O mundo caleidoscópico na Fusterlandia é um vasto labirinto de ruas e bangalôs cobertos de mosaicos nos arredores ocidentais de Havana, em Cuba. A meticulosa criação do artista José Fuster, seu país das maravilhas em mosaico é adornado com muitas frases. ‘Viva Cuba’ se estende por uma série de chaminés, enquanto ‘Homenaje a Gaudi’ decora outra parede.

E acima de uma arcada despretensiosa, o artista escreveu ‘Convierte en milagro el barro’. Essa frase, que também é a letra de uma canção do músico cubano Silvio Rodriguez, encapsula adequadamente o trabalho de Fuster nas últimas quatro décadas – transformando o que era lama em um milagre.

Quando Fuster iniciou seu projeto de mosaico em 1975, o bairro de Jamainatas em Havana era uma comunidade de pescadores degradada. Os tempos eram difíceis na Cuba pós-revolucionária e, durante o governo de Fidel Castro, a arte não era uma coisa de destaque para a maioria.

Mas Fuster estudou na Escola de Instrutores de Arte de Havana em meados da década de 1960 e continuou sua educação viajando pela Europa, onde viu obras de Pablo Picasso, Constantin Brâncuși e Antoni Gaudí. A experiência alimentou os sonhos de criar um trabalho próprio que ganharia admiração semelhante, ele disse à National Geographic em 2013. Depois de voltar a Cuba, Fuster comprou uma pequena casa de madeira em Jamainatas e iniciou o trabalho de sua vida, usando as paredes e ruas de sua cidade natal como uma tela.

O INÍCIO DA FUSTERLANDIA

O artista começou cobrindo seu próprio bangalô com pedaços de azulejos coloridos e cerâmica quebrada. Figuras exuberantes e plantas tomaram forma, preenchendo as superfícies de um grande pátio. Hoje, através de suas paredes, as pessoas balançam os braços no ar, como se estivessem dançando ou louvando o sol cubano, enquanto sereias, pescadores e um polvo gigante prestam homenagem ao oceano próximo e à sua generosidade. O local é delimitado por representações de palmeiras, flores e peixes, além de possuir detalhes surreais, como olhos flutuantes, arabescos que sobem no ar, como fumaça ou espuma do mar.

Depois de cobrir sua própria casa, Fuster mudou-se para as ruas e prédios vizinhos, onde envolveu bancos, pontos de ônibus, outras casas e até a fachada de um consultório médico local com composições coloridas e hipnotizantes. Atualmente seu trabalho se estende por mais de 80 casas do bairro, além de estruturas adicionais. E aos 73 anos, sua obra-prima ainda não está concluída. 

AS INFLUÊNCIAS DE FUSTER

A influência de grandes nomes modernistas como Gaudí e Picasso é palpável em todos os lugares da Fusterlandia, o nome pelo qual seu trabalho abrangente é conhecido. Os corpos e rostos de suas figuras se quebram e distorcem o espírito do cubismo; ele até foi apelidado de “Picasso do Caribe”. Enquanto isso, as extensões onduladas e aparentemente ilimitadas de azulejos coloridos acenam em êxtase para o Parque Güell de Gaudí. Mas os mosaicos de Fuster também se inspiram profundamente na cultura do Caribe, na história e nas pessoas que cercam o artista nas Jamainatas.

Referências à vida cotidiana cubana preenchem os murais.representações de pessoas jogando dominó e dançando, geralmente não muito longe das representações dos ventiladores elétricos que os mantêm frescos ou dos carros antigos que os transportam pela famosa ilha. Também há alusões à Santería, uma religião que mistura crenças iorubás antigas e cristianismo que surgem na forma de figuras da Virgem Maria.

Além disso, a história revolucionária de Cuba é um tema consistente. Um mural expansivo mostra o lendário Granma Yacht – um barco que transportou 82 revolucionários cubanos do México para Cuba em 1956, ajudando finalmente a derrubar o regime autoritário de Fulgencio Batista.

As imagens dos revolucionários Che Guevara e Camilo Cienfuegos são visíveis no navio, assim como o homem que acabaria por assumir o poder e se tornaria um governante autoritário controverso por direito próprio: Fidel Castro. Grandes e brilhantes representações da bandeira cubana decoram inúmeras superfícies na Fusterlandia, bem como um mural comovente adornado com as palavras No Guerra.

A Fusterlandia ainda está crescendo. Na maioria dos dias, o próprio Fuster pode ser encontrado em seu estúdio na rua, pintando azulejos ou arranjando pedaços de cerâmica quebrada que cobrem sua próxima superfície. Enquanto o artista ainda está trabalhando para alcançar seu objetivo de criar o maior mural do mundo, também começou a pensar em um futuro em que não estará mais por perto.

José espera que a Fusterlandia o mantenha vivo com outros artistas ambiciosos retomando de onde ele irá parar: “Eu não acho que, quando morrer, isso desmoronará em três dias“, ponderou ele em 2017. “Acho que talvez novas pessoas venham e façam um trabalho melhor do que eu.”

Confira mais algumas fotos:

Curtiu? Você sabia que em São Paulo, na comunidade de Paraisópolis existe a Casa de Pedra do ‘Gaudí brasileiro’ que criou a sua casa inteira de mosaicos usando objetos? 

Todo feito em pequenos pedaços de azulejos coloridos, o local não é apenas a casa do artista José Fuster, mas expandiu-se para incluir murais em outras casas e muros de residências próximas.

VAI LÁ: FUSTERLANDIA

Aberta todos os dias, das 9 as 17h.

Calle 226, Esquina Av. 3ª.

Fonte: ArtsyCuba What’s On

Marjorie Simões é designer de interiores e artista visual. Curiosa, observadora e pesquisadora, adora aprender coisas distintas para depois conectá-las. Valoriza os trabalhos manuais, a cultura vernacular, a economia criativa e a produção/consumo sustentável. Acredita no poder das cores e tem leves faniquitos quando entra em ambientes beges.

Marjorie Simões – já escreveu posts no Follow the Colours.


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