A ilustradora holandesa Simone Golob fala sobre ilustração, mudanças climáticas e comenta sobre seu processo criativo dentro do tema

 

Há alguns anos, a ilustradora holandesa Simone Golob assistiu à ‘Terra’, um documentário de Yann Arthus-Bertrand e Michael Pitiot sobre a extraordinária biodiversidade da Terra e como os humanos exploram e desrespeitam os outros habitantes do planeta. Chocada e decepcionada com o que aprendeu, Golob processou a informação da melhor maneira que conhecia, desenhando.

Representação da Ganância Americana

“Essa imagem de um homem comendo o globo não é um trabalho encomendado, é uma obra pessoal nascida desses momentos, como assistir ‘Terra’, em que fui surpreendida com o quão famintos por poder alguns humanos podem ser à custa de outras pessoas, animais e natureza”, conta.

Olhando agora, o homem devorando a Terra pode ser uma de suas ilustrações mais fervorosas e comoventes sobre as mudanças climáticas, desmatamento e degradação ambiental, temas recorrentes do seu trabalho. Ainda assim, como o documentário de Arthus-Bertrand que a inspirou, ela também ilustra momentos de esperança e sustentabilidade, nos lembrando da capacidade humana de cura e redenção.

É importante demonstrar ilustrações de vulnerabilidade e mudança, bem como esperança e sustentabilidade

SIMONE GOLOB – ENTREVISTA

O trabalho de Simone Golob pode ser encontrado em vários dos mais importantes jornais e revistas ao redor do mundo, ilustrando tópicos abrangentes relacionados à ciência, ecologia, psicologia e à vida contemporânea. Embora o assunto seja complexo, suas ilustrações despertam interesse e são diretas o suficiente para chamar a atenção dos leitores tanto nas bancas de jornal quanto na internet.

Simone também é uma das artistas colaboradoras da Shutterstock e contempladas pelo The Create Fund — programa de concessões para artistas que cobrem alguns dos problemas mais críticos do século, de saúde mental à mudanças climáticas. A seguir, ela conta mais sobre o processo e comprometimento de ilustrar um dos problemas mais vitais e preocupantes da humanidade.

Entender a ciência por trás das mudanças climáticas é essencial

Quando você desenvolveu o interesse por ecologia e ciência e o que te inspirou a combiná-los com sua paixão por arte?

Temas científicos começaram a aparecer desde quando comecei a trabalhar como ilustradora para o jornal universitário Observant. O jornal foi um dos meus primeiros clientes e segue sendo um dos mais fiéis. Eu estou com eles há mais de 20 anos.

Ilustrar temas científicos é algo em que eu entrei quase por acaso. Mas, atualmente, acredito que temas como ecologia e mudanças climáticas são assuntos que não podem ser ignorados, e isto se torna cada vez mais claro com o tempo. Esses são temas que fazem parte do meu dia a dia.

Embora eu entenda que a Terra está sendo explorada, eu continuo chocada. Ocasionalmente, quando sou confrontada com dados sobre mudanças climáticas e suas consequências, seja lendo um artigo ou assistindo à televisão, eu tento ter hábitos mais conscientes e sustentáveis.

Com a Terra sendo explorada diariamente, é importante ser consciente quanto à sustentabilidade

De que forma a arte pode ajudar a criar mudanças positivas?

Tem sido bom ver mais pessoas elucidando temas como mudanças climáticas e sustentabilidade de forma criativa nos últimos anos. Qualquer forma de arte, pesquisa ou jornalismo que crie consciência pode contribuir para a mudança, seja em filmes, literatura, notícias, ciência ou arte.

Pode-se conscientizar as pessoas sobre o tema por meio da arte, pesquisa e jornalismo, para citar alguns exemplos

Você trata de temas e assuntos complexos no seu trabalho. Como transformar uma ideia abstrata em uma obra de arte envolvente?  

Para ir de uma ideia abstrata a uma imagem eu normalmente uso clichês. Eu tento manter o meu trabalho o mais simples possível. Sem muitas frescuras, apenas formas simples e cores básicas. Se estamos falando de uma ilustração, especialmente alguma que acompanhe um texto, eu acho mais eficaz quando você vai direto ao ponto em um único olhar. Ela não deve parecer um quebra-cabeças que o leitor tem que decifrar.

Mantenha a simplicidade, mas gere um impacto

Como é o seu fluxo de trabalho normalmente?

Pode ser feito de diferentes formas, dependendo da imagem. Eu sempre começo pelo tema, seja na forma de um texto que recebi do cliente ou algo que me inspire a começar a desenhar. Às vezes, a imagem aparece na minha cabeça em uma fração de segundo. Essas são as ilustrações que eu normalmente mais gosto.

Porém, às vezes, eu tenho que procurar pela ‘imagem certa’. Nesse caso eu procuro fotos na internet que sejam relacionadas ao tema e faço um tipo de colagem com elas. A partir dessa colagem, eu passo pelo processo de simplificar e filtrar, removendo o que não é essencial, até eu finalmente chegar no núcleo do assunto.

Ao trabalhar com um tema, remova qualquer coisa que não seja essencial

Recentemente a Shutterstock lançou o The Create Fund com uma bolsa para artistas que retratam as mudanças climáticas e paisagens em mutação. Quais dicas você daria para artistas em ascensão que querem tratar esses problemas?

Eu moro em uma cidade universitária e quando olho para pessoas mais jovens, das novas gerações, eu tenho a impressão de que eles sentem um senso de urgência, afinal de contas esse é o mundo que eles vão herdar. Isso cria um ímpeto pela mudança que eu acredito ser mais forte do que o que vimos com a minha geração.

Eu, honestamente, não acredito que essa geração emergente espere minhas dicas. Eles sabem muito bem os desafios e a importância de falar sobre esses assuntos, e isso é algo que me deixa muito feliz e grata. Quanto ao conselho para ilustradores em ascensão, a única coisa que posso dizer é que eu acredito que todos devem achar seu próprio caminho. O que funciona para mim é manter minha produtividade em alta.

Mantenha sua produtividade em alta

Como você se manteve inspirada, especialmente no último ano?

Minha vida tem sido frenética há um bom tempo. Desde que eu me formei na escola de artes, eu sempre saio de um projeto direto para outro. Esse ano foi um ano de pausa. Durante os primeiros meses da crise do coronavírus, eu cheguei a pensar em fazer algo completamente diferente, como abrir uma loja de produtos orgânicos locais ou uma galeria de arte local.

Porém, no fim, eu cheguei à conclusão de que eu sou, no meu cerne, uma pensadora visual e que o melhor jeito de eu contribuir é continuar no caminho em que eu já estava. Ultimamente, eu tenho me inspirado no meu próprio mundinho, fazendo retratos dos meus entes queridos, da minha vida cotidiana e retornando aos fundamentos.

Minhas fontes de inspiração sempre foram bem amplas, desde histórias no rádio e jornais, até minha cidade, o trabalho de outros artistas locais, minha família e animais de estimação. Acredito que isso também explica porque minhas imagens às vezes seguem tantas direções diferentes.

Encontre inspiração no dia a dia

Saiba mais sobre a Simone Golob visitando seu site e portfólio Offset.

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no FTCMAG.



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