A beleza florida criada pela artista plástica Aline Miguel, colore com brilhos luminosos o destaque de formas suntuosas e marcantes. Uma profundidade entre tintas, tecidos, estampas e arte explosiva.

Aline Miguel é designer gráfico do Rio de Janeiro, com especialização em design têxtil. A artista plástica já desenvolveu importantes trabalhos para clientes como Farm, Cantão, Redley, Maria Filó, entre outros.

Com especialização em estamparia, Aline também ministra cursos em instituições como Senac Rio e Pólo Criativo, além de criar fantásticas padronagens florais, transformando um simples tecido num verdadeiro Chitão, autêntico e único, deixando rastros inspiradores de sua expressão. As estampas, após serem criadas, são impressas diretamente em lona e pintadas por cima.

Neste trabalho específico que tem como tema as mulheres negras, as obras possuem uma alegria genuína e mostram através das cores, sua força para encarar a vida frente às lutas decorrentes das desigualdades sociais do cotidiano brasileiro.

A artista faz uma composição vibrante unindo arte, beleza feminina e cultura brasileira. O FTC teve o prazer de realizar uma entrevista com a artista, por isso, hoje compartilhamos com vocês um pouco sobre a conversa. Confira:

FTC: Gostaríamos que nos contasse um pouco sobre você e como chegou até às artes plásticas.

Aline: A arte sempre fez parte da minha vida. Desde pequena gostava de desenhar e entrei para o curso de desenho aos sete anos de idade. Ao longo dos anos, fiz aulas de diferentes técnicas de ilustração e pintura, como pintura à óleo, tinta acrílica, desenho de moda, ilustração publicitária, pastel seco, modelo vivo, carvão, stencil, grafitti, etc.

Aprendi com mestres como Amador Perez, Jack Endewetlt (NY), Sansão Pereira  e Renato Alarcão. No streetart, tive aulas com os artistas Bruno Big e Marcelo Ment. Meu trabalho nas artes plásticas alia duas paixões: a pintura de retrato e a criação de estampas.

FTC: Como surgiu a ideia de misturar as estampas de chita com pinturas de mulheres negras?

Aline: As mulheres negras e as estampas de chita sempre me despertaram especial interesse. As mulheres negras, pela sua beleza, força e alegria, e a chita pelo seu colorido vibrante e identidade marcante. Eu desenvolvia pintura das mulheres nas quais a chita aparecia somente como um complemento, um detalhe. Aos poucos, a chita e o retrato foram se fundindo e a estampa virou suporte do retrato.

FTC: Qual é a força existente entre o chitão e a mulher negra brasileira?

Aline: A estampa da chita e os negros possuem um passado entrelaçado. Os negros, quando chegaram ao Brasil, escravizados, foram os primeiros a tramar tecidos em teares rudimentares. As primeiras chitas produzidas no Brasil também foram estampadas pelas mãos dos negros através de carimbos de madeira.  Eles usavam as próprias roupas que confeccionavam.

Chita e negro foram estigmatizados. Chita e negro foram (e ainda são) alvos de preconceito. Chita e negro sobreviveram à exclusão e ganharam mais espaço no âmbito social. A chita foi parar nos principais desfiles de moda e os negros obtiveram uma maior representatividade nos espaços institucionais. Suas histórias foram um entrelace de luta, garra e conquista, e é a força deste enlace que busco transmitir em minhas obras.

FTC: O que deseja expressar, com este trabalho, especificamente?

Aline: Em minhas obras, desejo expressar a força das mulheres negras frente às lutas decorrentes do cotidiano brasileiro. As mulheres negras possuem um colorido de viver que se traduz visualmente nos florais da estamparia de chita.

“Ser negro é ser sobrevivente, saber viver a vida, saber ser diferente. É ter música no corpo e alegria na alma. Voltar às suas raízes quando a natureza chama”, conta a música “Ser Negro” do rapper Gutto Bantú.

FTC: Quais materiais você utiliza e qual deles mais gosta?

Aline: Utilizo diversos materiais, como hidrocor, lápis de cor, lápis de cera em papel, tinta acrílica, cola, tesoura, caneta Posca, tecidos de chita etc. No caso de criação da estampa exclusiva, também faço uso de alguns programas gráficos (no computador) para me auxiliar. Não tenho nenhuma preferência específica, adoro trabalhar com todos.

FTC: Como é o seu processo criativo?

Aline: Meu processo criativo tem como base uma pesquisa de referências visuais e de conteúdo. No caso do desenvolvimento de uma estampa exclusiva, crio a estampa inspirada na chita, imprimo diretamente no canvas (na tela) e pinto por cima. No caso do uso do próprio tecido original de chita, eu a aplico no canvas e pinto.

FTC: Em que você se inspira?

Aline: Eu costumo dizer para os meus alunos de estamparia que a inspiração está em todos os lugares, desde um desenho em um guardanapo até um grafitti na parede. Basta estar atento.

FTC: Qual é a influência das cores nas suas criações?

Aline: As cores são responsáveis por enriquecer as pinturas. Elas são a característica marcante da estamparia de chita. Elas podem usadas de forma mais tradicional (vermelho, amarelo, azul e verde) ou em releituras com o espectro cromático ampliado.

FTC: O que é arte para você e o que poderia nos dizer sobre a sua arte?

Aline: A arte, para mim, é um veículo de expressão. Em meus trabalhos, procuro expressar a força e luta das mulheres negras frente aos desafios do cotidiano.

FTC: Cite 5 coisas que não consegue viver sem.  

Aline: Amor, alegria, carinho, criatividade e fé.

FTC: Uma frase que te representa?

Aline: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” – de Fernando Pessoa.

FTC: Um filme, uma música e um livro que poderiam lhe representar.

Aline: É difícil fazer escolhas de coisas que me representem… Mas posso citar opções que gosto e recomendo. Filme: “Um sonho de Liberdade” (do diretor Frank Darabont) / Música: “Ubiero” do cantor queniano Ayub Ogada / Livro: “O Império do Efêmero” de Gilles Lipovetsky.

Com abertura prevista para o dia 17 de janeiro de 2017, Aline irá participar de uma exposição coletiva no Hotel Modernistas, em Santa Tereza, Rio de Janeiro. Vale a pena a visita!

Acompanhe o trabalho de Aline Miguel através do site da artista, Instagram e confira mais de suas obras no Behance.

Viciada em açúcar, Marina Gallegani é movida pelas forças da natureza e tem fome de liberdade. Jornalista, escritora e fotógrafa amadora, se entrega às cores da vida e sonha com viagens ao redor do mundo. Em constante reconstrução, acredita ser eterna e tem a certeza de que o sorvete é uma das fórmulas da felicidade.

Marina Gallegani – já escreveu posts no Follow the Colours.


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