Criado pela jornalista Fernanda Moreira, o projeto Ladrilha nasceu da necessidade de levar mais amor para as ruas. 

A rua é o espaço mais democrático e mais nosso possível. É público e pede para ser ocupado e não apenas pisado. Hoje em dia, há cada vez mais eventos e intervenções urbanas que fazem exatamente isso e que ajudam a ressignificar esse espaço e a nossa relação com ele.

O cronista João do Rio escreveu como ninguém as sensações, os barulhos, o fascínio, as histórias que são as ruas. Em seu livro “A alma encantadora das ruas”, ele vai a fundo para entender como era essa troca entre o espaço público e a sociedade carioca do Brasil republicano.

Em sua obra, ele apresenta a figura do flâneur, que vaga pela cidade em busca do inesperado ou em busca de nada. “E de tanto ver o que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observações foram guardadas na placa sensível do cérebro”, diz um trecho da obra.

E foi como flâneur que a jornalista Fernanda Moreira criou o projeto Ladrilha. Passeando pelas ruas, sentiu a vontade de ocupar o espaço público com uma parte de si mesma. Fernanda espalha pequenas mensagens de poesia pelas ruas do Rio de Janeiro, escritas em ladrilhos.

Seu trabalho delicado expõe um pouco daquilo que está dentro dela e se mescla com os sentidos das ruas. Foi com o Ladrilha que a jornalista pode conhecer um pouco mais de si mesma e se desafiou a expôr as coisas do seu íntimo e a receber o que a cidade poderia dar em troca.

Conversamos com a Fer e ela respondeu a algumas perguntas sobre o seu trabalho:

LADRILHA POR FERNANDA MOREIRA

FTC: Fale um pouco sobre você e sua trajetória profissional, qual a sua formação, onde trabalha?

Sou jornalista com pós-graduação em jornalismo cultural. Trabalho no MKT da FARM, sou editora-chefe de conteúdo e há uns sete anos que produzo conteúdo no mercado de moda.

FTC: Como surgiu a ideia de criar o Ladrilha?

Surgiu em fevereiro deste ano, passeando com meu namorado em Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro. Sempre tive vontade de intervir na rua, mas buscava algum material que trouxesse mais corpo a minha poesia – que não o papel. A azulejaria traz uma afetividade caseira que eu amo, é um carinho!

FTC: O nome tem algum significado?

É menção ao material que eu uso, que são ladrilhos. Mas no feminino – porque o projeto é feito por uma mulher, na rua, pra rua… Que é um ambiente que precisa muito de nós, mulheres. É um ambiente ainda muito hostil, machista, violento e opressor.

FTC: Por que fazer um projeto como esse hoje?

Porque preciso de amor e porque quero dar amor… com o que gosto de fazer, que é a escrita!

FTC: E como se deu a escolha de trabalhar com ladrilhos? Você pensou em outros materiais?

Não! O papel, os lambes… Vieram à cabeça quase que de um jeito óbvio, mas os ladrilhos foram a minha escolha, é o meu material.

FTC: Os seus azulejos têm sempre frases curtinhas, mas inspiradoras. Você as considera como poesia? Qual a sua ligação com esse gênero?

Tenho ainda dificuldade de considerar poesia porque, por mais que a sinta próxima… ainda a vejo GIGANTE. Ainda me soa como pretensão dizer que faço poesia e que sou poeta. De todo, tenho poesias que serão publicadas num primeiro livro de nome ‘Mar é sempre beira pra quem tem medo de fundo’ e elas podem ser lidas aqui. Penso que tenho estreitado minha relação com a poesia, no sentido de me engendrar dela de forma mais madura, não como leitora, mas como uma… esfomeada.

FTC: Qual a sua relação com a rua, por que escolheu ela para colocar as suas criações? Essa relação mudou depois que você começou o projeto?

A rua é o que nos aproxima da democracia, né? Todo mundo está. A relação mudou no sentido em que eu observo mais os espaços desocupados, os muros. Observo o movimento das pessoas que observam os muros. Eu não só estou na rua como eu a ocupo com meu corpo, com o meu pensamento. Eu estou pertencendo à cidade e ela me pertence também. Ela me colabora e por isso eu quero fazer mais por ela. Há um senso maior de relacionamento em mim.

FTC: Como você costuma escolher os locais onde vai ser posto um novo ladrilho?

Penso em lugares onde há muito movimento de gente!

FTC: Você mesma escreve as frases, ao invés de usar adesivos ou outra forma de escrita. Qual é a diferença de ter a sua caligrafia nos ladrilhos?

Pensei muito sobre isso porque sempre achei minha letra horrível e a primeira nudez a qual me expus com eles foi justamente essa: o feio. Quis estar disponível ao feio, à letra, à falta de senso, de equilíbrio estético (por vezes, saem tortas as linhas). Eu não sou design… Por muito tempo, enrolei pra colocar o projeto na rua pensando em “qual fonte ideal poderia usar”, mas conclui que nenhuma letra seria a minha. Nenhuma fonte é a que gero. Sendo mulher, posso gerar o que quiser. Temos essa força uterina de fazer nascer! Além disso, em tempos de touch, saber da letra um do outro é lindo, é intimidade pura. Essa é a diferença. O íntimo. O natural, ainda que imperfeito. Ou mesmo que imperfeito.

FTC: Quais são os seus hobbies? O que te inspira? E o que te inspira para criar seus textos?

Dançar, namorar! O que me inspira é o que acontece quando estamos off-line! Ah, tanta coisa… Guimarães Rosa me inspira.

FTC: Tem algum(a) artista que admira muito?

Pedro Amparo, meu namorado. Músico, percussionista. Um artista incrível!

FTC: O que o Ladrilha trouxe de mais bacana para a sua vida até hoje?

Eu me ocupando de mim mesma e abrindo espaço pro mundo se ocupar de mim.

Para saber mais, acompanhe a Ladrilha pelo Instagram ou pelo Tumblr.

Imagens: divulgação. 

Mariana é jornalista e comunicadora. Adora descobrir novos lugares, explorar a cidade a pé e andar sem pressa. Se interessa por viagem, cultura e tudo o que é novidade. Escreve um blog sobre meio ambiente, sustentabilidade e consumo consciente. Também se dedica a cozinhar, como forma de prazer e arrisca novas receitas no tempo livre.

Mariana – já escreveu posts no Follow the Colours.


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