“Meu trabalho não é nada excepcional, mas sou autista e posso ajudar a inspirar outros como eu a não terem medo”. Foi assim que demos início a conversa com Lu W, uma artista brasileira de Foz do Iguaçu, Paraná, diagnosticada com Síndrome de Aspenger, um tipo de autismo leve.

“Eu sou asperger, um leve grau de autismo, e a melhor definição seria: sou uma deficiente social. E assim como todos os meus companheiros ‘aspies’ tenho algumas peculiaridades, socializar não é meu forte, minhas tentativas pra me encaixar no padrão ‘agradável’ sempre foram desastrosas. Eu tenho extrema dificuldade de entender nas entrelinhas, piadas, sarcasmo, questões emocionais. Pra sorrir preciso de um motivo, preciso de horas de isolamento pra me refazer. Sou hipersensível a barulhos e sons repetitivos e minha mente não para de produzir nem quando eu durmo” – disse Lu W ao Projeto Curadoria.

Lu conta que em sua casa sempre havia alguns livros de arte e revistas de decoração que ela adorava folhear quando tinha 7 anos, então acredita que seu senso de estética começou ai. “Eu era a pior aluna de educação artística. Eu fiquei de recuperação nessa matéria, e quando saí da escola não queria fazer faculdade porque nada me atraia, e procurei um curso de desenho pra passar o tempo”. 

Era uma sala dinâmica com muitas mulheres desenhando e pintando juntas. Estar nesse ambiente criativo sentindo o cheiro da tinta, ouvindo as explicações, aprendendo a enxergar os objetos a fez entender que aquele não era um novo mundo, era o seu mundo. “Parecia que eu só tinha nascido no lugar errado, mas achei o caminho pra casa”. 

Lu ficou no curso por 1 mês, porque lá encontrava todas as respostas que estava buscando. Então, comprou livros que ensinavam a ler a arte e começou a transcrevê-la. Foi nesse momento que sua mente expandiu. Começou a entender muito sobre ela mesma e sobre o mundo. “Eu entendi que estar isolada é minha casa, que a obsessão é meu alimento. Eu entendi como outros pintores aspergers com eu pensavam e desenvolviam”. Isso há aproximadamente 19 anos. Nunca mais parou.

Ao contrário do que ocorre no autismo, as pessoas com Asperger não apresentam grandes atrasos no desenvolvimento e nem sofrem com comprometimento cognitivo grave. Essas pessoas costumam escolher temas de interesse, que podem ser únicos por longos períodos de tempo – quando gostam do tema “dinossauros”, por exemplo, falam repetidamente nesse assunto. Habilidades incomuns, como memorização de sequências matemáticas ou de mapas, são bastante presentes em pessoas com a síndrome.

“Quando eu entendi isso descobri que sabia pintar, e que meu cérebro tem uma programação mental diferente, e toda vez que eu consigo traduzir a linguagem das pessoas pra minha linguagem, eu sou bem sucedida. Sou distante e gélida e cheia de obsessões que me alimentam e me mantém viva. E uma delas é resolver problemas, ou, arrumar o que está fora do lugar e melhorar o que falta. Dá pra chamar isso de design? Se sim, eu também sou designer”.

Conversamos mais com Lu W para saber um pouco mais sobre suas inspirações, confira entrevista exclusiva e conheça a sua arte única:

FTC: Pelo visto, superfícies ou materiais não é um problema! Quais os materiais que mais utiliza?

Glitter, spray e tinta acrílica basicamente. Dependendo da superfície tem que ser outra tinta mas esses 3 elementos sou eu.

FTC: Qual a influência das cores nos seus trabalhos?

Depende do trabalho, do que o cliente pede ou do ambiente onde vai a pintura, mas eu tenho uma queda por metálicos, cores escuras. Minha influência vem diretamente da moda.

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte?

Arte é uma parte de mim, é como respirar, uma necessidade vital. Eu defino como dois extremos, beleza e decadência.

FTC: Com o que você se inspira?

Eu tenho atração por brilhos e por qualquer coisa que reflita luz, e a ação do tempo nas coisas, desde uma parede com mancha de infiltração, até grafites e lambe lambe antigos.

FTC: Uma frase que resume muito o seu trabalho;

Eu não faço ideia. Um expectador pode falar melhor. Eu estou atrás das cortinas trabalhando pra formar uma imagem como ela deve ser naquele momento e todas elas tem personalidades diferentes.

“Não tenha medo. Vocês são artistas e podem fazer o que querem, sem drama, sem limites. É isso” – Lu W.

Sim Lu W, seu trabalho é sim excepcional.

Acompanhe Lu W e seu trabalho no Instagram.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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