Nos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, ocorrida na França, e do auge do movimento renascentista no país, preparamos uma rota cultural e gastronômica para mergulhar no tema.

Castelo de Azay-le-Rideau, um dos tesouros da Rota do Renascimento

O que a França tem a ver com o Renascimento e com Leonardo da Vinci? Que o artista, engenheiro, cientista, anatomista, entre tantos outros atributos, nasceu e viveu na Itália, não é segredo para ninguém. Mas o que nem todo mundo tem conhecimento é que ele passou seus últimos anos vivendo em Amboise, charmosa cidade no meio do Vale do Loire, a região dos castelos franceses. No mesmo período, o país viveu o que se pode chamar de apogeu de seu próprio Renascimento, não só por conta da influência de Da Vinci, mas também pelo início da construção do Castelo de Chambord, e o nascimento da futura rainha Catarina de Médici.

Em 2019, diversos eventos e comemorações estão sendo organizados para celebrar os 500 anos do florescimento da Renascença francesa. E seja neste ou em qualquer outro ano, é perfeitamente possível montar um roteiro “renascentista” pelo Vale do Loire, uma região interiorana que fica a apenas umas 2 horas de carro de Paris – e que representa tudo de melhor e mais autêntico que a França tem. O FTC embarcou em uma jornada intensa por lá, e a seguir, destrinchamos um dos muitos itinerários que você pode desbravar em sua viagem.

VALE DO LOIRE E A FRANÇA RENASCENTISTA

Vista aérea de Amboise, no Vale do Loire

O início do Século XVI foi um período intenso na história francesa. Sob a vigência do absolutismo monárquico, o país recebe a ilustre visita de Leonardo da Vinci, que, a convite do Rei Francisco I, hospeda-se em Amboise, cidade no coração do Vale do Loire, onde passaria os últimos anos de sua vida.

Concomitantemente, tem início a construção do Château de Chambord, que até hoje é o principal cartão-postal da região, repleto de elementos renascentistas claramente inspirados na obra de Da Vinci; e ainda, em 1519, mesmo ano da morte do gênio italiano, nasce Catarina de Médici, futura rainha-consorte da França, uma das mulheres mais poderosas da Europa naquele tempo, que a despeito das controvérsias que giram em torno de seu reinado, foi uma grande patrona das artes e incentivadora da divulgação de ideais renascentistas.

Sendo um dos centros do poder monárquico nacional naquele período, o Vale do Loire acabou se consagrando como o hub renascentista francês. Embora aqui o movimento não tenha tido tanta influência sobre as artes como teve na Itália, foi na transformação da arquitetura francesa que ele encontrou seu grande ponto de expressão – e os castelos do Loire permanecem até hoje como grandes vitrines do bom gosto e da harmonia arquitetônica.

CHAMBORD – O EXEMPLO MAIOR

Se tem um castelo que traduz com perfeição o espírito do Renascimento francês, é o Château de Chambord. Localizado dentro de um enorme parque, com uma área total de mais de 50 quilômetros (só para chegar com o carro da entrada dele até o estacionamento do castelo, dirige-se um bocado), a construção até hoje é o grande símbolo do Vale do Loire, aparecendo em 10 entre 10 materiais de divulgação do destino. Nada mais certo do que começar o roteiro por aqui.

A construção de Chambord durou cerca de 20 anos, e teve início em 1519 – ano da morte de Da Vinci em Amboise, distante cerca de 50 minutos de carro. Até hoje se discute se o gênio italiano teve participação no projeto que deu origem ao castelo, tamanha a inspiração nos ideais renascentistas presente na obra.

Combinando formas medievais francesas com estruturas clássicas italianas, o Castelo de Chambord impressiona já do lado de fora, devido à sua imponente fachada, em meio a belos jardins. E ao acessar sua parte interna, verificamos traços vivos da arquitetura renascentista. O maior exemplo é a escadaria em formato de dupla-hélice, peça central do palácio. As duas hélices percorrem os três pisos da construção sem nunca se encontrarem – ou seja, é possível que duas pessoas percorram as escadas inteiras ao mesmo tempo sem nunca toparem uma com a outra.

Outros elementos renascentistas observados na obra são as torres baluartes nos cantos, dando forma à fortaleza central que delimita o palácio, além de chaminés, abóbodas, janelas amplas e uma área aberta no topo da construção – quase um castelo italiano no meio da fria região central da França. Curiosamente, Chambord, apesar de toda a imensidão, nunca foi projetado para servir como moradia real – sua função inicial era servir como pavilhão de caça.

Hoje um dos pontos turísticos mais visitados da França, o Châteu de Chambord oferece excelente estrutura ao visitante, com lojas de souvenires, biscoitos e vinhos, além de restaurantes, creperias e cafeterias, contando ainda com uma ampla área de estacionamento – vale lembrar que a melhor forma de percorrer o Vale do Loire é com um carro alugado.

AMBOISE, O EPICENTRO RENASCENTISTA FRANCÊS

Vista aérea de Amboise

Se Chambord é o maior exemplar da arquitetura real renascentista, Amboise foi o QG do movimento cultural na França. Esta pequena e charmosíssima cidade às margens do Rio Loire serviu como local de moradia da Corte – em especial do Rei Francisco I, responsável pelo convite e pela vinda de Leonardo da Vinci para a região.

Da Vinci ficou confortavelmente instalado no Castelo de Clos Lucé, construído em meados do Século XV, no Centro de Amboise. O italiano transformou o castelo em sua morada e também em seu local de trabalho. A construção, muito bem preservada, apresenta elementos renascentistas como suas chaminés, e a fachada com tijolos cor-de-rosa e pedras brancas.

Hoje aberto para visitação, o Castelo de Clos Lucé permite uma verdadeira imersão na vida e obra de Da Vinci. Você pode andar pelos seus cômodos (inclusive pelo quarto onde o criador italiano morreu), vendo ainda hologramas representando o artista, e também maquetes com várias de suas criações como engenheiro – tais como protótipos de um antepassado do helicóptero, de um carro de combate e de uma escavadora. Anexo ao castelo, um agradável parque permite uma tranquila caminhada em meio a reproduções de criações de Leonardo.

Reza a lenda que uma passagem subterrânea secreta ligava o Château du Clos Lucé ao Château d’Amboise, residência oficial da realeza francesa, permitindo assim encontros secretos entre o Rei Francisco I e Leonardo da Vinci (a natureza de tais encontros permanece um mistério). Fato é que é no Castelo Real de Amboise (mais precisamente dentro da Capela de Saint-Hubert) que está o túmulo do multifacetado artista italiano.

Construído no topo de uma colina com vista para o Rio Loire e para o Centro de Amboise logo abaixo, o castelo teve sua construção iniciada no Século XI, tendo sido confiscado pela coroa francesa no Século XV. Foi a realeza que ampliou a construção e fez algumas modificações em sua arquitetura, adicionando alguns elementos renascentistas, como o bonito jardim que até hoje enfeita a propriedade.

O Castelo de Amboise foi seriamente danificado durante as Guerras Religiosas, e posteriormente, durante a Revolução Francesa e a Segunda Guerra, quando houve a invasão nazista. Após algumas obras de restauro, recuperou parte de sua imponência, e ainda hoje se destaca no meio da paisagem de Amboise. Andar pela propriedade permite observar lindas paisagens, aprender um pouco de história, e ainda conhecer o túmulo de Da Vinci.

Em 2019, o castelo conta com uma exposição homenageando Leonardo Da Vinci.

AZAY-LE-RIDEAU E VILLANDRY – O AUGE DA BELEZA E DA HARMONIA RENASCENTISTA

Os jardins de Villandry

Encerrando a saga renascentista pelos castelos do Vale do Loire, após uma viagem de carro de cerca 40 minutos a partir de Amboise, e de 25 minutos a partir da animada cidade de Tours (a maior da região), chega-se a dois excelentes exemplos da arquitetura do Renascimento francês.

A primeira visita pode ser feita em Azay-le-Rideau, charmoso castelo localizado no meio da cidade de mesmo nome. Construída entre 1518 e 1527, e edificada sobre uma ilhota do Rio Indre, a propriedade pertenceu a vários entes privados, até ser adquirida e reformada pelo governo francês no Século XX. Atualmente, o local está aberto para visitação, e é uma das atrações mais simpáticas e tranquilas para conhecer no Vale do Loire, contando ainda com um agradável jardim em volta do palácio.

Caracterizado pela escadaria central interna, pelas torres com cones pontiagudos, o teto inclinado e o grupo de janelas verticais separadas por linhas horizontais, Azay-le-Rideau apresenta um mix de elementos arquitetônicos franceses e italianos, típicos do estilo renascentista da época de sua construção. Cabe destacar o caráter interativo de algumas de suas salas, com objetos que ganham vida conforme o visitante se aproxima. Em algumas noites de verão, há um show de luzes e projeções nas paredes do castelo.

A apenas 15 minutos de carro de Azay-le-Rideau, fica o Château de Villandry. Concluído em 1536, foi o último dos grandes castelos construídos na região durante o período do Renascimento. No passado, a propriedade pertenceu a pessoas ligadas ao governo, até ser adquirido em 1906 pelo Dr. Joachim Carvalho, bisavô dos atuais proprietários, responsável por salvar o palácio da demolição e por ter criado os jardins que lá existem até hoje, em total harmonia com a arquitetura renascentista do palácio.

E são os lindos jardins em estilo renascentista a grande atração de Villandry. É possível passar horas e horas apenas observando a bela paisagem e caminhando tranquilamente em cada ala dos jardins – há desde um pequeno labirinto até um jardim de ervas e uma horta. Sabe aqueles lugares que você pode visitar em qualquer época do ano? Villandry é assim – a paisagem muda a cada estação, e não sabemos dizer qual é a época em que ela fica mais bonita. Veja, por exemplo, as fotos tiradas em diferentes visitas que fizemos, na primavera e no outono:

PRIMAVERA

OUTONO

Apesar de o grande destaque de Villandry serem os jardins, recomendamos comprar o ingresso que dá direito a visitar também seu interior, que apresenta bonitos aposentos e elementos da arquitetura renascentista – além, é claro, de vistas para o jardim. Não deixe de comer um crepe na barraquinha que fica bem na saída da atração. Em algumas noites de verão, há um lindo show de luzes e projeções nas paredes do castelo.

E VOILÁ, A GASTRONOMIA RENASCENTISTA

Não tem como falar sobre a França sem citar sua inigualável gastronomia. Na celebração dos 500 anos do Renascimento francês, alguns restaurantes do Vale do Loire pegaram carona na data, e criaram pratos e menus pra lá de especiais.

A começar pelo Ver Di Vin. Localizado no Centro medieval da simpática cidade de Orléans, uma das bases para conhecer o Vale do Loire, este lindo restaurante, que fica dentro de uma espécie de caverna subterrânea, preparou o Menu Renaissance, composto por quatro pratos com ingredientes típicos da era do Renascimento (entre eles, aspargos, ovo com lentilha, e pato com legumes). Não deixe de harmonizar sua refeição com os vinhos servidos na casa – são excelentes!

E se você curte pratos que, além de deliciosos, são bonitos de ver e fotografar, não deve deixar de ir ao L’Orangerie, elegantérrimo restaurante localizado dentro dos domínios do Castelo de Chenonceau, que neste ano lançou em seu menu de almoço uma sobremesa em homenagem à rainha Catarina de Médici, uma das figuras mais ligadas ao castelo e ao movimento renascentista francês – uma torta de merengue e frutas cítricas com recheio de calda de frutas vermelhas, coberta com raspas de limão e açúcar cristalizado. Sabor tão bom quanto a apresentação, entre as mais bonitas que já vimos, provando que gastronomia também é arte.

As comemorações em torno dos 500 anos da Renascença francesa são apenas um dos muitos pretextos para colocar o Vale do Loire no topo da sua lista de desejos de viagem! Uma região a uma curta distância de Paris, que pode ser explorada em qualquer época do ano, e que traz razões de sobra para proporcionar uma das melhores e mais culturais viagens da sua vida – você com certeza voltará renovado, literalmente com uma sensação de renascimento!

GUIA PRÁTICO – VALE DO LOIRE

QUANDO IR: o ano inteiro, mas se pudéssemos recomendar uma época, seria o verão (apesar de ser o período mais cheio do ano, a região nunca fica tão abarrotada como Paris), seguido do outono e da primavera. Inverno tem lá seu charme, mas estará bem frio – e os jardins perdem boa parte do encanto.

ONDE FICAR: Orléans, Blois, Amboise e Tours são ótimas cidades-base para conhecer a região. Também há a possibilidade de se hospedar em pequenos castelos mais afastados das cidades.

*O FTC viajou com apoio da Air France e do Escritório de Turismo do Vale do Loire. 

Fabio Calderon é jornalista de formação, e desde cedo enveredou pelo caminho sem volta das viagens mundo afora. Da Disney à Ásia, não há destino que escape de sua wishlist. Atualmente, comanda a Planejante, agência e consultoria de viagens especializada em roteiros personalizados. Entre suas paixões, além da vida nômade, estão as experiências gastronômicas (de ceviche a hambúrguer, passando por noodles e sorvete), museus, passeios ao ar livre, road trips, e qualquer coisa que seja sinônimo de liberdade e pé na estrada.

Fabio Calderon – já escreveu posts no Follow the Colours.


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