A surpresa que temos ao conhecer o universo dos desenhos de María Luque seria como a que teve Gulliver, personagem principal do livro “Viagens de Gulliver”, ao se ver no mundo fantástico e fascinante dos pequeninos habitantes de Lilliput, ilha onde foi parar após um naufrágio. E, assim como o “gigante” Gulliver ficou a princípio refém daqueles seres minúsculos do romance de 1726, somos literalmente capturados tanto pela preciosidade quanto pelos pequenos personagens e detalhes de cada historieta criada por essa artista argentina natural de Rosario.

“Dice Hockney que apenas empieza la primavera se puede ver un verde muy palido que solo dura unos diez días” (Hockney disse que assim que começa a primavera se pode ver um verde muito pálido que dura somente uns dez dias)

INFINITAS POSSIBILIDADES PARA CENAS MINÚSCULAS 

A redução extrema das dimensões de cada cena cotidiana e caseira traçada meticulosamente por María Luque abre um leque de infinitas interpretações para o observador. Aqui, cada um pode eleger o enredo que preferir para os recortes do cotidiano desses pequenos seres!

Cada uma dessas cenas apresenta tanta riqueza de elementos, detalhes e cores que são capazes de nos deixar simplesmente enfeitiçados diante desse mundo fantástico. E, para não perder nenhum detalhe de seus desenhos, a artista leva o observador a se aproximar ao máximo dele, fazendo com que ele quase esteja “espiando pelo buraco da fechadura”, inclusive cerrando levemente os olhos, para poder aguçar sua visão e captar melhor o espetáculo minucioso que tem diante de si.

CORES VIVAS, SUTILEZA E PRAZER DE EXISTIR

A paleta de cores vivas e intensas, os traços precisos e fortes são um contraponto à sutileza e fragilidade dos personagens, objetos e animais de María Luque. Tudo nesse universo desenhado parece se mover em um ritmo único, como se o tempo de cada um desses microcosmos passasse mais devagar e que o prazer de simplesmente existir em cada historieta fosse a sua lei fundamental.

“Durante un tiempo Lacan fue dueño del origen del mundo de Courbet” (Durante um tempo Lacan foi dono da origem do mundo de Coubert)

Cada elemento componente dessas histórias tem uma áurea única – o que permite que qualquer objeto banal se transforme em um pequeno espetáculo em si. “Gosto de desenhar momentos perdidos de um dia comum, como estar lendo em uma cama ou desenhando em uma mesa. Adoro prestar atenção aos objetos que estão nas casas dos outros, nas coisas que estão penduradas nas paredes ou nas estantes. Acho que tudo isso junto vai formando uma coleção que deixa entrever a personalidade dos seus donos”, afirma María Luque, uma observadora confessa.

“Nos sentamos a ver la fiesta desde un sillón” (Nos sentamos para ver de uma poltrona a festa)

A riqueza de cada recorte da realidade que Luque reproduz traz uma diversidade de influências absorvidas de diferentes culturas: indo desde a mitologia grega até as culturas americana, africana, europeia e russa, além de motivos da história da arte – sua paixão confessa. Retratando essencialmente o interior das casas de suas personagens, a artista faz referências imediatas também a mestres pintores como Picasso e Matisse.

O ESPAÇO DELICADO PARA GOZO FEMININO 

O espaço interior tão rico em detalhes e delicadezas composto de quadros, instrumentos musicais, livros, animais e tapeçarias permite que as personagens, predominantemente femininas, gozem de sua sexualidade de forma natural e sem pudor. Além disso, María Luque é uma das poucas desenhistas argentinas a retratar mulheres negras. E quanto ao seu gosto em desenhar pessoas, ela afirma: “Gosto de desenhar todo tipo de pessoas, sempre, desde pequena. Muitas vezes são pessoas que conheço, outras vezes eu as imagino”.

“Nuestra cama en el museo” (Nossa cama no museu)

Em 2017, a Feira do Livro de Guadalajara (México), a maior feira editorial da Ibero-América, reconheceu o talento de María Luque com o prêmio de novela gráfica por “Casa transparente” (2017) – sua segunda novela gráfica publicada e que trata de um registro autobiográfico em que conta uma experiência anos atrás enquanto tomava conta das casas de amigos quando esses não estavam.

Permitir que todas as histórias possíveis possam ser contadas através dos recortes do cotidiano faz com as historietas de María Luque pareçam ainda mais fantásticas, instigantes e infinitas. Aqui, sempre há espaço para mais um “causo”, não havendo pressa e muito menos tempo ruim nesse universo particular. Aliás, em se tratando de tempo ruim, se não desenhasse, a artista gostaria de ser meteoróloga e fazer previsões do tempo pela rádio.

Você pode acompanhar o lindo trabalho de María Luque em seu site, Facebook e Instagram!

Todas as fotos foram gentilmente cedidas pela artista.

Renata Martins é brasileira, mas vive transitando de um lugar para outro: São Paulo, Frankfurt, Buenos Aires, Berlin, Bonn. Escreve e pensa sobre arte, cultura e sociedade; bola e organiza mostras de arte; traduz e reinterpreta o que cai na sua mão.

Renata Martins – já escreveu posts no Follow the Colours.


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