Mas] não esperávamos que a imitação fosse realmente útil para geração de ideias criativas com essa magnitude.”

A originalidade do trabalho dos alunos adiciona nuance ao que é conhecido como efeito de conformidadeobservou Thomas Ward em Psychology Today. Em termos gerais, o efeito de conformidade significa que as pessoas mudam algo (o seu trabalho neste caso) para se adequar a um grupo de maneira que isso possa reduzir o pensamento inovador.

A pesquisa de Okada e Ishibashi descobriu, entretanto, que em certas circunstâncias, pedir às pessoas que copiem exemplos de outras pessoas pode resultar em trabalhos mais criativos, em vez de fornecer pouca substância para continuar.

Imagem: Kelly Sikkema 

E O QUE ISSO SIGNIFICA AFINAL?

O aumento da criatividade não é um produto da cópia em si, Okada disse à Isaac Kaplan, do site Artsy. O que acontece neste caso é ser estimulado para criar algo do familiar (claro que, o que constitui “familiar” na arte é diferente para um artista profissional do que um estudante, ele observou).

Aqueles que estavam no grupo de controle simplesmente desenharam objetos que estavam na sala, e alguns até relataram que eles não achavam que poderiam criar um desenho satisfatório se tentassem ser originais. Sua imaginação foi limitada pela falta de exposição a outras possibilidades. Por outro lado, aqueles que copiaram o trabalho abstrato entenderam que sua arte não tem que ser realista e, assim, produziram obras mais variadas e interpretativas, tudo na base da experimentação.

Outra explicação para a relação entre cópia e criatividade, revelada por um questionário de pós-teste, é que o trabalho de cópia forçou os participantes a considerar a forma e o estilo do artista, assim como a expressar o seu próprio estilo. A cópia fez com que os participantes comparassem seu próprio traço com o de outra pessoa e permitiu com que eles pensassem nos aspectos de seus desenhos.

A cópia “boa” é aquela que questiona por que um artista trabalhou de uma determinada maneira, o que ele estava pensando, porque gerou aquela nova ideia, etc. Outros experimentos realizados por Okada e Ishibashi descobriram também que contemplar uma obra de arte poderia produzir efeitos criativos semelhantes, mesmo sem copia-la em alguma superfície.

Imagem: Juan Di Nella

“Criatividade não é sobre pensar em algo do nada”, disse Okada. “A criatividade ocorre quando você encontra alguma inspiração em algo.”

*Texto de Isaac Kaplan para Artsy, traduzido livremente por FTC. 

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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