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Como uma reforma de 55 m² transformou um apartamento em um espaço funcional, colorido e cheio de personalidade

Lívia Polon comanda o Estúdio Cajueiro. É arquiteta formada na UFMG e trabalha na área há 7 anos, desenvolvendo consultorias, projetos de arquitetura, de reforma e interiores. Abaixo, Lívia contou para a gente um pouco sobre um projeto de reforma coloridíssimo de um apê de 55 m² para um casal no bairro Floresta em Belo Horizonte / MG. Confira!

“A conquista da primeira casa própria, um novo relacionamento, uma promoção no trabalho, um investimento, uma mudança de endereço, a vontade de investir na própria qualidade de vida… o que leva alguém a contratar uma arquiteta pela primeira vez?

Conheci Ivan por indicação de uma amiga da minha mãe, 3 anos atrás. Ele me procurou porque estava em busca de um imóvel para comprar. Me mandou vídeos de algumas opções perguntando minha opinião e assim tivemos algumas conversas sobre o assunto. Passados 2 anos desde o nosso primeiro contato, recebi uma nova mensagem dele: “comprei um apartamento!”.

Me surpreendi e fiquei muito feliz por ser lembrada. Nosso primeiro contato presencial foi na visita técnica de levantamento, e eu me surpreendi pela segunda vez pelo tamanho da simpatia e gentileza do Ivan e do seu companheiro Bruno. Fiz o levantamento sozinha, então passamos bastante tempo juntos e, entre medidas e perguntas objetivas de projeto, fomos nos conhecendo e contando mais das nossas histórias.

Ivan, um carioca morador de Belo Horizonte há mais de 25 anos, bailarino, budista e uma das figuras mais carismáticas que eu já conheci. A energia dele contagia todo mundo. Bruno, um cearense recém-chegado na capital mineira, stylist, produtor de moda e com olhar sempre atento aos detalhes. Super inteligente e focado, transmite a segurança de quem sonha sem tirar os pés do chão.

E eu, capixaba, filha de uma baiana com um cearense, que tinha saído na noite anterior de Vitória para mais um trabalho novo em BH. Era hora de ajudar a transformar mais um espaço, de realizar mais um sonho. É quase impossível fazer isso sem contar com certa empolgação e sem perder de vista o olhar técnico para analisar contextos e embasar as futuras decisões.

Detalhes do apartamento

O apartamento era antigo e já tinha recebido uma reforma anterior (cenário comum em Belo Horizonte), mas que não tinha nada a ver com o que o Ivan e o Bruno queriam e sabiam que precisavam: espaços mais funcionais, coloridos, que contemplassem os usos cotidianos mas que se abrissem também para os detalhes, os objetos, a luz do dia.

Uma casa onde fosse possível aproveitar ao máximo tudo que já existe, principalmente os móveis e planejados. O novo que coexiste com o antigo e transforma sem abrir mão do que já existe. A maioria das escolhas do projeto foram feitas sempre tendo em vista o máximo aproveitamento da estrutura anterior, que apesar de antiga estava em bom estado.

Prova disso foram os guarda-roupas de madeira dos quartos, que foram 100% aproveitados mas receberam nova pintura e novos puxadores. Pensando nisso, criei um projeto com intervenções de obra pontuais, mas que foram decisivas para alcançar um resultado satisfatório. Nos banheiros, fizemos a troca de alguns revestimentos, mantendo parte dos existentes.

Na cozinha, seguimos a mesma lógica e substituímos a bancada anterior, precária e subdimensionada, por uma maior com espaço para duas banquetas altas. Escolhemos revestir a nova bancada com pastilhas brancas e azulejos azuis, também presentes no banheiro da suíte. Assim foi possível dar destaque para a nova bancada, que sobrepõe o porcelanato preexistente, realçando a alma da cozinha. Parte da parede que dividia cozinha e sala também foi removida, ampliando a interação entre os dois espaços e aumentando a ventilação e iluminação natural.

Refletindo o estilo de vida dos moradores

No meio da casa, um ambiente que antes era apertado, feito para ser um escritório, foi dividido em dois para se tornar um roupeiro e uma sala individual de meditação. O que antes era um espaço mal aproveitado e sem possibilidade de uso efetivo, agora são dois cômodos que refletem o estilo de vida dos moradores.

A sala de meditação, também chamada de Gohonzon, se abre para a sala por uma divisória em cobogós de cerâmica e uma porta de correr em madeira natural. Um espaço que, ao invés de ser isolado, se revela no projeto como um dos corações da casa, já que é parte fundamental da prática espiritual e do dia a dia do Ivan.

O banco em concreto armado na sala e a iluminação com vários pontos e eletrodutos aparentes valorizam o layout aberto e multiplicam possibilidades para a disposição dos móveis, a maioria vindos da casa anterior do casal.

A paleta de cores variadas, marca do meu trabalho, é o fio condutor da harmonia entre ambientes. Produzir arquitetura a partir das cores sempre foi uma tarefa complexa e que vai na contramão da maioria das tendências contemporâneas. Quando os clientes gostam e se identificam com um projeto cheio de cores vivas, a satisfação é imensa em poder criar com mais autenticidade e pensar espaços que provocam emoções. Aplicar as cores de forma generosa e intencional é uma ferramenta de projeto, um ponto de partida capaz de mudar completamente a maneira que determinada pessoa enxerga um espaço, uma superfície, uma forma.

Dominar a teoria se mostra essencial para saber criar combinações, sugerir aplicações e, o mais difícil: transmitir sensações. No projeto do Ivan e do Bruno, o azul predominante é alegre e quente, bem saturado. Essa cor inspira a imaginação e ilumina em todos os períodos do dia. Um contraste super marcante com o terracota do corredor e do roupeiro, que aterra e estabiliza ao mesmo tempo que as listras que saem do teto para a parede conduzem o olhar e inspiram movimento.

No quarto de hóspedes um verde menos saturado cria uma atmosfera relaxante, que transmite conforto imediato.

Cores do projeto, o astral da casa

O azul vibrante da sala, também aparece no quarto da suíte, inclusive no rejunte do banheiro, trazendo uma cara totalmente nova para uma cerâmica branca que já estava ali.

O nicho da sala, espaço anteriormente ocupado por uma estante em madeira escura, ganhou um padrão que costura todas as cores do projeto numa trama única, cuidadosamente pensada para ser protagonista. Dois tons de azul e um verde representam cores análogas intercaladas pela complementar do azul, o terracota. Uma composição visual equilibrada, que surpreende e comunica o (alto) astral da casa.

É fato que em todo projeto, sempre nos deparamos com a distância entre o ideal e o possível de ser realizado. Saber criar essa ponte é um atributo que considero indispensável para uma boa entrega, que foi o que conseguimos aqui.

Cada solução foi pensada para caber (e também para expandir) a realidade dos clientes e, hoje, vendo eles preenchendo esse apartamento de vida, com seus objetos, suas memórias, seus gatos e suas identidades, consigo entender que o acesso à boa arquitetura é, por si só, um marco na vida de qualquer pessoa. É ela que dá sentido ao cotidiano, que produz qualidade de vida e permite que as relações aconteçam com mais saúde sob o mesmo teto.

Seja na costura de referências ou no balé das cores, o desenho de um projeto começa desde a primeira conversa e vai sendo materializado a várias mãos: na relação que vai sendo construída com os clientes, no cuidado com as revisões, na comunicação constante com os fornecedores envolvidos e no desejo de contar histórias por meio de espaços vivos e cheios de cor.”

Fotógrafo: Caio Veloso