O artista, que nunca revela sua identidade, trabalhou durante quatro meses em um mural que ocupa 13 andares de um prédio da República, região central de São Paulo

No centro de São Paulo, no bairro da República, um novo mural gigantesco, representando um menino comendo rosas em meio a um mar de espinhos, já pode ser visto pelos transeuntes. Ocupando 13 andares de um edifício alto e medindo 45m x 45m, o mural surge sobre o tráfego diário da Avenida Rio Branco e pode ser visto a mais de um quilômetro de distância. Durante quatro meses, quando havia luz do dia, um artista solitário e mascarado se perdia em meio à sua pintura gigantesca. Para os desinformados, seu nome é BiP, um grafiteiro americano que, apesar de nunca ter revelado sua identidade, acumulou mais de 27.000 seguidores no Instagram e criou obras monumentais em todo o mundo, incluindo Estados Unidos, Rússia, Chile, China, Canadá, Argentina, Peru e Colômbia.

Para BiP, este trabalho tem um significado especial. “Eu sinto que os murais que eu crio para o público devem refletir nossas vidas. Nossas vidas não são apenas sobre comer rosas, mas sobre comer rosas em meio a um mar de espinhos.” disse ele em entrevista exclusiva para a Sherlock Communications.

Se isso parece estranho comparado a qualquer mural que você tenha visto antes, saiba que essa característica pode muito bem ser a fonte da popularidade do BiP. Em menos de uma década, BiP se tornou um muralista bastante conhecido na América do Norte. Combinando uma mistura de cores sutis e de tirar o fôlego com um conceito inovador, BiP cria peças de rua de qualidade, com ênfase em temas humanistas e da classe trabalhadora. Simultaneamente instigantes e bem-humoradas, as peças da BiP são conhecidas por atrapalhar o tráfego em cidades como São Francisco, na Califórnia, onde BiP acumulou uma série de grandes edifícios impossíveis de serem perdidos pelos visitantes.

Imagem esquerda: Rafael Roncato/Folhapress

Apesar dessa produção prolífica, no entanto, BiP é fotografado apenas usando uma máscara e, quando gravado, modifica sua voz. “Eu não quero que as pessoas me tratem de maneira diferente porque sou um artista famoso”, explica ele. “Isso seria algo que me separaria do público e me deixaria muito triste.”

Talvez como uma prova da ampla variedade de perspectivas que o trabalho do BiP abrange, sua arte é eclética e imprevisível – incluindo grafites pequenos ou grandes, mashups fotográficos, referências à cultura pop, ou mesmo frases, que juntando suas localizações no mapa com um traço formam a palavra “BiP” a partir de uma vista aérea.

Em um esforço para celebrar os ambientes em que trabalha, BiP frequentemente usa pessoas locais como modelos para seu trabalho. O mural que ele finalizou em São Paulo é, de fato, inspirado em um menino de 10 anos de Corinthias-Itaquera, Dudu Alves, que faz performances de rua imitando Michael Jackson na Praça da República e na Avenida Paulista e que já se apresentou no palco aberto da FIESP. BiP selecionou Dudu com base em seu caráter e carisma únicos. “Apesar de ter vindo de um passado de classe trabalhadora sem luxo, Dudu dança melhor que muitos adultos com o dobro de sua idade e com educação profissional. Eu amo isso. Eu acho que isso diz muito sobre sua comunidade e seu trabalho árduo”.

Embora a maioria do trabalho do BiP seja público, ele raramente ganha dinheiro com murais. A principal fonte de renda da BiP como artista é a venda de suas telas, que frequentemente são vendidas por mais de US$ 10.000 e compradas por atletas profissionais e celebridades, bem como por empresas de tecnologia como a Google. Segundo o BiP, São Paulo tem potencial para se tornar, no futuro, a capital do graffiti do mundo. “Em poucos anos, o graffiti se tornará uma arte tão apreciada quanto os quadros, e São Paulo provavelmente será reconhecido como o centro dela. Eu me sinto sortudo de ter a chance de dar uma pequena contribuição para a importante história que está acontecendo aqui, e espero que o povo de São Paulo aprecie meu trabalho”.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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