O Projeto Curadoria, que já entrevistou artistas de 20 países diferentes, traz histórias de mulheres que venceram seus desafios criativos. Confira! 

Soraya Matos

A ideia surgiu durante uma viagem para Bali, na Indonésia, na virada dos 30 anos de Nini Ferrari, artista multidisciplinar. Vivendo como nômade digital, ela buscava preencher suas próprias lacunas. Foi quando descobriu que suas dúvidas eram compartilhadas por mulheres do mundo todo. Desde a busca por inspiração em diferentes aspectos de suas vidas pessoais até a execução única e experimental que as tornaram notáveis em suas áreas de atuação.

Assim surgia o Projeto Curadoriacom o propósito de compartilhar histórias reais de mulheres que se dedicam às artes visuais e manuais. Uma forma de gerar conexão, inspiração, autoconhecimento, acolhimento e empoderamento através da exposição de processos criativos e histórias sinceras de quem enfrentou seus medos e inseguranças. “Curadoria é um substantivo feminino. Um ato de cuidado, de zelo e atenção às histórias de mulheres que se dedicam à vidas criativas” –  diz Nini.

Por meio de entrevistas, desenha-se um retrato de novas cenas criativas no Brasil e no mundo. As brasileiras Nina Pandolfo, Calu Fontes, Criola e as integrantes do Clube do Bordado são algumas das entrevistadas. A meta é chegar a 365 entrevistas até o final de 2017. A ideia é tirar a artista do pedestal e mostrar que nem sempre é fácil abrir o coração e se expor para um trabalho comercial.

Nini Ferrari

O PROJETO CURADORIA VAI VIRAR LIVRO

Após um imenso sucesso nas redes sociais, as histórias do Projeto Curadoria também serão impressas em um livro que está em financiamento coletivo no Catarse, junto com a reta final das entrevistas de 2017.

“Gosto de brincar com a palavra (Cura)doria, e pensar que esse é também um espaço de ‘cura’, de cuidado e acolhimento, seja para mim, para quem está contando a própria história ou para quem está lendo.” completa Nini.

E como é sentir-se dessa maneira? Pensando nisso, foi a nossa vez de entrevistar a entrevistadora. Com vocês, Nini Ferrari!

Franciane Bourscheidt

ENTREVISTA COM NINI FERRARI – PROJETO CURADORIA

FTC: Nini, explica melhor como surgiu a ideia do Projeto Curadoria? 

Eu sempre fui uma pessoa muito ligada a criatividade, já trabalhei com artes manuais, com moda, com fotografia, com joalheria, design e ilustração. Mudei muitas vezes minha área de atuação, mas sempre com a criatividade como pano de fundo, pois sou apaixonada por todo esse universo artístico e criativo desde criança.

Há mais ou menos 4 anos, eu e meu marido acabamos nos tornando nômades, foi meio por acaso, e essa é uma longa história. Resumindo, nós queríamos morar em Londres, mas muitas coisas aconteceram no meio do caminho e quando vimos já tínhamos passado pelos Estados Unidos, Europa e Ásia. Foi uma experiência incrível, mas de alguma forma ela também me trouxe muitos questionamentos sobre meu propósito, meu processo criativo, meus medos, minhas inseguranças e até o que eu precisava para ser feliz.

Em meio a esse processo de autoconhecimento, embarcamos para nossa última temporada nômade, no Sudeste Asiático, onde essa busca sobre mim mesma continuaria. Foi então, que próximo ao meu aniversário de 30 anos, quando estávamos em Bali, surgiu a ideia de procurar outras mulheres como eu, que se expressam através das artes visuais e manuais, para tentar entender uma série de coisas através das minhas perguntas para elas. A ideia surgiu meio do nada, mas a partir daquele momento, eu sabia que tinha que colocar em prática. Foi um pouco como no livro Grande Magia, da Elizabeth Gilbert, onde ela diz que ideias existem como uma entidade em busca de alguém para colocá-las no mundo.

Cristina Pagnoncelli e Cyla Costa

FTC: Qual foi a sua primeira entrevistada e por que?

Do momento em que tive a ideia de realizar esse projeto, na metade de Outubro de 2016, até a data em que ele foi ao ar foram poucos meses, então não tive muito tempo de planejamento. Em Dezembro de 2016 fiz os primeiros convites para uma série de artistas que eu já acompanhava, torcendo para que elas me respondessem e com um prazo bem apertado para conseguir ter tudo pronto até o dia 01 de janeiro de 2017, então a primeira entrevista publicada não foi exatamente por uma questão de escolha pessoal, aconteceu. E acredito que aconteceu como deveria acontecer.

Kalina Juzwiak

A primeira a aceitar o meu convite foi a Kalina Juzwiak, mas a primeira a ser publicada foi a Manu Cunhas, e essa escolha foi pela minha identificação com o seu projeto chamado Outras Meninas, onde através de ilustrações em aquarela ela retrata a complexa relação da mulher com seu próprio corpo, baseada em relatos enviados para ela. Achei que, de alguma forma, o Outras Meninas tinha muito a ver com a proposta do meu projeto também.

Para ser bem sincera, a primeira entrevista que eu gostaria de ter publicado ainda não foi ao ar. Algumas pessoas sentem um pouco de dificuldade na hora de responder as minhas perguntas, e acho isso totalmente compreensivo, já que eu mesma me questiono sobre praticamente todas elas até hoje, e foi isso o que aconteceu com a artista que eu havia escolhido para estrear o projeto.

Nadiuska Furtado e Priscilla Furtado

FTC: Qual o critério utilizado para realizar a curadoria das artistas? 

Como o projeto surgiu com o propósito de preencher as minhas próprias lacunas – e eu não tenho nenhum conhecimento prévio de curadoria ou jornalismo – a escolha das participantes acaba sendo de uma maneira muito pessoal e orgânica. Normalmente eu escolho mulheres que me sinto conectada de alguma forma, seja pela expressão visual ou pela história dela.

As primeiras convidadas à participar do projeto, já eram mulheres que eu acompanhava e admirava, e a partir daí, uma rede começou a se formar muito naturalmente. Tanto as entrevistadas quanto as leitoras, passaram a me indicar outras artistas, e também passei a receber muitas mensagens de mulheres que gostariam de participar. No fim, acabei criando uma área de inscrições no site e passei a conhecer novas artistas por ali também.

Verônica Alves 

FTC: A quê você atribui a autenticidade do trabalho? 

Eu acredito que quando fazemos algo para nós mesmas, pelo simples motivo de que isso nos fará bem, a energia envolvida acaba sendo muito verdadeira, autêntica. A ideia de fazer esse projeto surgiu assim, de uma maneira muito espontânea, sem muito planejamento, realmente como uma busca pessoal. Para falar a verdade, eu não fazia a menor ideia do trabalho que teria pela frente, e que 365 pessoas é um número enorme.

Ao longo do projeto também fui percebendo que muitas das mulheres participantes viram nas perguntas apresentadas algo muito além do que uma simples entrevista, pois muitas perguntas são sobre elas mesmas e não sobre a arte que produzem. Grande parte delas resolveu se abrir sobre assuntos que nunca haviam falado abertamente antes, como superação de momentos difíceis, depressões, crises e inseguranças.

A partir daí, percebi que o projeto era muito mais sobre pessoas e suas histórias do que sobre criatividade, e passei a brincar com a palavra (cura)doria, imaginando que o projeto é também sobre cura, superação e acolhimento, e isso o torna ainda mais especial e autêntico para mim.

Naia Cheschin

FTC: O que você deseja passar para o público?

Inspiração! Em todos os sentidos… Eu percebi que sou uma pessoa que estou sempre em busca de inspiração. Eu me inspiro através de imagens, experiências, lugares e pessoas e isso é uma coisa vital para mim. Assim como preciso de inspiração para viver, também sinto uma vontade enorme de inspirar outras pessoas, e através do Projeto Curadoria isso foi possível de diversas maneiras.

Alguns se sentem inspirados através das histórias que leem, outros através do processo criativo da artista, ou mesmo através das imagens apresentadas em cada entrevista. Ao longo do ano, eu passei a receber mensagens de mulheres dizendo que começaram a desenhar ou voltaram a criar inspiradas nas histórias que estavam lendo e me agradecendo por divulgar tantas artistas.

Então com certeza esse projeto não foi feito só para mim, ele foi feito para inspirar e motivar centenas de pessoas que estão por ai em busca de respostas, para perguntas que nem sempre possuem uma resposta. As vezes precisamos apenas de um empurrão.

Karen Dolorez

FTC: Qual tem sido o maior aprendizado desde o nascimento do Projeto? 

Foram tantos aprendizados, que tenho a sensação de que a Nini que começou o Projeto Curadoria já não existe mais, sou uma pessoa nova. Talvez eu ainda não tenha achado minhas próprias respostas para as perguntas que faço, mas definitivamente aprendi a ser uma pessoa mais paciente, mais corajosa, menos controladora, menos perfeccionista, mais motivada e comprometida. É engraçado pensar nisso, porque até o meu traço na hora de desenhar mudou, ele está muito mais leve e despreocupado.

Ju Amora 

FTC: Tem alguma história de alguma entrevistada que te marcou?

Nossa, é realmente impossível escolher apenas uma… Eu diria que todas as histórias que geram alguma identificação com a minha própria história me tocam de alguma forma, e no geral isso acontece com todo mundo, nos conectamos através da identificação.

No início eu chorava e me emocionava lendo praticamente todas as entrevistas que recebia, pois estava passando por um momento em que me sentia muito sozinha, e ao encontrar outras pessoas que se expressam ou se sentem como eu, era como a resposta do Universo me dizendo: você não está sozinha!

Para citar algumas que foram marcantes: Andrea TolainiJu AmoraDenise ZinettiMari KuroyamaEstela MiazziVerônica AlvesEricaMizutaniCriolaAzuhliCamila FonteneleHanna LucatelliGabrielaStragliotto, as integrantes do Clube do Bordado… e tantas outras!

Erica Mizutani

Criola 

FTC: Nos conte um pouco mais sobre o lançamento do livro.

Como sou uma pessoa muito visual, imaginava que esse projeto poderia virar um grande livro de inspirações com obras das 365 artistas. Porém, quando percebi que o projeto era muito mais sobre histórias inspiradoras, decidi que iria escrever um livro contando a minha própria história e as histórias de 100 dessas mulheres que participaram do projeto e me inspiraram de alguma forma especial.

Esse ano eu aprendi muito sobre o poder transformador de uma história. Muitas vezes não damos muito valor para nossas próprias experiências, mas quando contamos sobre elas para outras pessoas, elas ganham uma outra proporção e podem ser a inspiração necessária para quem está recebendo a mensagem naquele momento.

Mas claro que eu não poderia deixar a arte de lado, pois foi por conta dela que tudo começou, então cada umas dessas 100 participantes, também terá uma arte sua impressa nas páginas do livro. Para viabilizar a produção do livro, estamos com uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse. Na página da campanha, vocês podem conferir um vídeo onde conto um pouco mais sobre essa trajetória, e para quem apoiar, além do livro como uma das recompensas, tem também artes de algumas das artistas que estarão no livro.

Moara Brasil

 FTC: Tem uma frase que resume o Projeto Curadoria?

Tem uma palavra grega que aprendi na entrevista da Amanda Roosevelt, que acho que tem tudo a ver com o projeto: “Meraki – fazer algo com alma, criatividade ou amor”. No fim, todas as entrevistas acabam falando sobre isso.

Julia Fontes 

FTC: E agora, o que vem pela frente?

Bom, ainda estou na reta final das entrevistas, que devem ser finalizadas no dia 31 de Dezembro de 2017 e estou empenhada em atingir a meta do financiamento coletivo para realmente poder publicar o livro sobre o Projeto Curadoria.

Com o livro pronto, além de algum evento de lançamento, tenho muita vontade de transformar o projeto em uma exposição, uma série de vídeos e palestrar. Na verdade, ideias não me faltam, mas para a maioria delas preciso de investimento financeiro, por isso também busco por empresas que queiram patrocinar o projeto.

Giselle Quinto

Calu Fontes

“Tenho recebido mensagens de leitoras que dizem que voltaram a desenhar ou a criar inspiradas nas histórias que estão lendo no Projeto Curadoria, me agradecendo pelo espaço que criei para a divulgação do trabalho de tantas mulheres e pelo incentivo que tenho promovido, como uma dose diária de motivação”, explica Nini.

Andréa Tolaini

Amanda Mol 

Leia todas as entrevistas no site do Projeto Curadoria! Acompanhe nas redes sociais: Instagram / Facebook. Apoie o financiamento coletivo e ganhe recompensas!

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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