Ela nasceu e cresceu em Belém, no coração da Amazônia. Desde pequena estudou a sua região, a natureza que a cercava, a bacia hidrográfica, sabia os rios e afluentes, as lendas indígenas e até pode se fascinar in loco pelas comunidades tradicionais nas vilas ribeirinhas em ilhas próximas (ribeirinho é o povo que vive na beira do rio da pesca, caça e coleta). Dançava nas apresentações da escola os ritmos regionais como carimbó, lundu e siriá. Fora a comida típica, que sempre foi uma imersão – tantas frutas que até hoje não conseguiu experimentar todas.

Belém sempre foi um ponto fora da curva para Naisha Cardoso. Suas experiências na cidade sempre foram intensas, já que lá tudo é muito forte e diferente. “As pessoas até hoje se agrupam e vivem segundo a lógica dos ancestrais indígenas. Somos acolhedores, a maior honra que um paraense pode dar é oferecer um almoço típico na sua casa para um convidado. Não pode faltar açaí servido na cuia, com peixe e carnes (a base da alimentação da região). Não conseguiria traçar um paralelo com outros lugares”.

Naisha sempre achou que tudo isso causava um misto desconfortável de paixão e inquietude em sua mente. Como traduzir sua terra natal? “Em Belém somos hiperestimulados por sabores, cores, ritmos, calor intenso o ano todo. Quando comecei com 7 anos a fazer pequenos adornos na escola já sentia intuitivamente que essa era a estória que eu queria contar e levar pra todos os lugares que fosse na vida. Ainda insisti em outro percurso (sou formada em direito), mas nunca deixei de fazer os acessórios que em 2004 denominei Objetos com Personalidade”.

A designer e artista conta que ainda criança olhava fotos de joias tentando entender como eram feitas e sentia uma enorme curiosidade por qualquer material novo. “A primeira vez que vi um colar de murano da minha mãe fiquei encantada com as cores profundas dos vidros.” Ela se interessou pela joalheria para valer quando cursava Direito na Universidade da Amazônia. Com o diploma em mãos, partiu pros estudos de ourivesaria, primeiro no Rio de Janeiro, depois São Paulo e Brasília.

Em 2007, abraçou a ideia de vez e abriu sua primeira loja física com peças únicas, feitas artesanalmente. Mas em 2009, foi para Veneza — berço do Murano — e desde então o vidro soprado mesclado com pedras brasileiras virou sua marca registrada“Estive os últimos 7 anos morando fora, retornei há pouco à Belém e esse olhar estrangeiro e ao mesmo tempo de pertencimento para com a cidade natal me deu a distancia necessária (física e metafórica) para criar a coleção atual: Raízes.”

Hoje, a artista é mestre em dar vida à coleções fantásticas de joias e acessórios que fogem do comum. Suas peças cheias de brasilidade misturam gotas e outras formas em murano, pedras, ourivesaria, artesania e muito talento. É difícil definir o seu estilo. Seus adornos são arte e sua linguagem visual. Eles resgatam a sua bela Amazônia, a alegria de seu povo, além de expressar todas as cores, sabores e elementos da cultura que fazem de Belém um lugar único no Brasil.

Para entender um pouco mais sobre suas criações e inspirações, confira entrevista exclusiva que fizemos com a artista:

“No decorrer do tubo de murano há o patchouli in natura encapsulado com fio de prata. Eles fazem menção ao terroir, ao enraizamento, ao pertencimento, a ligação com o lugar de origem e os conhecimentos tradicionais. Na parte inferior do tubo eles se transformam em uma sequência de pérolas de água doce. Elas recontam o rio, simbolizando a importância dele na cidade das águas, como é conhecida Belém.”

FTC: Há quanto tempo cria e quais materiais/principais utiliza?

Crio desde criança, mas com a ciência de ser uma marca autoral e ter compromisso com identidade, desde 2004. Sempre pautei principalmente o murano (vidro italiano) como marca visual, junto com ele pedras brasileiras, gemas, porcelana e metais preciosos.

FTC: Qual foi sua primeira peça e o que ela hoje representa para você?

A primeira peça relevante, quando senti o soco no estômago “posso me comunicar através disso”, foi um reaproveitamento de gotas com água dentro vindas de um lustre do meu quarto de criança. Eu era louca por aquilo, mas não tinha me dado conta até então que aquelas eram as gotas da chuva. Assim nasceu a coleção Chuva das 4, com a gota Temporal, Toró e a Chuvisco, sobre este particular ciclo de chuvas na Amazônia. E desde então crio gotas de murano sempre, adaptadas ao argumento de cada coleção.

Colar Continuum: feitos em prata esterlina e miniaturas de vasos da ilha de Murano, Veneza;

FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte? Com o que você se inspira?

Arte pra mim é o principal meio de sublimação da realidade. Muitas vezes eu preciso fazer uma coleção pra “falar” de algum tema. Algo que me deixa inquieta, desconfortável mas não sei explicar ou me deslumbra pela sua beleza. Você pode ser marginal, rebelde, escrever belas críticas a sociedade diluídas em uma boa dose de arte. Ela pode ser inclusive agente diplomático. A arte tem a prerrogativa de entrar onde a palavra é proibida e comunicar do mesmo jeito.

Esse recurso da arte na joalheria pra mim é irresistível, afinal a joia é uma ferramenta de comunicação das mais poderosas através dos tempos, uma vez que comunica por símbolos. Ela pode ser tão crítica quanto bela, e essa beleza pode ser tanto renascentista quanto abstrata. O importante é que ela comova, que evoque emoções, que fale sobretudo de questões do seu tempo, do seu território (conceito do “kaiseki”- devemos representar a área em que moramos).

Equilíbrio fala sobre deixar ser o que se é. É naturalidade das formas caóticas. Colar feito em druza, pirita, turmalinas, pérolas e prata esterlina;

Você pode fugir de certos assuntos no dia a dia, mas quando a coisa é posta de forma lúdica é possível lidar, enfim sublimar. Por isso precisamos de muito mais arte! Os Objetos com Personalidade são formas de expressão pra mim, sempre estiveram relacionados a algo que me move, por mais que eu não compreenda (e quando é assim geralmente é quando gosto mais do resultado).

No decorrer do desenvolvimento de uma coleção eu também me transformo enquanto executo as joias. É um exercício de gestalt para mim. Eu faço certas coleções pois preciso fazer, pesquisar, executar aquele tema e todas as difíceis questões periféricas envolvidas, para me compreender melhor como indivíduo.

FTC: Consegue citar 5 sites que gosta muito, um livro e um filme?

Filme: Fellini 8 1/2, Federico Fellini. Livro: Assim Falava Zaratustra (Nietzsche). Sites:Aquí Me QuedoVenice Original, Italia per amore, Imdb e o FTC.

FTC: Uma frase que resume esse seu momento e suas criações;

“(…) e sa perché io mangio solo radici? Perché  le radici sono importanti.” – E sabe porquê eu como apenas raízes? Porque raízes são importantes – Trecho do filme La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino.

As coloridas gotas de Naisha Cardoso feitas em murano são marca registrada de seu trabalho;

Anel em prata de lei, quartzo com incrustação de dendritas (plantinhas que ficam fossilizadas na pedra), druza e granada;

Joia desenvolvida com grãos de café;

Vale a pena acompanhar o fantástico trabalho de Naisha Cardoso e seus objetos com personalidade em seu site, Facebook e Instagram.

Imagens: Rafael Tomazi e Divulgação.

Carol T. Moré é editora do Follow the Colours. Cores, internet, design, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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