Kaju, Kalina Juzwiak, é uma artista brasileira que vem ganhando cada vez mais relevância no mercado por seu talento e por apresentar uma forma bastante singular de se expressar: ela realiza suas obras em paredes, uma tendência que cada vez mais ganha força no Brasil e no mundo.

Desde criança, kaju se expressava sobre o papel, externalizando tudo aquilo que estava dentro dela e que, por ser muito tímida, não conseguia expressar em palavras. Ao crescer, ela pediu para os pais para explorar outro espaço que, mais para frente, se tornaria em seu principal objeto de trabalho: a parede de seu quarto. Hoje este trabalho tomou grandes proporções.

Os desenhos dela conquistaram também empresas consagradas como L’Oreal, Ana Capri, Jaguar, MontBlanc, Hotel Pullman e Accor Hotels. Por aqui, ela já apareceu contanto um pouco sobre o seu trabalho. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. Kaju adotou certos costumes, uma vida mais minimalista, e hoje fala sobre o que isso representa e por que ela o considera importante, baseada nas suas próprias experiências como artista. Confira entrevista:

MINIMALISMO E ASSIMÉTRICO: O REFLEXO E A EXPRESSÃO DA ESSÊNCIA DE KAJU

FTC: Kaju, o que mudou de quando conversamos?

Estou sempre em movimento, buscando uma evolução pessoal e também conectada ao coletivo. Dentro deste contexto a arte surge como um produto, como um reflexo e expressão de um estilo de vida que escolho viver todos os dias. E este vem se modificando um pouco nos últimos tempos – logo tudo à minha volta também passa por transições. Estou ainda mais conectada comigo mesma, com a minha essência, com os meus valores e a permissão de ser 100% eu, unindo todas as minhas habilidades e capacidades desenvolvidas – assim a arte também aparece com mais personalidade, com mais presença e também com desdobramentos que ainda não haviam sido explorados.

Como parte da minha essência a disciplina se faz muito presente. E foi apenas nestes últimos anos que não só reconheci, mas também abracei este meu lado conectado também à minha criação. A disciplina fez parte da minha educação e faz parte da minha personalidade. E hoje vejo que é ela que me permite viver daquilo que movimenta a minha mente e coração. Alimentação, exercício, planejamento, organização, foco e rendimento são apenas alguns dos pontos que fazem com que eu não me considere apenas uma pessoa totalmente livre para ir e vir, mas também uma empreendedora criativa.

Dentro deste movimento, de presença e determinação, pratico diariamente a rotina, que é talvez uma das maiores aliadas para o sucesso de qualquer atividade que me proponho a fazer. Ao usar a rotina a favor do seu dia, você utiliza a força de desenvolvimento e consistência para realmente se dedicar e ser excepcional em algo que você se propõe à fazer. Ela te dá o foco e a repetição para continuar caminhando em uma direção. E, quanto mais você se propõe a fazer, melhor você fica. Cada passo no seu tempo, compreendendo os seus limites e se desenvolvendo a cada dia. Toda vez que você se propõe a fazer algo, você se torna melhor, você evolui, você se movimenta.

Com isto em mente venho me desenvolvendo como criativa de forma bem holística alinhada à todas estas minhas capacidades e vontades. Acredito na expressão como mensagem primordial a ser passada o tempo todo – porém não mais apenas através do produto da arte – e sim em todos os meus pontos de contato – on e offline. Com isto venho fazendo um trabalho bem intenso de desconstrução no quesito de auto conhecimento para entender realmente o que é esta mensagem que passo, quando as pessoas se deparam com a minha arte e também com a minha presença física – minha expressão como um todo. Buscando o alinhamento entre Kalina (a mulher) e kaju (a artista).

Com isto cheguei ao vazio – ao claro – ao leve e assimétrico que é sempre tão presente na minha vida. O vazio no sentido do equilíbrio entre um movimento complexo, entre um espaço e aquele menos, que acaba somando ao mais e juntos criam uma composição simples e instigante ao mesmo tempo. Venho aplicando este pensamento à minha arte e na vida, em um movimento de minimalismo, no sentido de ter menos bens e viver mais experiências marcantes, e ao mesmo tempo no foco e alto rendimento de uma rotina disciplinada.

FTC: Você se desapegou de muita coisa ultimamente. Pode falar um pouco sobre o seu armário minimalista? Alguma dica para quem quer iniciar essa ideia em casa?

Viver uma vida minimalista é um processo de compreensão e desconstrução de padrões impostos por nós mesmos e por uma sociedade consumista – ao longo do tempo. Trata-se de um questionamento: do que realmente precisamos para viver bem? O armário cápsula surgiu justamente neste contexto na busca de mais rendimento e também o ter menos bens. Um armário enxuto vai me ajudar a praticar este ato de sustentabilidade perante o consumo, diminuir o número de escolhas e decisões que faço em um dia, aumentando a produtividade e rendimento, me dando a facilidade de colocar tudo em uma mala e partir para qualquer experiência que aparecer. A atitude de ter uma mala, e me adaptar a qualquer ambiente e possibilidade. Descobri que não preciso mais do que isso.

Descobri um padrão de comportamento de muitos anos que sempre me levava aos macacões. Desde pequena foi uma peça que me atraiu – uma peça fácil de vestir, de compor e que pode transitar entre o conforto e a elegância de forma rápida. Uni isso ao meu estilo de rotina – ativa, dinâmica e que ao mesmo tempo exige estas duas características – conforto e elegância. Dessa forma, junto a estilista Simone Korody, estudei muitas referências visuais e juntas fizemos um estudo de cortes e caimentos no corpo, através de tecidos e roupas de diferentes marcas. E, assim, descobri um estilo minimalista que valoriza o desenho do meu corpo e da minha personalidade também. E assim a mensagem como um todo – através destas 14 peças que compõe o meu armário – unidas a alguns acessórios como casacos, cachecóis, camisetas, roupas de ginástica e de banho – reflito minha expressão através da minha presença. E consequentemente a mesma linha da minha arte.

Como falei – e muitas pessoas me perguntam – mas como você conseguiu fazer isso? Não é do dia para a noite que você se torna minimalista, assim como artista, ou adquire uma rotina e hábitos. Tudo se trata de um processo gradual. O desejo de mudança é um reencontro com o nosso eu interior e, para que isso aconteça, o auto conhecimento é de extrema importância e quase que uma peça essencial neste desenvolvimento. Precisamos aprender a antecipar os nossos comportamentos e não nos deixar ser levados por eles. Desta forma temos a capacidade de termos reações positivas e construtivas em qualquer situação que possa vir a acontecer.

FTC: Você começou o projeto #disciplinacriativa no Instagram. Qual o objetivo e a principal dica que você poderia dar para quem quer viver da arte ou de seu próprio negócio criativo?

Se analisarmos de forma prática e transparente, você tem duas escolhas: sentar-se no escuro e esperar que alguém apareça e ascenda a luz. Ou você pode levantar da sua cadeira e ligar a luz sozinho. Na segunda opção, você se torna a razão e diretamente responsável pelos seus resultados. E, a única forma de mudarmos o mundo, os nossos comportamentos e um negócio, é se começarmos a mudar a nós mesmos. Para isso, diariamente, temos que passar um tempo dedicado a nós e em nós. Nos conhecermos, consciente e inconscientemente. E sim, vamos errar, cair, falhar e ser rejeitados, mas temos que manter a cabeça erguida e encarar cada passo como parte da construção do nosso caráter.

Se você consegue olhar para frente, você também consegue se levantar. E para este levantar não basta apenas refletir a respeito, é preciso trabalhar para alcançar cada passo para os seus objetivos. É preciso sacrificar o que você se tornará automaticamente, para trabalhar em quem você quer se tornar. Não existem atalhos, mesmo que a maioria das pessoas busque este caminho – porquê aparentemente é mais fácil. Se você aprender a amar o seu problema, a encarar os obstáculos, você não só enfrenta, mas também constrói o seu movimento. Através de dedicação você encontrará os caminhos de menos resistência até o seu sucesso. E, uma das ferramentas mais úteis para você alcançar este sucesso, é a disciplina – e a intimidade que você constrói com ela. Esta é a minha visão quando conecto a disciplina à criatividade. É possível que você tenha certa facilidade para criar, mas do que adianta esta facilidade, se você não aparece todos os dias para trabalhar?

FTC: O que tem te inspirado hoje em dia? A fazer essas mudanças?

Diariamente me surpreendo com os benefícios que este estilo de vida me traz. E um dos maiores é a liberdade! Aprendi que para mim é a liberdade da preguiça e da procrastinação, a liberdade de expectativas e ruídos dos outros, a liberdade da fraqueza, do medo e da dúvida. A liberdade de me alimentar bem, me movimentar e sentir os benefícios diretos que tem sobre a minha saúde e produtividade. A disciplina pode nos ajudar a sentirmos a nossa força interna. Deixamos de ser escravos dos nossos pensamentos e das nossas emoções e ao invés disso, nos masterizamos em nós mesmos.

Esta disciplina individual tem a capacidade de motivar o nosso ser, independente de estados emocionais negativos ou influências externas. Nós somos sim maiores do que o nosso contexto. E eu sou o meu maior exemplo de que sempre posso mais. De que não há limites para onde a aplicação desta conjunção pode ir. Criar e criar – sair da zona de conforto o tempo todo – e ter tempo suficiente para isso – e muito mais! Isto me inspira todas as manhãs, quando acordo e faço o meu exercício. Me conecto aos meus pensamentos e ao dia que está começando.

Paro por um instante logo depois, onde faço uma meditação para deixar todos estes pensamentos se acomodarem no inconsciente também e então estou pronta para começar o dia. Com um café da manhã rico em nutrientes, o dia está aberto e livre para eu fazer aquilo que quero e da forma que quero. A liberdade de ser eu e de trabalhar com aquilo que me movimenta em todos os instantes.

FTC: Kaju, pode contar o que vem pela frente?

Com esta liberdade crescendo mais e mais, tenho também saído da zona de conforto dos projetos que crio ou que me envolvo. Estou aprendendo e entendendo o potencial criativo que tenho em diferentes âmbitos – que vão além das linhas de uma pintura. O corpo, a sabedoria, as conexões únicas que podem ser feitas, quando se abre a mente para uma visão ainda mais sistêmica.

Ensaios, onde uso o corpo para questionar paradigmas e comportamentos; um livro, co-criado com uma amiga querida e ser humano incrível, durante um ano de muito aprendizado e desenvolvimento pessoal; séries e ensaios individuais, e em conjunto com outros criativos, onde me coloco à prova daquilo que me move no íntimo mais profundo; uma websérie e mais, onde compartilharei conteúdos voltados a esta conexão e experiência que estou vivendo com a união deste mundo da disciplina e da arte.

E no fim, tudo isto vem de um mesmo lugar – da vontade de expressar tudo isto que se conecta aqui dentro, para o lado de fora também sentir e se conectar a um movimento de impacto positivo no mundo.

“Não existe regra e nem fórmula. Mas, posso dizer que em grande parte dos momentos, meu trabalho flui com leveza e certeza. Por vezes de forma rápida e espontânea. Em outras, exige um pouco mais de procrastinação criativa” – kaju conta.

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Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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